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Correio Braziliense

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Os erros frequentes do Doutor Google

Levantamento britânico feito com mil mulheres conclui que 25% das entrevistadas já se automedicaram de forma equivocada depois de realizar uma pesquisa na internet. A maioria revelou que não se sente confortável em discutir alguns aspectos de sua saúde com amigos e parentes

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postado em 13/11/2012 08:00 / atualizado em 12/11/2012 13:31

Marcela Ulhoa

A curiosidade talvez seja uma das características mais fortes do ser humano. Quando o assunto é o que acontece no próprio corpo, então, o interesse em saber o que pode ser aquela coceira, a mancha vermelha na pele, ou qualquer outro sintoma, é ainda maior. Com o início das primeiras reações, muitas pessoas, antes mesmo de procurar um médico, buscam referências rápidas e perguntam para a fonte mais próxima o que pode estar acontecendo. E, na era da informática, o pai de todas as dúvidas passa a ser a ferramenta de busca do Google, ou, como já se tornou comum chamá-la, “Doutor Google”.

A facilidade proporcionada pela enorme quantidade de informações, entretanto, nem sempre é benéfica. Diversos estudos mostram o perigo da má utilização dos dados contidos na internet. Agora, uma nova pesquisa realizada pela marca britânica de saúde feminina Balance Activ traz um alarmante número. De acordo com ela, 25% das mulheres no Reino Unido realizam autodiagnóstico errado pela internet e, com isso, compram o produto incorreto para curar seu sintoma. O motivo para que as mulheres não procurem a ajuda de profissionais antes da automedicação pode estar no medo e na vergonha gerados por alguns temas relacionados à saúde da mulher. Os autores reforçam que a busca na web não substitui a consulta com o médico e que a ingestão de um remédio errado pode levar a desagradáveis efeitos colaterais e considerável piora no quadro da doença.

De acordo com o Ministério da Saúde, não existe levantamento semelhante no Brasil, entretanto, a realidade observada pelos médicos nos consultórios e centros de saúde não difere do constatado na terra da rainha. O médico Ênio Senna atende em sua clínica particular na área de ginecologia e obstetrícia e também na Secretaria de Saúde do Distrito Federal como clínico-geral. De sua experiência diária em dois campos distintos do atendimento à saúde, Senna acredita que não há um problema específico que leva à busca pelo diagnóstico on-line. “As pessoas buscam tudo na internet. Estão com uma dor no ombro e colocam no doutor Google.”

Segundo o estudo britânico, o alarme falso mais comum originado pelo autodiagnóstico com a ajuda da internet é o de câncer de mama, seguido dos de candidíase, pressão alta e asma. Já os sintomas que mais levam as mulheres a consultar o Dr. Google foram problemas de sono, dores de cabeça, depressão e ansiedade (veja quadro ao lado).

Das mais de mil mulheres entrevistadas pelos pesquisadores, três quartos afirmaram que não se sentiam confortáveis conversando com amigos e familiares sobre alguns problemas de saúde. Metade delas confirmou ainda que sempre tentavam lidar com problemas médicos embaraçosos sozinhas, antes de procurar a ajuda de alguém. Além disso, mais de um quarto das mulheres disse que temia conversar com os médicos sobre tais problemas. Muitas delas afirmaram que gastaram “dias” se preocupando com os sintomas antes de falar com outra pessoa. Por fim, outro dado surpreendente: uma em cada 20 mulheres confessou ter suportado os sintomas sozinha por vários anos até finalmente procurar a ajuda médica.

“As pessoas demoram a buscar o médico porque têm medo de confirmar um diagnóstico indesejado e ter, então, de passar por um tratamento. A partir de qualquer coisa diferente que acontece, a primeira reação é a negação daquilo. A pessoa age como se fosse um avestruz, enfia a cabeça na terra e finge que não está vendo”, lamenta Ênio Senna.

Imprecisão
Para Emília Vitória da Silva, professora da Faculdade de Farmácia da Universidade de Brasília (UnB), a internet pode ser uma fonte de informações valiosas, mas não substitui o médico. “O usuário leigo não sabe direcionar sua pesquisa, filtrar as informações. Sempre oriento meus alunos e amigos a, se forem fazer buscas, não consultarem sites comerciais, mas de instituições de pesquisa ou de organizações do governo”, diz.

Há dois anos, ela avaliou a qualidade das informações oferecidas na internet sobre obesidade e encontrou uma série de dados incorretos e incompletos sobre o problema, especialmente a respeito de medicamentos usados para perder peso. “Faltam informações sobre reações adversas e citações da fonte utilizada. Muitos dados camuflam interesses comerciais”, critica a professora.

Segundo Silva, o Brasil carece de mais pesquisas que avaliem o impacto da informação on-line na saúde das pessoas. “Os profissionais de saúde têm que orientar seu paciente e ajudá-lo a buscar informação confiável na internet, pois não adianta falar para ele não recorrer aos sites”, conclui.

Buscas ajudam a prever ocorrências Para não ressaltar somente o lado negativo da síndrome de buscas por informações médicas na internet, uma pesquisa realizada na Universidade Rutgers, em Nova Jersey, Estados Unidos, mostrou que o Google pode ter um papel muito importante para a medicina. De acordo com o alergista Leonard Bielory, autor do estudo, a ferramenta de buscas é o Nostradamus da modernidade. Assim como o médico da Renascença que seria capaz de fazer previsões, o buscador on-line pode antecipar acontecimentos importantes para as autoridades de saúde.

A explicação estaria na análise do volume de pesquisas por determinados sintomas. Ou seja, a partir da quantidade de algumas buscas pode ser possível apontar, por exemplo, quando é o pico das alergias sazonais ocasionadas pela liberação de pólen. O exemplo dado foi o foco da pesquisa de Bielory, mas o pesquisador garante que os mesmos metodologia e resultados podem ser usados para outros distúrbios ambientais.

Os dados do estudo foram coletados por meio do Google Analytics, um serviço gratuito que fornece estatísticas de visitação e exibição de determinados conteúdos na web. Entre os termos mais procurados e monitorados pelo pesquisador estavam “rinite alérgica”, “alergia nasal”, “conjuntivite”, “alergia no olho”, “alergia ao pólen” e “febre”. O volume de busca por tais termos foi comparado à contagem do pólen de árvores, gramíneas e ervas daninhas na região de Nova York e Nova Jersey. A pesquisa foi realizada entre 2004 e 2011 para a população total dos Estados Unidos.

Os resultados mostraram que a procura para o termo “alergia nasal” predominou sobre o termo “alergia ocular” durante todo o ano, exceto em duas semanas específicas. Com isso, os pesquisadores constataram que os sintomas nasais são reconhecidos mais cedo do que os oculares, além de persistirem e predominarem  ao longo do ano. “Certas espécies polinizadoras podem contribuir mais para sintomas específicos com base em sua sazonalidade”, acrescenta o pesquisador.

Para ele, “o Doutor Google nunca substituirá um médico de verdade, já que a arte da medicina ocorre pela avaliação humana”. Entretanto, a inteligência artificial e o potencial da rede mundial de computadores possibilitam a disseminação da informação e a assistência a áreas remotas de populações humanas. (MU)

 

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