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Ciência

A busca pelo teste da saúde cerebral

Estudo da USP indica que o nível de três compostos encontrados no cérebro e no sangue tem relação com doenças como Alzheimer e Parkinson. O achado pode levar a um exame simples que aponte predisposição a esses males

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postado em 01/11/2012 08:00 / atualizado em 31/10/2012 09:51

Marcela Ulhoa

O envelhecimento é um processo natural e inevitável. Ocorre em todas as espécies vivas e se inicia já no momento do nascimento. No cérebro, a principal consequência do movimento ininterrupto dos ponteiros do relógio é a morte de neurônios. Apesar do envelhecimento cerebral não ser considerado uma patologia, não há dúvidas de que ele representa um fator de risco para o surgimento de doenças como os males de Alzheimer e de Parkinson. Devido aos seus efeitos na saúde e na qualidade de vida humana, uma das buscas mais incessantes da ciência é encontrar marcadores biológicos que possam caracterizar, e mesmo explicar, o processo de envelhecimento do órgão.

Uma equipe de pesquisadores brasileiros encarou o desafio e acaba de apresentar uma forma simples e pouco invasiva de determinar em que grau se encontra o “cronômetro do cérebro”. Caso a hipótese central seja confirmada, pessoas de todo o mundo poderão realizar o diagnóstico precoce de doenças neurodegenerativas por meio de testes sanguíneos. Isso porque, em estudos com roedores e seres humanos, os especialistas da Universidade de São Paulo (USP) observaram que o nível de três compostos encontrados em células do sangue pode refletir a saúde das células cerebrais. Todas essas substâncias corroboram com a teoria dos radicais livres, segundo a qual o metabolismo celular produz radicais de oxigênio altamente reativos que danificam lipídeos, proteínas e o DNA.

“Na verdade, o estudo começou a partir de um trabalho que não tinha esse objetivo. No início da década passada, Elisa Kawamoto era pós-graduanda de nossa faculdade e fez uma pesquisa com pacientes com Alzheimer. A partir de amostras de sangue, ela queria conseguir achar marcadores para a doença”, esclarece um dos coordenadores da pesquisa, o farmacologista Cristoforo Scavone, chefe do Laboratório de Neurofarmacologia Molecular, no Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Para tanto, a pesquisadora tomou como base um grupo de controle com pacientes saudáveis de várias idades e os comparou com portadores de Alzheimer. “Os pacientes saudáveis possibilitaram a construção de parâmetros que nos mostrou que alguns marcadores variavam com a idade. O mais interessante é que eles estavam relacionados com os radicais livres. Foi então que surgiu a ideia de validar esses resultados em animais. Esse foi o típico estudo translacional, primeiro vimos em humanos para depois confirmar no animal”, explica Scavone.

Nessa segunda fase da pesquisa, o teste foi feito com camundongos com idades variando entre 4, 12 e 24 meses. O objetivo era ver se os resultados encontrados no sangue dos humanos eram válidos para o sistema nervoso dos roedores. Para tanto, os pesquisadores acompanharam os animais por dois anos. Eles compararam os níveis de compostos produzidos por células do sangue e do cérebro e identificaram três que refletiriam a capacidade de lidar com radicais livres: o monofosfato cíclico de guanosina (GMP cíclico), o óxido nítrico sintase (NOS) e substâncias reativas ao ácido tiobarbitúrico (TBARS). Os pesquisadores constataram que, conforme o corpo envelhece, o nível de GMP cíclico diminui e o de NOS e TBARS aumenta nas áreas cerebrais e nas plaquetas.

Mais suscetível

Como o GMP cíclico participa de reações químicas que auxiliam na eliminação dos radicais livres, a sua diminuição com o passar dos anos abre espaço para uma produção excessiva de substâncias tóxicas no cérebro. Já os dois compostos que aumentam com a idade (o NOS e o TBARS) geram diretamente mais radicais livres altamente reativos, que causam a morte de células sadias. Dessa forma, a descoberta reforça a teoria de que o corpo envelhece e morre por conta de um estresse oxidativo, ou seja, por um desequilíbrio na relação entre os níveis celulares de oxidantes e antioxidantes. De acordo com algumas correntes, doenças neurodegenerativas como o Alzheimer poderiam ser causadas pelo mesmo motivo. A explicação mais comum para a causa dessa doença é a precipitação de peptídeos beta-amilóides (componentes solúveis do líquido cefalorraquidiano e do plasma sanguíneo), levando à formação de fibrilas neurotóxicas e das placas senis. A ação desses peptídeos foi associada também à formação direta de radicais livres, os quais atuariam na oxidação de proteínas e na peroxidação dos lipídios formadores (ambos: proteínas e lipídios) das membranas plasmáticas das células nervosas.

Dessa forma, caso os três compostos sejam validados como marcadores do envelhecimento cerebral, o professor Scavone acredita que um teste de sangue poderá indicar a predisposição de uma pessoa para contrair uma patologia neurodegenerativa. Ou seja, se os níveis de GMP cíclico forem muito baixos e os de NOS e TBARS muito altos, isso representaria um estresse oxidativo no organismo do indivíduo que estaria na base de doenças como Parkinson, Alzheimer, Huntington e esclerose.

Complexidade
Apesar de considerar o estudo interessante, o geriatra Eintein de Camargos, chefe do Centro de Medicina do Idoso do Hospital Universitário de Brasília (HUB), acredita que ainda há um longo caminho para que a solução proposta pelos pesquisadores da USP saia do laboratório e seja aplicada na população. “O Alzheimer é uma doença multifatorial, não é causada somente por uma deficiência na enzima, por uma simples alteração molecular. Creio que é muito simplista querer realizar um diagnóstico precoce pelo exame sanguíneo”, afirma Camargos. O médico acrescenta que, para confirmar a teoria, será necessária ainda uma pesquisa longitudinal que acompanhe os mesmos pacientes por um período longo, de 20 a 30 anos. Além disso, será necessário controlar outros fatores coadjuvantes, como a pressão alta, o diabetes, o tabagismo, a alimentação e a prática de exercícios físicos.

“A busca por marcadores de envelhecimento cerebral é a dor de cabeça de todo o mundo. Existem muitos fatores interferindo no sistema nervoso central. Há o componente genético e o vascular, as ações de radicais livres. Essas substâncias podem ser resultado de um metabolismo normal. Daí para intervir nelas com segurança está muito longe. Mas pesquisa científica começa assim”, ressalta Camargos.

Para o coordenador de Neurologia do Hospital Santa Helena, Cláudio Carneiro, algumas substâncias já foram pesquisadas no sangue, como a proteína TAU e a beta-amiloide, mas nenhuma ainda serve para diagnóstico precoce de doenças neurodegenerativas. “Agora, é de assustar que até o momento não tenhamos nenhum exame que nos confirme Alzheimer e Parkinson. O diagnóstico é realizado apenas com a avaliação do neurologista (pela falta de exame confirmatório). A certeza para essas duas doenças ocorre apenas com a biopsia cerebral. Se tivéssemos disponíveis esses marcadores, conseguiríamos o diagnóstico com maior certeza e até mais precocemente”, acrescenta Carneiro.
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