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Ciência

No chão e nas árvores

Análise de novos fósseis mostra que os Australopithecus afarensis, apesar de bípedes, tinham uma estrutura que lhes permitia passar muito tempo sobre os galhos. A característica pode ter ajudado esses ancestrais do homem a evitar predadores

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postado em 27/10/2012 08:00 / atualizado em 26/10/2012 09:43

Marcela Ulhoa

Ilustração mostra a aparência de um Australopithecus afarensis fêmea: mescla de características evolutivas (AFP - 19/6/89) 
Ilustração mostra a aparência de um Australopithecus afarensis fêmea: mescla de características evolutivas

Na história da evolução humana, não resta dúvida de que um capítulo especial é dedicado ao bipedalismo. É o andar sobre duas pernas, sem a utilização dos braços, que marca o gênero Homo, cuja última linhagem é a do Homo sapiens sapiens. Apesar de representar um importante diferencial entre as espécies, a falta de fósseis de ancestrais mais antigos com membros superiores, particularmente de material de ombro, constitui um obstáculo aos paleontólogos. Assim, muitas das teses sobre a locomoção dos hominídeos são baseadas em especulações feitas a partir do fragmentado material disponível.

Agora, uma importante descoberta realizada por pesquisadores da Universidade de Midwestern e da Academia de Ciência da Califórnia, ambas dos Estados Unidos, ajudam a desvendar um pedaço desse enorme quebra-cabeça. A partir de ossos de escápulas (que, com as clavículas, permitem a união de cada membro superior ao tronco) de Australopithecus afarensis encontrados em Dikiki, na Etiópia, os pesquisadores comprovaram a suspeita de que esses hominídeos que viveram entre 3,9 milhões e 3 milhões de anos atrás, apesar de serem bípedes, passavam muito tempo pendurados em árvores, mais do que supunham algumas teorias.

“É importante ressaltar que o fato de propormos que os A. afarensis possuíam a capacidade de escalar árvores não significa que eles não foram bípedes enquanto estavam em chão firme. O que queremos sugerir é que o seu repertório locomotor incluía tanto o arborismo quanto o bipedalismo”, defende o autor do estudo, David Green em entrevista ao Correio.

De acordo com ele, o fato de as escápulas encontradas em Dikiki serem de um indivíduo jovem e não de um adulto mostra que o desenvolvimento do ombro dos A. afarensis progrediu de uma forma mais siamesca, em comparação com o do Homo erectus e do Homo Sapiens. “Isso apoia conclusões similares feitas a partir do desenvolvimento dental, mas, até onde sabemos, essa é uma nova descoberta para um elemento pós-craniano, ou seja, de uma parte do esqueleto abaixo da cabeça”, explica.

Pedaço de escápula (à esquerda) e um crânio analisados no estudo: a espécie tinha o ombro mais parecido com o de macacos do que com o de homens (Zeray Alemseged/ Dikika Research Project/Divulgação) 
Pedaço de escápula (à esquerda) e um crânio analisados no estudo: a espécie tinha o ombro mais parecido com o de macacos do que com o de homens

 (Zeray Alemseged/ Dikika Research Project/Divulgação) 

Predadores
Sobre o assunto, o professor de ciências biológicas Téo Veiga de Oliveira, da Universidade Estadual de Feira de Santana, esclarece que o hábito de se pendurar nas árvores e de se balançar usando os braços, cujo nome científico é braquiação, além de ser muito comum entre os primatas, apresenta resquícios em várias espécies da linhagem homo. “Entre os grandes primatas, ele é muito desenvolvido entre os gibões, orangotangos, chimpanzés e gorilas, embora esses dois últimos passem bastante tempo no solo. É bem provável que essa capacidade ainda fosse presente em várias espécies de nossa linhagem, como nas do gênero australopithecus, mesmo que ele tivesse postura bípede.”

Segundo Oliveira, a maioria das hipóteses da evolução do bipedalismo envolve a possibilidade de os ancestrais humanos se deslocarem mais eficientemente na savana africana, mas também de poderem se erguer e observar, por exemplo, predadores em meio à vegetação alta. Mesmo assim, o professor acredita ser provável que um bípede também conseguisse subir nas árvores e ser eficaz estando lá, possuindo alguma vantagem adaptativa em relação àqueles que não conseguiam fazer isso. “Então, é possível que bipedalismo e braquiação tenham sofrido mudanças a taxas evolutivas distintas durante a evolução da linhagem humana, mesmo que um dos animais dessa linhagem tenha passado mais tempo no chão”, salienta.

Como a maioria dos primatas possui múltiplas formas de locomoção, o autor do estudo, David Green, acredita não ser absurdo sugerir que nossos ancestrais foram capazes de subir em árvores e, ao mesmo tempo, andar sobre dois pés enquanto estavam no chão. “Os seres humanos modernos são os únicos entre os primatas que utilizam apenas uma forma principal de locomoção.” Segundo ele, a capacidade de escalar árvores teria sido importante para possibilitar que os A. afarensis pudessem fugir de predadores, já que eles eram pequenos e não tinham muitas defesas naturais ou artificiais, como ferramentas.

“Apanhar frutas também teria sido uma razão importante para manter habilidades de escalada. Ao mesmo tempo, nós também sabemos que o ambiente na África Oriental estava mudando, as florestas estavam se tornando mais abertas e menos isoladas, o que provavelmente promoveu a mudança para o bipedalismo”, acrescenta Green. De acordo com ele, nessa fase, os A. afarensis podem ter começado a ficar mais tempo no chão, pois essa seria uma forma mais eficaz de contornar grandes distâncias. A mudança, por sua vez, permitiu que eles começassem a acessar a carne como outra fonte potencial de alimentos, possivelmente por meio do sequestro oportunista.

Análises
Para analisar o material fóssil encontrado, os pesquisadores utilizaram um digitalizador 3D capaz de coletar pontos marcantes nas escápulas de Dikika e também de uma grande quantidade de amostras comparativas de primatas e humanos vivos. A ferramenta permitiu aos pesquisadores captarem várias distâncias dentro de cada osso, usadas posteriormente para derivar proporções escapulares e medidas angulares entre importantes marcadores anatômicos. “Comparamos essas várias características entre os grupos vivos e os fósseis para identificar as maiores diferenças e semelhanças entre eles. Nessa análise, encontramos que os fragmentos ósseos de crianças e adultos Australophitecus afarensis eram mais semelhantes aos ossos dos macacos modernos do que de seres humanos”, revela Green.

Uma das principais diferenças observadas na escápula encontrada em Dikika para as linhagens homo é que, assim como os macacos vivos, os A. afarensis têm um conjunto de ombro, ou articulação glenoumeral, mais para cima, enquanto no gênero homo as superfícies das articulações são mais laterais, ou para o lado. Além disso, a espinha escapular (que não deve ser confundida com a coluna vertebral) aparece de forma mais oblíqua para cima nos fósseis encontrados em Dikika e em macacos, já nos humanos ela é mais horizontal, mais ou menos paralela ao solo.

Lucy
Os Australophitecus afarensis existiram entre 3,9 milhões e 3 milhões de anos. A espécie se tornou conhecida sobretudo a partir das jazidas de Afar (Etiópia) e Laetoli (Tanzânia). O exemplar mais conhecido e emblemático é Lucy, fóssil de uma fêmea descoberta em 1974 em Hadar (Etiópia), pelo investigador americano Donald Johanson. Possuía feições próximas às dos primatas, com uma testa baixa, uma estrutura óssea forte sobre os olhos, nariz plano e sem queixo.
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