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SAÚDE

Aids progride com ação de vírus desconhecidos

Pesquisadores identificam no intestino de macacos 32 micro-organismos não descritos pela literatura e com participação no progresso da imunodeficiência. A descoberta pode contribuir para o desenvolvimento de terapias que reprimam o HIV

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postado em 12/10/2012 15:41 / atualizado em 12/10/2012 16:26

Bruna Sensêve

É conhecido pela comunidade médica que seres humanos com Aids tendem a sofrer com danos gastrointestinais. Esse processo contribui para a ativação do sistema imune, sua consequente deficiência e, por último, o avanço da doença. O mesmo ocorre com macacos infectados pelo vírus da imunodeficiência símia (SIV), equivalente ao HIV. Mas a relação entre os micro-organismos e o avanço da imunodeficiência ainda precisa ser mais bem entendida pelos cientistas. Em busca dessas respostas, pesquisadores das escolas de medicina das Universidades de Harvard e de Washington acabam de descrever geneticamente os micro-organismos encontrados na flora intestinal de macacos infectados. Na análise, encontram muitos que sequer são descritos na literatura e com potencial para infectar o organismo e manifestar a doença.

“Nós descobrimos que o trato gastrointestinal dos animais com Aids continha um grande número de vírus anteriormente não descritos, incluindo potenciais agentes patogênicos. Ao mesmo tempo, não vimos quaisquer mudanças óbvias nas bactérias. Isso significa que os vírus anteriormente não reconhecidos podem contribuir para a progressão da Aids em macacos”, explica Dan Barouch, coautor do estudo e pesquisador da Escola de Medicina de Harvard e do Centro Médico Beth Israel Deaconess, em Boston.

Segundo Vivian Avelino-Silva , médica infectologista do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Investigação em Imunologia e do Departamento de Moléstias Infeciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o intestino é um importante órgão imunológico. Cada alimento ingerido possui elementos que devem ser reconhecidos e processados antes de serem absorvidos. A resposta do intestino não deve ser exagerada nem insuficiente. Assim, é possível controlar ao mesmo tempo quais nutrientes entram e quais micro-organismos ou toxinas devem permanecer fora do corpo.

“As infecções intestinais persistentes podem provocar desequilíbrio nessa resposta. O intestino passa a reagir exageradamente à presença de alimentos, bactérias, vírus ou outros antígenos. Dessa forma, ele gera um estado de inflamação permanente que pode ter impacto em todo o corpo, inclusive facilitando a progressão da infecção pelo HIV ou pelo SIV”, detalha a médica. Ela explica que os vírus descritos pelos cientistas americanos entram no organismo por meio de alimentos, pelo contato com secreções respiratórias ou pelas excretas de outros animais.

“Nos animais com infecção patogênica, devido à perda da resposta imunológica, esses vírus ficam detectáveis e podem causar doenças. Além disso, eles podem provocar desequilíbrio da resposta imunológica do intestino”, completa Vivian. O resultado seria um ciclo vicioso: perda da resposta imunológica seguida de múltiplas infecções intestinais, uma inflamação intestinal exagerada e a piora da resposta imunológica em todo o corpo.

Sequenciamento
Para investigar o que provoca danos gastrointestinais em macacos e em humanos com Aids, os investigadores utilizaram um método de sequenciação de próxima geração (NGS), que permite obter sequências genéticas de todos os organismos bacterianos, virais e de outros residentes no trato gastrointestinal. Com essa técnica, eles examinaram as fezes de macacos com SIV induzidos à manifestação da Aids, macacos sem infecção pelo SIV (grupo de controle) e macacos infectados com cepas de SIV, o que não causa a manifestação da doença.

De uma forma geral, as cobaias infectadas apresentaram um número 10 vezes maior de vírus de diversas espécies. Elas tinham pelo menos 32 vírus no trato intestinal que nunca haviam sido descritos. Alguns deles chegaram a ser encontrados em circulação no sangue dos animais. Os cientistas explicam no estudo que ainda não está claro por que os macacos com Aids têm mais vírus intestinais, mas o fato pode estar relacionado ao comprometimento do sistema imunológico.

Além disso, grande parte dos vírus descritos têm o material genético constituído por RNA, o que os torna mais agressivos. “A descoberta amplia a questão da necessidade de repensar a forma como estudamos os genomas de micro-organismos que podem afetar doença”, avalia Herbert Virgin, da Escola de Medicina da Universidade de Washington, em Saint Louis.

Entre os vírus encontrados, duas espécies em particular chamam mais a atenção: os parvovírus e os adenovírus. Os primeiros são encontrados na circulação sanguínea dos animais durante a Aids avançada. Já os adenovírus estão associados diretamente à inflamação inesperada na mucosa dos intestinos com enterite inesperada, indicando que a infecção por esse micro-organismo pode ser ligada à patologia observada nos danos gastrointestinais pela Aids. Nenhuma alteração na composição do microbioma bacteriano foi detectada.

Novos tratamentos
A pesquisa foi publicada na revista Cell desta semana e fornece uma oportunidade de explicar e até mesmo intervir nos processos que levam à progressão da Aids. Para Luciano Goldani, professor de microbiologia e infectologia do Hospital das Clínicas de Porto Alegre da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, um possível desdobramento da pesquisa, se o problema for confirmado em humanos, seria um marcador da doença que indicasse a sua progressão. “Ainda mais interessante é que ele traz à tona que o alimento que estamos ingerindo pode ser importante nesse processo. O macaco infectado teve uma propensão para desenvolver complicações por meio de uma dieta”, analisa.

Segundo ele, pode-se pensar até em tratamentos específicos para erradicar ou prevenir a ação desses vírus. “Hoje temos tratamento que não são a cura, mas que podem controlar a Aids. Talvez possamos pensar no futuro em um tratamento que controle também a questão intestinal”, aposta. Goldani afirma que, apesar de necessitarem de uma tecnologia mais avançada, esses estudos em humanos não são tão complicados de serem realizados.

 

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