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Tecnologia

Ajuda bem-vinda, mas até certo ponto

Pesquisa norte-americana mostra que idosos se mostram abertos ao auxílio de robôs para tarefas como atender o telefone ou gerenciar o uso de medicamentos. Contudo, para atividades como tomar banho ou comer, a preferência é por um assistente humano

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postado em 06/11/2012 08:00 / atualizado em 05/11/2012 13:17

Bruna Sensêve

No episódio A visita do vovô, do desenho animado Os Jetsons, a família ajusta uma moderna cadeira de balanço para receber o senhor de 110 anos. No entanto, todos se surpreendem quando veem que o patriarca tem mais disposição e uma vida mais ativa do que seus netos. Ele dança, joga baseball, arremessa pesadas bolas de boliche, esquia e dirige. Tudo, graças a um cinturão de utilidades e uma série de dispositivos tecnológicos que o ajudam nas tarefas. Foi assim que a série produzida por Hannah-Barbera imaginou os idosos do futuro. Mas tal tecnologia seria possível? E, mais importante, será que os mais velhos estariam dispostos a receber tal ajuda de máquinas?

Partindo desses questionamentos uma equipe do Instituto de Tecnologia da Georgia, nos Estados Unidos, conduziu um experimento com 21 idosos, entre 65 e 93 anos. A maior parte dos voluntários morava de forma independente — fosse em um condomínio voltado para a terceira idade ou em imóvel próprio — e gozava de boa saúde física. Também foi medida a frequência com que essas pessoas utilizavam a tecnologia. Mais de 70% declararam usar o computador e/ou a internet. Como um todo, os participantes eram familiarizados com robôs, mas não tinham experiência de uso.

O principal ponto de investigação estava na averiguação da opinião dos idosos quanto ao Robô Personal 2, fabricado por uma empresa americana. O dispositivo é uma espécie de Rosie, a empregada robótica dos Jetsons, mas, evidentemente, menos ágil e esperta. Os primeiros resultados mostraram que os idosos poderiam aceitar a ajuda robótica em tarefas cotidianas, mas com algumas condições. Em alguns momentos, a ajuda humana foi preferencial à robótica e, em outros, a situação se inverteu.

Para atividades pessoais, como ir ao banheiro, se alimentar, vestir roupas e tomar banho, 63% dos entrevistados preferiram a ajuda humana, 26% não manifestaram preferência e apenas 12% afirmaram que usariam os serviços da máquina. A situação é praticamente oposta quando o assunto são tarefas domésticas, como usar o telefone, fazer compras, cozinhar, lavar roupas e gerenciar remédios e finanças. Metade dos entrevistados preferiram a ajuda robótica para esses casos, enquanto 31% optaram por humanos e 19% não tinham preferência.

Fatores


Segundo a autora principal do estudo, Cory-Ann Smarr, a aceitação do usuário é influenciada por diversos fatores, relacionados tanto às características dos robôs (como tamanho e adaptação) quanto nas da pessoa que interage com ela (idade, necessidades e atitudes). Os principais fatores considerados seriam a segurança, a acessibilidade, os benefícios práticos e as percepções.

Smarr destaca que, em particular, a funcionalidade, ou seja, a capacidade de executar uma tarefa não social, tem sido apontada como mais influente na aceitação da máquina pelo idoso. Um de seus aspectos seria o nível de interatividade que o robô tem com o utilizador. “Por exemplo, eles queriam o robô para falar de si mesmos e sobre os temas mais variados. Ao mesmo tempo, quando os adultos mais velhos foram entrevistados sobre sua casa robótica imaginária, suas respostas sugeriram que eles veem os robôs como máquinas de performance dirigida, em vez de dispositivos sociais”, avalia Smarr.

Ela reforça que o termo funcionalidade também pode implicar na capacidade de o robô se adaptar às preferências do usuário. Para o pesquisador em robótica móvel e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Anderson Luiz Fernandes Perez, a pesquisa mostra como as pessoas ainda não confiam muito na tecnologia assistencial e, muito menos, quando se trata de tarefas pessoais. Ele considera que o pouco entrosamento pode estar ligado ao pouco acesso de idosos às inovações tecnológicas atuais. “Hoje, uma criança de 10 ou 12 anos tem muito mais aptidão que um idoso de 70 anos, mas porque cresceram nesse ambiente. A tendência é que, quando essas crianças envelhecerem, elas já tenham mais facilidade”, afirma.

