Informática

Pixels verde-amarelos

Produção nacional de games saltou de R$ 87,5 milhões para R$ 250 milhões nos últimos quatro anos. E Brasília entrou de vez na rota dos negócios e do entretenimento

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 07/11/2012 08:00 / atualizado em 06/11/2012 12:18

 (Fotos: Bruno Silva/CB/D.A Press) 

No mundo dos jogos eletrônicos, só existe um tipo de pessoa mais aficionada do que o jogador: quem desenvolve os games. No Brasil, o chavão se torna ainda maior, pois o mercado de produção de jogos era ínfimo há poucos anos. Entretanto, o cenário mudou nos últimos anos: impulsionado tanto pelo aumento no consumo de games quanto por maior envolvimento de empresas, universidades e governo sobre o tema, os desenvolvedores brasileiros querem ser vistos. No último fim de semana, vários expuseram seu trabalho na principal vitrine para o setor: o Simpósio Brasileiro de Jogos e Entretenimento Digital (SBGames).

Principal evento de desenvolvimento da América Latina, o SBGames 2012 é acadêmico — este ano, a organização ficou a cargo da Universidade de Brasília (UnB). Mas, pela primeira vez, o simpósio abriu as portas ao público para exibir parte da produção brasileira de games. Cerca de 200 jogos de mais de 30 desenvolvedores nacionais foram expostos no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, que recebeu cerca de 20 mil pessoas de sexta a domingo. Para o simpósio, com palestras sobre o tema, se inscreveram 1,3 mil pessoas.

 

 “Um dos princpiais objetivos da feira aberta ao público é mostrar que a área de desenvolvimento de jogos no Brasil é séria e lucrativa. Não é coisa de criança, ou de ficar jogando o dia inteiro. As pessoas acham que um desenvolvedor de games passa o dia inteiro jogando. Queremos fortalecer essa área, mas precisamos quebrar a barreira do preconceito com a população”, afirma Carla Castanho, organizadora-geral do SBGames.

Carla também é professora de ciências da computação na UnB e conta que, nas aulas de disciplinas introdutórias, 80% de uma turma composta por cerca de 40 alunos entra no curso interessada em desenvolver jogos. O interesse levou a criação de disciplinas próprias para a atividade, para estudantes de computação, design e música. (Leia mais sobre o assunto na página 3).

 
Aumento
No Brasil, há cerca de 200 empresas produzindo games. Segundo o último estudo divulgado pela Associação Brasileira dos Desenvolvedores de Jogos Digitais (Abragames), em 2008, o mercado brasileiro de jogos movimentava R$ 87,5 milhões. Estimativas mais recentes da instituição, levando em conta o faturamento de seus 80 associados, colocam que o setor já pulou para R$ 250 milhões em 2012. Entretanto, o que é desenvolvido no país responde por apenas 0,3% da produção de games no mundo.

“Precisamos nivelar essas duas medidas e, para isso, precisamos incentivar a produção local”, explica o presidente da Abragames, Fred Vasconcelos. Para ele, o desenvolvimento do setor depende de um envolvimento maior do governo, que compareceu em peso ao SBGames — cinco ministérios enviaram representantes ao evento.

“O governo acordou, e esperamos que ele trate com carinho o segmento de jogos. Considero que o setor brasileiro de games acabou de nascer porque conseguimos juntar academia, indústria e governo no mesmo lugar, para discutir políticas públicas. Os games são a terceira maior indústria do mundo, só perdendo para armas e carros”, afirma Vasconcelos.

 

O desenvolvedor Thiago Appella trabalha no mercado brasileiro há nove anos e passou por áreas de negócios da Electronic Arts e da Level Up. Para ele, o que abriu as portas para os estúdios nacionais foi a criação da economia de aplicativos, com lojas para smartphones como a App Store e o Google Play. “Elas abriram uma oportunidade absurda para o pequeno desenvolvedor colocar seu produto à venda e, possivelmente, fazer sucesso”, aponta.

Hoje, Appella é country manager para o Brasil da desenvolvedora alemã de jogos para celular e redes sociais Wooga, que pretende adquirir uma empresa nacional e incorporá-la a sua sede, em Berlim. “Um dos grandes desafios para o desenvolvedor brasileiro iniciante é enxergar seu jogo como um produto, uma peça que precisa fazer dinheiro. Queremos fazer parcerias com os profissionais daqui para prepará-los melhor para o mercado.”
Candangos do joystick
SBGames reflete bom momento do mercado de desenvolvimento de games em Brasília. Número de empresas na cidade subiu de sete para 16 este ano e foram fundadas por alunos de cursos de jogos digitais
Jovens desenvolvedores de um estúdio na 405 Norte se apresentam na SBGames: o jogo avaliado pelo Correio na página 5 desta edição foi produzido com recursos da turma (Ed Alves/CB/D.A Press) 
Jovens desenvolvedores de um estúdio na 405 Norte se apresentam na SBGames: o jogo avaliado pelo Correio na página 5 desta edição foi produzido com recursos da turma

Quem passou pelo Centro de Convenções no fim de semana pôde perceber o grande número de estúdios brasilienses no pavilhão de microexpositores, dedicado apenas a trabalhos brasileiros. Cerca de um quarto dos estandes do local eram de empresas do DF. A passagem do SBGames por Brasília reflete o bom momento do mercado de desenvolvedores de jogos na cidade, que passa por um crescimento inédito. Hoje, há 16 empresas que produzem ou distribuem games na cidade. Dessas, sete abriram as portas em 2012.

