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CIÊNCIA

Investimento necessário

Estudo publicado na revista Science calcula que a preservação das áreas florestais e das espécies ameaçadas necessita de US$ 76 bilhões por ano. Segundo os autores do levantamento, o mundo perde muito mais ao não proteger a natureza. Conferência na Índia debate o tema

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postado em 12/10/2012 15:41

Max Milliano Melo

 

O custo de preservação das espécies varia muito. A previsão para salvar o condor-da-califórnia, por exemplo, é de US$ 10 milhões por ano (Orville Myers/Monterey County Herald/AP - 2/7/08 ) 
O custo de preservação das espécies varia muito. A previsão para salvar o condor-da-califórnia, por exemplo, é de US$ 10 milhões por ano
Em 2010, reunidos em Nagoya, no Japão, representantes de 200 países assumiram audaciosos compromissos para barrar a extinção em massa de espécies animais e vegetais. O plano, conforme ficou acertado, deveria ser concluído até 2020. Passados dois anos, no entanto, uma questão crucial para o sucesso da estratégia de preservação permanece sem resposta: quem vai pagar a conta? Estudo realizado por um grupo internacional e divulgado na edição de hoje da revista Science calcula que a ampliação e a manutenção das áreas de proteção ambiental e a adoção de políticas de preservação das espécies ameaçadas exigem um investimento de US$ 76 bilhões (cerca de R$ 152 bilhões) por ano. Para chegar a essa cifra, o grupo de pesquisadores, liderados pela organização Bird Life International, tomou como base os investimentos necessários para a preservação e manutenção das aves, grupo animal com mais informações disponíveis em todo o mundo. O que preocupa, alertam os especialistas, é que, até agora, apenas 12% desse valor está assegurado, com investimentos na ordem de US$ 4 bilhões. “A conservação da natureza é ainda muito mal financiada em geral”, explica o diretor de Ciência, Política e Informação da Bird Life, Leon Bennun, que, apesar da constatação, mantém uma ponta de otimismo. “As pessoas que trabalham na conservação tendem a utilizar o dinheiro de forma muito eficiente. É evidente, portanto, que onde o compromisso é compensado com recursos suficientes, a conservação é bem-sucedida: as espécies ameaçadas podem ser salvas”, completa. Costurado durante a Conferência das Partes para a Biodiversidade (COP-10), o Protocolo de Nagoya prevê o cumprimento de metas como a redução do desmatamento entre 50% e 100%, dependendo da região, e a inclusão em áreas de proteção ambiental de pelo menos 17% das florestas e de 10% dos ecossistemas marinhos — em 2010, esses índices eram de 12% e 1%, respectivamente. Além disso, uma das partes mais importantes do documento determina que, até 2020, todas as espécies que constam da Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas tenham planos de conservação e sua população melhorada. COP-11 Iniciada na quarta-feira passada, em Hyderabad, na Índia, a COP-11 da Biodiversidade tem o objetivo de revisar o protocolo e analisar questões que foram deixadas para trás em Nagoya — na maior parte das vezes por falta de acordo. A questão do financiamento do plano, a mais delicada e deixada em aberto na reunião de 2010, deve dominar as negociações, que se encerram no dia 19. Como tem ocorrido em eventos desse tipo, o embate deve se dar dividindo países ricos, liderados principalmente pela Europa, envolvida em uma grave crise econômica, e as nações em desenvolvimento, entre as quais o Brasil assume uma posição de destaque. A grande questão é que um grupo de cerca de 20 países apenas, incluindo Brasil, Índia e África do Sul, detém mais de 80% da biodiversidade do planeta. Para esse conjunto de nações, os custos da preservação das espécies que abrigam deve ser repartido com o resto do mundo, sendo que a maior parte da conta deve ir para os Estados mais ricos. “Os países mais desenvolvidos cresceram à custa da biodiversidade. A convenção entende que eles têm responsabilidade com os países em desenvolvimento”, argumenta, em entrevista a agências internacionais de notícias, Daniela Suarez Oliveira, diretora do Departamento de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Além desse jogo de forças, outro fator torna o processo de negociação ainda mais complexo: o custo de preservação de cada espécie é bastante variável, dificultando os cálculos. “Animais como o condor-da-califórnia podem exigir mais de US$ 10 milhões por ano para melhorar seu status de preservação”, exemplifica o pesquisador Stuart Butchart, que participou do estudo divulgado hoje na Science. “Enquanto isso, outras espécies podem exigir menos do que US$ 50 mil anuais”, acrescenta. Relativo Apesar de que os US$ 76 bilhões necessários para conter a perda de biodiversidade pareçam uma quantia alta, os pesquisadores relativizam o valor. “Acho estranho que muitas pessoas ainda pensem que a conservação da natureza é um extra, um luxo que pode ser colocado em espera enquanto a ‘economia’ está se resolvendo. Não é. Mais do que qualquer outra coisa, a crise econômica nos lembra quão urgentes são esses investimentos na natureza”, critica Leon Bennun, do Bird Life. A ligação entre a melhora econômica e a preservação ambiental é justificada pelo custo da perda de biodiversidade. Ao destruir a natureza, o homem piora a qualidade do ar e da água, gerando mais doenças na população; perde a chance de explorar espécies ainda desconhecidas para a fabricação de novos remédios e sofre com o aumento de catástrofes naturais, como deslizamentos de terra, furacões e enchentes. Estima-se que esses e outros efeitos da devastação causem um prejuízo anual entre US$ 2 trilhões e US$ 6,6 trilhões. Se o argumento ainda não convence, Stuart Butchart traz outro dado: “Mais prosaicamente, o total exigido é menos de 20% do que é gasto no mundo todos os anos com o consumo de refrigerantes”. Ameaçados A Lista Vermelha é desenvolvida desde 1963 pela União Internacional para a Conservação da Natureza e incorpora o nome de todas os seres vivos que, de alguma forma, estão ameaçados de extinção. Atualmente, há na relação 63.837 espécies animais, 14.582 vegetais e 18 de outras formas de vida, como fungos e protistas.

 

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