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TECNOLOGIA

Luva musical para fisioterapia

Equipamento que gera vibração nos dedos para pacientes acompanharem uma música ao piano ajuda na recuperação da sensibilidade das mãos de pessoas com lesão na medula cervical

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postado em 12/10/2012 16:30 / atualizado em 12/10/2012 17:07

Roberta Machado

Conforme a música toca, as teclas do piano se acendem, indicando onde estão as notas que formam a melodia. O aprendiz acompanha a composição com o auxílio visual e acerta os movimentos com precisão, graças a uma luva que avisa, por meio de vibrações, qual dedo corresponde àquela nota. Esse método de ensino ainda não criou nenhum pianista profissional, mas já teve resultados impressionantes em uma área completamente diferente: a medicina. A luva musical ajudou um grupo de pessoas que sofreram traumas na coluna vertebral a recuperarem parte da sensibilidade perdida nas mãos.

O invento surgiu no Instituto de Tecnologia da Geórgia, nos Estados Unidos, como um sistema de aprendizado. O Toque Musical Móvel, como foi batizado, é formado por uma luva e uma pequena caixa na parte de trás, onde fica o receptor que recebe as informações do programa e as traduz em vibrações nas bases dos dedos do usuário. O dispositivo funciona com uma ligação wireless conectada a qualquer computador ou MP3 player, o que possibilita o uso do sistema em praticamente qualquer lugar.

Logo uma clínica de reabilitação viu o potencial no projeto e convidou os criadores do equipamento a testá-los na fisioterapia. As lições de piano foram dadas a um grupo de 10 pessoas que tinham perdido parte do tato depois de sofrerem acidentes que afetaram a coluna. Enquanto metade delas apenas tentou acompanhar as teclas que acendiam, as outras contaram também com o auxílio da luva. A rotina de 30 minutos foi repetida três vezes por semana.

Depois de dois meses de treinamento, todos passaram por testes com diferentes texturas e formatos de objetos para medir a sensibilidade dos dedos. Os voluntários que tiveram acesso ao dispositivo apresentaram uma melhora muito mais significativa que o outro grupo. “O que mais surpreende é a grande diferença que houve nas sensações que as pessoas recuperaram depois de usar a luva. Um indivíduo me disse que agora consegue pegar objetos muito pequenos, o que ele não conseguia antes”, descreve Tanya Markow, coordenadora do estudo.

Os pacientes haviam sofrido o dano vertebral há mais de um ano, um prazo que normalmente indica poucas esperanças de melhoras em um novo tratamento. Depois desse período, a neuroplasticidade dos pacientes limita bastante os resultados da fisioterapia. “Isso foi muito empolgante, porque teve um impacto imediato na vida de alguns dos participantes. Vimos uma diferença muito maior do que esperávamos”, anima-se Tanya. Todos os pacientes que participaram do estudo sem a luva pediram depois para repetir a experiência, dessa vez com a ajuda do equipamento — e conseguiram melhorar seus resultados.

Os usuários que testaram o aparelho chegaram a levar a luva para casa depois das sessões de terapia, e passaram duas horas por dia sentindo as vibrações musicais longe do piano, enquanto realizavam outras tarefas. O “dever de casa” reforçou os resultados do treinamento mesmo sem exigir a atenção dos voluntários. Para os especialistas, o tratamento passivo acionou uma atividade sensória que estava dormente nas mãos, o que lhes garantiu um progresso ainda maior.

Lúdico
Na opinião de Hugo Alves de Sousa, professor de fisioterapia do Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), o treinamento tem outra grande vantagem. “Todo tratamento que envolve o lúdico não deixa o sujeito se tornar indiferente ao tratamento. Ouvindo uma música, vendo as teclas, ele participa mais, e aquilo vai ter muito mais significado para ele”, avalia. Como o estímulo é feito em três sentidos diferentes — tato, visão e audição —, a tendência é que o progresso seja ainda mais reforçado.

Segundo Thad Starner, um dos criadores da luva musical, o sistema não substitui os tratamentos de fisioterapia usados hoje. “É um sistema fundamentalmente diferente, é difícil comparar com outros. Eu sugeriria o uso em conjunto com os tratamentos tradicionais”, pondera o professor especializado em acessórios tecnológicos. “Trabalhamos com a seguinte necessidade: o que acontece se o plano de saúde não cobre mais a reabilitação, um ano depois do acidente? Queremos fazer algo eficiente, barato e divertido, para que as pessoas continuem o tratamento e melhorem”, acrescenta. O dispositivo está em desenvolvimento e ainda não há planos de comercialização do produto.

 

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