 (Kim Kyung-Hoon/Reuters - 2/8/11) 

Paro
É um robô interativo que se assemelha a uma foca bebê. Ele permite que os benefícios documentados de uma terapia com animais de estimação cheguem a pacientes em ambientes como hospitais e instituições de cuidado intensivo. Ela atua por meio do estímulo à afetividade e ao relacionamento e busca combater a depressão entre os idosos

 

 

 (Aldebaran/Divulgação - 16/12/11) 

NAO
O robô humanoide de 60cm desenvolvido na França foi adaptado por pesquisadores da Universidade de Kansas para atuar no cuidado de idosos dependentes. É um cuidador bem atento que se relaciona como um companheiro para jogos e a prática de esportes. Ele também consegue interpretar expressões faciais

 

 (Yujin Robot/Divulgação) 

iRobi Q
É um pequeno robô de mesa com funções como o monitoramento da pressão sanguínea, entretenimento, vídeos musicais e figuras engraçadas. Esse robô ajuda com a administração da medicação já que lembra os residentes da casa de tomar a medicação certa, na dosagem apropriada e no horário adequado

 (NASA/Divulgação - 1/6/12) 

Exoesqueleto X1
Tem 10 juntas, ou graus de liberdade, sendo quatro delas motorizadas, que ficam nos quadris e nos joelhos. As seis juntas passivas servem para flexão completa das pernas e pés. O exoesqueleto é ideal para pessoas com dificuldades de caminhar, incluindo idosos. O aparelho ainda está em testes

 

 (TMSUK/Divulgação) 

WL-16III Walkbot
Projeto de robô bípede criado na Universidade de Waseda e a empresa TMSUK no Japão para ajudar deficientes e idosos a caminharem e subir escadas. Foi desenvolvido há seis anos

 

 (Riken/Divulgação) 
 

RIBA-II
Possui sensores táteis de alta precisão e tecnologia de controle de motor flexível. Com isso, é capaz de levantar um paciente de até 80kg do chão até a cama ou uma cadeira de rodas. Articulações na base e na parte inferior das costas permitem que ele abaixe e levante um paciente que estiver ao nível do chão, usando sensores de borracha inteligentes

 (General Robotix/Divulgação) 

Taizo
Serve como um instrutor de ginástica para os idosos, buscando incentivar um estilo de vida saudável. Sua capacidade de se curvar na altura da cintura permite a realização  de mais de 30 exercícios

"Os idosos veem os robôs como máquinas de performance dirigida, em vez de dispositivos sociais”
Cory-Ann Smarr, principal autora do estudo

"Enfermeiro" brasileiro

A pesquisa norte-americana sobre a aceitação da ajuda de robôs por idosos gerou um dado interessante. Os participantes disseram preferir a ajuda de uma máquina na hora de serem lembrados sobre a hora de tomar um remédio, mas demonstraram clara preferência por um assistente de carne e osso na hora de decidir qual pílula tomar. Apesar das duas tarefas estarem envolvidas na gestão de medicamentos, elas exigem capacidades diferentes. O dispositivo que lembra um indivíduo de tomar a medicação requer pouca ou nenhuma inteligência para a tomada de decisão. Porém, decidir qual das medicações uma pessoa deverá tomar requer um conjunto mais complexo de dados.

São essas as características que o professor Fernando Osório, do Laboratório de Robótica Móvel da Universidade de São Paulo (USP), busca levar a um dispositivo de automação inteligente. Ele é colaborador de um projeto, liderado por enfermeiras, que tenta integrar tecnologias para o desenvolvimento de um equipamento que não só lembre o momento de tomar a medicação, mas garanta a adesão ao tratamento. “Seria uma garantia de que o paciente idoso seguiu exatamente o que foi prescrito na receita médica. (O invento) vai controlar se ele está tomando a medicação certa e no horário correto”, define.

Telepresença

Segundo Osório, de qualquer forma, ainda falta certa autonomia para os robôs, que poderiam exercer atividades de assistência no futuro. Para solucionar essa questão, ele sugere a telepresença. “Ainda não temos robôs capazes de ajudar alguém a tomar banho, cozinhar ou se vestir. Como não temos um enfermeiro virtual completo, a telepresença abre uma possibilidade intermediária”, argumenta. Um dispositivo equipado com essa característica permite que o robô se desloque pela casa controlado remotamente, comunicação que pode ser estabelecida por meio de uma teleconferência.

Osório garante que, dessa forma, além de poder acompanhar e auxiliar em tarefas diárias do idoso, é possível combater também outro problema que chega ao envelhecer: a solidão. A telepresença seria o mais próximo para o idoso de uma companhia virtual. As principais iniciativas nesse sentido ainda são de robôs que imitam animais de estimação, sem o ônus de todos os cuidados de higiene e transporte de um animal real. O principal público desses equipamentos são idosos que permanecem por muito tempo em ambientes que, normalmente, não é aceita a presença de cachorros ou gatos, como hospitais. (BS)

 

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