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Ciência

A política nos sonhos

Pesquisa americana indica que o conteúdo onírico varia conforme as posições ideológicas. Enquanto as imagens criadas por conservadores são mais compatíveis com a vida real, as dos liberais se mostram surreais, incluindo as experiências de voar e de conversar com pessoas mortas

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postado em 25/10/2012 08:00 / atualizado em 24/10/2012 10:06

Com o lançamento de A interpretação dos sonhos, de Sigmund Freud, em 1900, os sonhos deixaram de pertencer apenas ao universo do misticismo e ganharam status de objeto de estudo científico. Desde então, ocorreram vários debates sobre o que significam e que função teriam para o organismo, gerando uma discussão que muitas vezes coloca psicanalistas e neurocientistas em lados opostos. Buscando aprofundar o conhecimento sobre o intrigante fenômeno, nas últimas décadas, pesquisas psicológicas focaram sua relação às mais diferentes variáveis, como idade, gênero, ocupação, estado civil e nacionalidade. Agora, uma pesquisa norte-americana decidiu investigar se o posicionamento político de uma pessoa afeta as imagens produzidas pela mente enquanto ela dorme. E os resultados apontam que sim.

O estudo foi realizado por cientistas das universidades The Graduate Theological Union e John F. Kennedy, ambas da Califórnia, e comparou os sonhos de pessoas conservadoras e liberais dos Estados Unidos. Entre diversas conclusões, uma em especial chamou a atenção dos pesquisadores: enquanto o primeiro grupo costuma sonhar mais com situações mundanas e reais, os liberais produzem cenas bem mais surreais. Kelly Bulkeley, principal autor do estudo, comenta que, até agora, pouco se sabe sobre a relação entre o conteúdo onírico e política. “No entanto, apesar de esses estudos serem pequenos e provisórios, as descobertas iniciais indicam que ele é, significativamente, conectado com a ideologia de alguém”, diz.

Bulkeley analisou 234 participantes, sendo que 134 se definiam como liberais, e 100, como conservadores. Eles responderam questionários sobre diversos temas, como o passado da família, as crenças políticas e religiosas, a qualidade e a experiência dos sonhos que tinham. Ao analisar os dados, o cientista notou que os conservadores dormiam, de alguma maneira, por mais horas e “melhor do que os liberais”. Em contraste, estes últimos tinham menos pesadelos — enquanto 85% dos voluntários deste conjunto relataram sonhos ruins, esse índice chegou a 89% entre os demais — e se recordavam mais dos sonhos. Em uma escala de 1 a 5 (raramente nunca a todas as noites), os participantes liberais lembravam dos sonhos numa média de 3,9, enquanto os conservadores obtiveram média 3,5. “Isso sugere, como uma interpretação preliminar, que os conservadores podem dormir mais tranquilos, enquanto os liberais têm um sonho mais ativo”, avalia.

Os participantes do estudo também foram treinados a dar detalhes dos sonhos mais recentes. Uma das descobertas interessantes foi a de que os conservadores costumam experimentar, enquanto dormem, situações que podem acontecer na vida real, enquanto o outro grupo descrevia mais sonhos como voar ou falar com alguém que já está morto. A partir do que o estudo indica, os liberais parecem ter um escopo maior de experiências de sonhos que têm elementos fantasiosos, e não são apegados, desse modo, à realidade mundana.

Comício
O último nível da análise no estudo focou os sonhos com claro caráter político. De todas as experiências contadas pelos voluntários, apenas 10 eram desse tipo, sendo nove delas de participantes liberais. Um dos sonhos foi destacado no estudo: “Eu estava em um comício presidencial, onde (o ex-presidente) George Bush estava fazendo um discurso. Tinha muito vermelho, branco e azul. Bush disse: ‘Existem aqueles que falam que estamos desistindo de nossas liberdades civis. Mas eu digo: ‘Nós devemos nos orgulhar de sacrificar nossas liberdades pela América’. Os espectadores ficaram loucos, batendo palmas, comemorando e balançando bandeiras. Eu acordei suando frio”. O único sonho conservador político tinha um tom inteiramente diferente: “Eu era amigo de George W. Bush e estávamos trabalhando juntos no seu rancho. Eu estava feliz por estar lá”.

“Os sonhos podem ser descritos como cartoons políticos da mente, nos quais as crenças são expressadas de forma cômica e dramática por meio de imagens”, analisa Bulkeley. Para o pesquisador, esses sonhos “refletem os sentimentos políticos dos indivíduos conservadores (felicidade e intimidade com o presidente). Os pesadelos dos liberais refletem as suas preocupações, como medo e alienação do presidente.”

Palavra de especialista

Análise tendenciosa


“O artigo é político, não tem imparcialidade científica. Ele parte da premissa de que os sonhos próximos da realidade são diferentes e podem ser interpretados de outro modo. O sonho tem uma linguagem própria e é diferente por si só. A riqueza dele está em sua particularidade. O pesquisador avalia os sonhos pelo lado da consciência, e isso é errado. O sonho é muito mais simbólico que racional. A função dele não é só refletir, é refletir com uma função. Jung amplia os estudos de Freud e fala que o sonho é uma invenção compensatória. Eles compensam uma atitude da consciência. Se a atitude de uma pessoa é estreita, o sonho vai ampliá-la. Se existe algo diferente acontecendo na vida de alguém, os sonhos vêm para reequilibrar a pessoa. Os indivíduos têm histórias pregressas no inconsciente e as histórias de vida estão lá. Quando o pesquisador fala que conservadores dormem mais tranquilamente, não tem como ampliar a contestação para fazer a interpretação que ele quiser.”

Marion Gallbach, psicoterapeuta e autora de Aprendendo com os sonhos (editora Paulus)

Resultados esperados

“Os resultados são esperados. O inconsciente coletivo dos democratas (mais liberais) está ligado ao povo. Os republicanos (mais conservadores), por outro lado, são ligados ao individualismo. O republicano dorme melhor porque está preocupado mais com ele mesmo. O democrata tem um sonho mais inquieto por estar sobre a força do inconsciente coletivo. O republicano só vai perder o sono ou sonho se houver um problema financeiro. Os sonhos têm uma natureza introspectiva. Os democratas tendem a ter sonhos mais irreais porque os ideiais também o são.”

Dionísio Maidana, presidente da Associação Nacional de Psicanálise Clínica
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