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Ciência

Escolhas nada aleatórias

Pesquisa mostra que, quando uma pessoa precisa decidir entre duas opções novas, ela aciona uma rede de associações e age com base no passado. O hipocampo é a área cerebral envolvida no processo

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postado em 24/10/2012 08:00 / atualizado em 23/10/2012 09:37

Marcela Ulhoa

Todos os dias, pessoas espalhadas pelo mundo precisam fazer escolhas entre alternativas sobre as quais não possuem nenhuma informação. Na ausência da marca preferida de sabão em pó na prateleira do supermercado, que produto levar? Ou, então, de qual de dois desconhecidos se aproximar e pedir uma informação? Curiosamente, mesmo diante de situações novas e incertas como essas, o ser humano se mostra capaz de decidir rapidamente e de forma razoavelmente segura. Interessado em entender como se dá esse processo de escolha, um grupo de pesquisadores da Universidade de Columbia, em Nova York, realizou um experimento cujas conclusões indicam que essas opções não são aleatórias, mas sim frutos de um intrincado conjunto de associações que normalmente passa desapercebido para a grande maioria dos indivíduos.

Segundo o estudo, publicado na mais recente edição da revista Science, uma opção que não é valorizada pode se tornar mais atraente se for associada a uma outra que represente algo positivo para a pessoa. Por trás das escolhas, há uma teia de memórias que, relacionadas, faz com que uma das possibilidades apresentadas pareça a melhor. “Nós investigamos os mecanismos pelos quais os circuitos neurais para a memória modulam o valor de uma recordação antiga e orientam as decisões sobre as opções de novas escolhas. Nossa hipótese central foi a de que o hipocampo permite que o valor positivo de recompensa se espalhe pelas memórias associadas, aumentando assim o valor de itens que nunca foram recompensados”, explica Daphna Shohamy, autora do artigo.

Para auxiliar na compreensão do argumento central do estudo, o pesquisador McKell Carter, da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, fornece um exemplo: “Se você gostava muito de um primo que sempre usava sapatos vermelhos, quando você conhecer duas pessoas e uma delas estiver usando calçados desse tipo, você provavelmente vai gostar um pouco mais dela do que da outra, mesmo que você nunca tenha visto nenhuma das duas”.

Carter não participou do estudo, mas ressalta a importância dos novos resultados apresentados pelos pesquisadores da Universidade de Columbia. “Nós normalmente falamos que o hipocampo é o responsável pela memória. Entretanto, o que é muito interessante na pesquisa é que o valor associado a uma recordação particular pode passar para uma nova memória, que não tem nenhum valor, mas que está relacionada à primeira recordação”, ressalta. Segundo ele, o problema decorrente disso seria o fato de uma memória antiga levar a pessoa, por exemplo, a pagar mais por objetos que não são valiosos no sentido real, mas que apenas a lembrem de algo importante. “Suas preferências se tornam inconsistentes e podem ser alteradas apenas porque algo se parece com outra coisa de que você gosta. Esse artigo oferece evidências que é o hipocampo que faz isso acontecer”, pontua.

Ressonância
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores analisaram, por meio de ressonância magnética funcional, a atividade cerebral de 28 voluntários durante um teste dividido em três etapas. Na primeira fase, os participantes foram submetidos a uma série de cartas que formavam pares entre si. Nesse momento, foi estimulado o aprendizado associativo dos participantes, assim como é feito no tradicional jogo da memória.

Já no momento seguinte, metade das cartas mostradas foram seguidas de recompensas financeiras. O restante das imagens não apareceu nessa fase. De acordo com o estudo americano, os mecanismos de aprendizado por recompensa acontecem em uma área específica do cérebro, o corpo estriado. Tal função já era anteriormente conhecida, a novidade, entretanto, veio na terceira e última etapa dos testes. Nessa fase final, os participantes tiveram que escolher algumas cartas entre todas as mostradas ainda na primeira fase. O resultado mostrou que, entre as imagens que não apareceram na segunda etapa, as escolhidas foram aquelas que estavam relacionadas às cartas que tinham rendido recompensa financeira (veja infografia).

As imagens capturadas pela ressonância magnética funcional mostraram que esse processo de aprendizagem de segunda ordem ocorre, majoritariamente, no hipocampo. “Já se sabia que o estriado é uma estrutura intimamente relacionada com o aprendizado das recompensas. O que não se sabia é que o hipocampo é também parte desse circuito. A pesquisa mostrou que essa região do cérebro acaba se envolvendo com o corpo estriado quando se estabelecem relações de segunda ordem”, destaca Carlos Alberto Tomás, neurocientista e professor do Departamento de Ciências Fisiológicas da Universidade de Brasília (UnB). Dessa forma, uma das grandes contribuições do estudo seria a revelação de que o hipocampo é capaz de transferir o valor de uma memória antiga a um novo estímulo, secundariamente ligado ao primeiro, sem a ação do estriado na associação dos dois momentos distintos.

“Antes, achávamos que as escolhas estavam relacionadas principalmente ao córtex pré-frontal, agora é provável que vejamos a possibilidade de integração de informações em outras estruturas, como o hipocampo”, prossegue Tomás. Ele explica ainda que descobrir quais são as áreas relacionadas no circuito neurológico envolvido nas escolhas é importante para entender as falhas do ponto de vista cognitivo. “Esse estudo pode auxiliar as pessoas com dificuldade de tomar decisões, por exemplo.”
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