Entre esses estúdios, há dois fatores em comum: a paixão de seus integrantes por jogos eletrônicos e o empreendedorismo. A maioria das empresas é fundada por alunos de cursos de jogos digitais em faculdades particulares e de escolas especializadas. “O acesso maior às informações de desenvolvimento e o acesso a dispositivos móveis permitiu o aumento do número de empresas. Eles são mais fáceis e baratos para se desenvolver e publicar”, explica Kenniston Arraes, diretor-executivo e fundador da Dynamic Light.

Fundado em 2006, o estúdio de Kenniston é o mais antigo da capital, atuando na produção de jogos sob demanda, para agências de publicidade ou outros tipos de empresa, além de investir em trabalhos autorais como o game para celular World of Arthur, voltado para o público infantil. Como mais um exemplo de estúdio apoiado na estrutura acadêmica, a Dynamic Light opera dentro da Seven, uma escola especializada em cursos de jogos digitais. Na capital, há 4 meses, a instituição conta com cerca de 800 alunos. O gerente acadêmico da unidade de Brasília, Jamerson Barreto, diz que a procura por cursos aqui já é maior que na sede da escola, no Rio de Janeiro. “Os alunos do DF são extremamente dedicados. São focados, cobram mais”, conta.

Keniston, Felipe, Henrique  e Rafael, da Dinamic Light: operando dentro de uma escola digital especializada  (Adauto Cruz/CB/D.A Press) 
Keniston, Felipe, Henrique e Rafael, da Dinamic Light: operando dentro de uma escola digital especializada

Na maioria dos casos, os próprios fundadores das empresas também estão envolvidos no meio acadêmico. É o caso de Kenniston e do criador da Ludus Games, Felipe Ferreira, ambos professores do curso de jogos digitais no Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb). “Além de aprimorar a técnica, o fato de professores atuarem como desenvolvedores ajuda os alunos a conhecer a realidade de uma forma mais direta”, diz Felipe.

Ascensão
A produção brasiliense também tem se destacado pela qualidade. O mais recente exemplo é o jogo para smartphones Knights of pen & paper, o quinto produzido pela Behold Studios. Lançado no fim de outubro, o game chegou ao segundo lugar do ranking de novos aplicativos pagos da loja Google Play, para dispositivos Android. A versão para iOS, que foi publicada na quarta-feira, já alcançou o top 20 dos jogos da App Store, além do o primeiro lugar na categoria RPG. “No Android, chegamos a vender uma unidade do jogo por minuto. Agora, a média se fixou em uma cópia a cada dois minutos”, diz Saulo Camarotti, fundador e produtor de games do estúdio.

Saulo faz parte do time de pioneiros da área de produção de jogos em Brasília. O embrião da Behold surgiu ainda na faculdade, onde ele ajudou a formar um núcleo de desenvolvimento de jogos no curso de ciência da computação da Universidade de Brasília (UnB) — que hoje conta com disciplinas sobre a programação e arte para games, tanto na ciência da computação quanto no curso de desenho industrial. “De certa forma, estamos envolvidos com quase todas as empresas. Mas não vemos isso como competição. Quanto mais diversificado o mercado, há mais oportunidades para todos”, afirma Saulo.

Turma do The Balance Inc., na 309 Norte: empresa criada por alunos da UnB é focada em jogos para celular (Ed Alves/CB/D.A Press) 
Turma do The Balance Inc., na 309 Norte: empresa criada por alunos da UnB é focada em jogos para celular

Outro estúdio que ganhou destaque nos últimos anos foi a Give me Five, que ficou por dois títulos de plataforma com engajamento político: Dilma adventure, com a então candidata do PT à presidência da República, criado durante as eleições presidenciais de 2010, e Jogo justo na ilha dos impostos, game criado para o movimento que busca diminuir o custo dos jogos no Brasil pela diminuição de impostos. O estúdio também se dedica a passar sua experiência para empresas iniciantes, por meio lições on-line. “Nos últimos dois anos, temos aprendido muito sobre questões administrativas, algo que não vimos durante a faculdade”, conta o diretor-geral Roberto Guedes.

Novatos
Um dos estúdios de jogos fundados em Brasília este ano é a The Balance Inc. Criada em maio, a companhia é composta por alunos da UnB que se conheceram no núcleo de desenvolvimento de jogos da instituição. “Já haviamos trabalho em conjunto em projetos de conclusão de curso. Vimos que o resultado foi bom, e decidimos formalizar o grupo”, afirma o sócio-fundador Rafael Gatti.

O estúdio é focado em jogos para celular, como o título Goat’em up, exibido no SBGames. “É a plataforma em que se costuma começar a desenvolver. É mais complicado competir em consoles. Mas não descartamos produzir para PC, que tem alternativas mais acessíveis para desenvolvimento como o Steam”, diz o programador Luciano Santos.


Escolas públicas na frente
Pelo menos 22 dos títulos disponíveis para teste no SBGames foram desenvolvidos por alunos do Nave, projeto direcionado a escolas públicas da empresa de telefonia Oi em parceria com secretarias de educação do Rio de Janeiro e Pernambuco. Em 2011, os alunos do Nave tiveram 27 games expostos no simpósio.
 
Tags: