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Ciência

Mente e alma unidas

Psiquiatra da USP defende a convergência da neurociência e da psicanálise como a maneira mais eficiente de tratar transtornos mentais

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postado em 04/10/2012 08:00 / atualizado em 03/10/2012 12:15

Belo horizonte — Desde o fim do século 19, duas perspectivas disputam o título de abordagem mais adequada para compreender e tratar doenças mentais. Uma delas é biológica: as explicações para as patologias psiquiátricas estariam no funcionamento do sistema nervoso central, e as intervenções psicofarmacológicas seriam o recurso para tratá-las. A outra perspectiva, inaugurada e até hoje fortemente influenciada pela psicanálise de Sigmund Freud, é mentalista: a experiência subjetiva e a psicoterapia seriam mais eficientes.  

Essas duas visões raramente dialogaram, até que, na visão do psiquiatra Frederico Graeff, a neurociência proporcionou uma visão intermediária entre as duas e trouxe progressos para a compreensão e o tratamento de vários distúrbios. Entusiasta desse equilíbrio entre mente e cérebro, o professor titular da Universidade de São Paulo (USP) aposta no conceito da complementaridade para solucionar tal impasse, como deixou claro durante sua participação no 6º Simpósio Internacional de Neurociências da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), realizado na semana passada em Belo Horizonte. Com o conceito, Graeff tenta resolver o desacordo entre as duas modalidades de conhecimento: a objetiva e a subjetiva, a neurociência e a psicanálise.

“A partir dessa perspectiva, pode-se admitir uma convergência entre conhecimentos adquiridos pelo método científico e pela interiorização possibilitada pela psicanálise”, defende o pós-doutor pela Universidade de Harvard e ex-professor visitante na Universidade de Oxford. Graeff é contrário a explicações estritamente biológicas para as doenças mentais, que negam a psicologia e caracterizam o que ele chama de “psiquiatria desalmada”, um modelo médico, por essência, que desde a segunda metade do século 19 busca encontrar lesões cerebrais macroscópicas e microscópicas para explicar doenças mentais. Ele também não está de acordo com justificativas calçadas inteiramente nos traumas psicológicos inconscientes, que consolidaram o que trata como “psiquiatria descerebrada”, tornando o cérebro pouco relevante.

Estudioso da ansiedade, dos mecanismos de ação da serotonina e da neurobiologia do transtorno do pânico, Graeff recorre ao psiquiatra e filósofo alemão Karl  Jaspers (1883-1969), segundo o qual a psiquiatria é uma ave que precisa de duas asas para voar – o conhecimento objetivo e o subjetivo –, para justificar seu posicionamento e revelar como uma atitude conciliatória tem se fortalecido nos mais recentes círculos científicos. Para Jaspers, existem dois tipos de conhecimento. “O primeiro é obtido pelo método das ciências naturais, exigindo distanciamento afetivo e objetividade por parte do observador. É genérico, público e pode ser validado pela observação sistemática e, sobretudo, pelo teste experimental. O segundo exige empatia, é subjetivo, pessoal e busca significado.”

Relatos X neuroimagem
Um exemplo de como essa convergência entre neurociência e psicanálise pode colaborar com a compreensão de alguns quadros clínicos é o experimento de Donald Price, professor de neurociências na Universidade da Flórida, Estados Unidos. Pacientes com cólon irritável tiveram balões inflados no intestino para provocar fortes dores enquanto tinham a atividade neural avaliada por exames de neuroimagem. Conversando com o paciente, Price registrava seus relatos subjetivos, ao mesmo tempo em que visualizava o que ocorria em seu cérebro. Ao receber um placebo positivo, o paciente criou uma expectativa de alívio e relatou diminuição da dor. Nesse mesmo momento, a neuroimagem mostrou uma redução de atividade nas áreas cerebrais responsáveis pela sensação de dor.

“Apenas com as informações da neuroimagem, saberíamos que alguma coisa estava ocorrendo, mas não poderíamos afirmar que era a perda de sensibilidade à dor. Por outro lado, se apenas ouvíssemos o paciente, saberíamos que ele estava sentindo menos dor, mas não conheceríamos o que em seu sistema nervoso central estava determinando a sensação. Ou seja, não teríamos uma compreensão integral. A análise neural proporcionada pela neuroimagem, umas das contribuições das neurociências, explica o que o paciente disse estar sentindo: há menos dor porque há menos atividade nas regiões cerebrais que controlam a dor.”

Já o nível subjetivo, possível pelo relato do paciente, proporcionou o significado do aspecto neural. “Precisamos de ambos para compreender o fenômeno em profundidade”, defende Graeff. Segundo ele, várias patologias psiquiátricas estão sendo mais bem compreendidas e, consequentemente, tratadas de forma mais eficiente, desde que as duas abordagens passaram a ser usadas em conjunto.

Ataques de pânico

O modelo teórico de explicação da patologia do pânico, que tem como evento mais característico o ataque de pânico — a sensação de pavor acompanhada de alterações corporais, como taquicardia, sensação de desmaio e mãos frias, que podem durar minutos —, é um dos que se beneficiaram desse conceito de complementaridade. Segundo o psiquiatra Frederico Graeff, o fato de esses ataques serem imprevisíveis gera uma ansiedade muito grande. Por causa dos avanços permitidos por essa perspectiva, esses episódios podem ser mais bem compreendidos. Já se sabe que estão relacionados com as respostas dadas pelos mamíferos ao perceberem uma situação de perigo iminente. Trata-se de uma reação de fuga ou luta, reação a um pedido do sistema cerebral que organiza essas respostas por redes neurais bem conhecidas. Já há evidências de que o paciente com pânico tem esse sistema de fuga ou luta hipersensível.

“O ataque de pânico é a reação a um perigo sem que ele exista. É como se um alarme de incêndio, programado para disparar apenas com fogo, fosse acionado com o simples riscar de um fósforo. Algo está errado”, explica o psiquiatra.

O ataque de pânico é uma sensibilidade visceral exagerada. “Por exemplo: ao perceber uma palpitação do coração, o paciente acha que está tendo um infarto, enquanto um indivíduo normal não daria muita importância para a situação”, explica. Todo esse entendimento só foi possível graças ao modelo teórico que contemplou elementos tanto biológicos como psicológicos, permitindo tratar melhor o transtorno. Hoje, a abordagem mais comum é feita com medicamentos, mas para Graeff também poderia ser tratado com a terapia cognitivo-comportamental. “Teríamos, assim, uma interpretação integrando a biologia e a psicologia. A neuroimagem tem mostrado como altera o funcionamento cerebral de maneira persistente, da mesma forma que a farmacoterapia.” (CC)

 

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