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Tecnologia

Efeitos colaterais da vida moderna

Especialistas debatem sobre de que forma os aparatos tecnológicos podem interferir em processos como a formação da memória e a comunicação entre as pessoas

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postado em 18/10/2012 08:00 / atualizado em 17/10/2012 11:44

Cristiana Andrade

Belo Horizonte —
Capacidade de pensamento reduzida, comprometimento da memória, dificuldade em escrever, queda na produção intelectual e atenção dispersa. Não, essas não são características de uma pessoa idosa ou com problema neurológico. São alguns dos efeitos adversos gerados pela excessiva exposição das pessoas às tecnologias informacionais e computacionais (TICs) do século 21, que vêm sendo amplamente investigadas por pesquisadores de diversas universidades e centros de ciência do mundo. O tema será discutido durante o 2º Seminário de Gestão da Inovação Tecnológica em Saúde, que começa amanhã e vai até sábado, na Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A discussão — interdisciplinar, por reunir professores, estudantes e pesquisadores de áreas como medicina, enfermagem, farmácia, letras, ciência da informação e gestão de serviços de saúde — jogará luz sobre um tema relacionado à vida de grande parte da população mundial: as novas tecnologias. É inegável que elas trouxeram grandes avanços nas telecomunicações, na medicina, nas relações comerciais e na vida em geral, mas o que os pesquisadores querem é ampliar o debate sobre os efeitos adversos das TICs e as implicações na produção do conhecimento e do aprendizado humano.“Dada a exposição excessiva às telas de forma geral, todo o sistema de informações que temos no cérebro está se modificando. A memória está sofrendo sério comprometimento, pois cada vez que usamos um smartphone, um computador pessoal ou um reprodutor de música, acessamos funções de gravação contidas neles. Pode ser o número de um telefone de casa, dos amigos ou dos parentes. Coisas que há pouco tempo estariam registradas na nossa memória, hoje são acessadas apertando uma simples tecla e pronto”, observa o coordenador do seminário, Luiz Carlos Brant, professor de  gestão de serviços de saúde, oferecido na Escola de Enfermagem da UFMG.

Segundo Brant, no caso da memória, os efeitos adversos gerados pelas TICs são modificações morfológicas dos neurônios. “As memórias de longo prazo exigem uma revitalização constante dos neurônios, como o músculo que precisa de exercícios. Por isso, o ‘condicionamento’ e a falta de exercício para a memória a que estamos sendo expostos com as novas TICs são tão prejudiciais.”

O professor explicita outro agravamento do uso excessivo das TICs e de mensagens via celular: a perda na capacidade de escrever, uma vez que, ao digitar o início de uma palavra, esses dispositivos completam as letras. “Isso acarreta o encurtamento do pensamento humano. Pensar, escrever, refletir e criar exigem o ato da contemplação, como na Grécia antiga, quando filósofos escolhiam uma paisagem e deixavam o pensamento fluir. Atualmente,  nossa sociedade é focada na alta produtividade a curto prazo, o que impede esse processo criativo de construção do pensamento crítico”, avalia.

Brant faz questão de destacar que o evento não tem o objetivo de demonizar ou endeusar as tecnologias. “Não é essa a ideia, pelo contrário. Podemos elencar uma centena de benefícios das TICs, como os avanços na qualificação profissional das pessoas, na prestação de serviços, na teleconsultoria (principalmente na saúde, em que há troca de experiências entre profissionais que estão distantes de centros urbanos) e na educação. Mas há questões importantes que estão ocorrendo e muita gente nem se dá conta.”

Uma constatação que se torna cada dia mais real no campo da saúde é a mudança na relação  profissional-paciente, que pode ser tornar, em breve, problema de saúde pública. “As pessoas pesquisam doenças e tratamentos pela rede e chegam ao consultório colocando em dúvida a competência do médico. Com isso, a automedicação tende a aumentar, podendo gerar sérios problemas”, observa.

Pouca conversa

Outra questão que será abordada no evento é a influência da tecnologia na forma de se comunicar. “As pessoas vão se tornando dependentes do pendrive, do celular, do laptop. Com isso, estão sendo criadas outras formas de viver, de ser, de se relacionar e de trabalhar. Há um encurtamento nos processos de conversação: as pessoas se encontram no celular, no laptop, nas redes sociais. Isso, além de impactar as relações pessoais, têm gerado desequilíbrios familiares, principalmente entre pais e filhos adolescentes. Muito do que trataremos no evento e nas nossas pesquisas é embrionário, mas algumas hipóteses têm se confirmado como algo que está mudando a sociedade atual”, acrescenta Brant.

Informe-se
Mais informações sobre o 2º Seminário de Gestão da Inovação Tecnológica em Saúde: efeitos adversos das tecnologias informacionais e comunicacionais podem ser obtidas pelo telefone (31) 3409-8931 ou pelo e-mail cenex@enf.ufmg.br

 

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