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Ciência

Dieta ancestral

Estudo britânico aponta que os Australopithecus bahrelghazali, hominídeos que viveram há cerca de 3 milhões de anos, se adaptaram para comer gramíneas e capins. Com isso, a espécie conseguiu expandir território e aumentar as chances de sobrevivência

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postado em 14/11/2012 08:00 / atualizado em 13/11/2012 11:06

Entre os diversos aspectos que permeiam a história da evolução humana, a alimentação certamente foi responsável por uma série de modificações adaptativas que garantiram a continuidade das espécies. Em um artigo publicado ontem na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas), uma equipe de pesquisadores do Laboratório de Arqueologia da Universidade de Oxford, no Reino Unido, desvendou uma inesperada característica da dieta dos Australopithecus bahrelghazali, hominídeos que viveram há mais de 3 milhões de anos: eles se alimentavam de gramíneas e capins.

Os A. bahrelghazali são considerados os mais obscuros australopitecíneos, devido ao pouco material fóssil encontrado até hoje. O estudo britânico se tornou possível graças ao material encontrado em 1993 pelo paleontólogo francês Michel Brunet, em Bahr el Ghazal, no Chade. A partir da análise da concentração de isótopo de carbono nessas peças, os pesquisadores revelaram que, ao contrário de outros grandes primatas, a espécie se alimentava de plantas C4, cujo principal representante na época eram plantas rasteiras. “O resultado sugere que os primeiros hominídeos eram capazes de reconhecer e explorar novos alimentos desde muito cedo na história evolutiva. Isso não só lhes permitiu explorar muito hábitats como também marcou a diferença entre eles e os seus primos: os grandes primatas”, explica ao Correio Julia Lee-Thorp, principal autora do artigo.

Segundo ela, as conclusões foram surpreendentes, pois esse tipo de vegetação disponível em campos abertos era pouco acessado pelos grandes primatas, que habitavam florestas e bosques e se alimentavam principalmente de frutas. O que se esperava, portanto, era que os A. bahrelghazali tivessem um hábito alimentar semelhante, mas, pelo visto, não era isso que ocorria. Ao se adaptar a esse tipo de comida, a espécie pôde ampliar seu território.

A principal diferença entre as plantas C3 e C4 está na eficiência metabólica de cada grupo para fixar dióxido de carbono (CO2) e transformá-lo em glicose. “Apesar de que cerca de 90% da biomassa terrestre vir das plantas C3, no geral, as C4 são mais eficientes no aproveitamento de água, além de possuírem um ponto de saturação luminosa mais alta, ou seja, realizam fotossíntese em áreas com excesso de incidência luminosa com maior eficácia do que as C3”, esclarece o biólogo Danilo Vicensotto Bernardo, do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da Universidade de São Paulo (USP). Isso significa que as plantas C4 suportam melhor áreas mais secas e com forte incidência solar. Atualmente, um exemplo de planta C4 importante para a dieta de muitas populações humanas é o milho.

Para Bernardo, como o continente africano sofreu severas mudanças ambientais entre 4,5 milhões e 2,5 milhões de anos atrás, resultando em um processo de savanização, fica claro que a oferta de plantas C4 naquele momento tornou-se mais abundante. “Os hominíneos capazes de consumir esses vegetais desfrutaram, ainda que momentaneamente, de um nicho ecológico mais abundante do que aquele disponível aos indivíduos que só consumiam plantas C3. Evolutivamente, tal característica é pertinente, pois representa uma vantagem na aquisição de energia”, reforça. Dessa maneira, ao consumir essas plantas, os A. bahrelghazali aproveitaram os recursos disponíveis de maneira mais eficiente.

 

Variabilidade
O tipo de técnica usada no estudo tem permitido aos cientistas aprender muito sobre a alimentação dos ancestrais do homem. Mercedes Okumura, pós-doutoranda do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE/USP), explica que a divisão de espécies dos australopitecíneos era antes feita em gráceis (que incluíam o Australopithecus afarensis, o A. bahrelghazali e o A. africanus) e robustos (A. boisei, A. robustus e A. aethiopicus). Essa separação estava relacionada à morfologia craniana e à dieta adotada pelas criaturas. “Dividíamos de forma simplista: os gráceis comiam alimentos menos duros (e de melhor qualidade) e os robustos, aqueles que demandavam maior mastigação (e de pior qualidade). Atualmente, graças aos estudos de isótopos, sabemos que há uma imensa variabilidade na dieta desses hominíneos, e que não há uma regra definida em termos da morfologia e da dieta”, diz.

Para Okumura, o estudo revela a ocorrência de diferenças importantes nos ambientes explorados pelas várias espécies de Australopithecus. Segundo ela, as regiões habitadas pelos A. bahrelghazali eram bastante diferentes das dos Australopithecus afarensis, homídeos que viviam na mesma época no leste da África, onde a vegetação era muito mais fechada. “Esses diferentes habitats puderam ser explorados pelos australopitecíneos devido a adaptações na ecologia alimentar, incluindo uma dieta baseada fortemente em plantas C4, no caso do A. bahrelghazali, ao passo que outros australopithecus tinham dietas bastante diferentes, baseadas em plantas C3”.

Sobre os próximos passos do estudo sobre os hábitos dos ancestrais humanos, a pesquisadora Julia Lee-Thorp revela que deseja traçar uma comparação das taxa de C4 entre os vários hominídeos que viveram no mesmo período do Pleistoceno para avaliar o quanto de variabilidade alimentar existiu em toda a África. “Nós também gostaríamos de ver outras espécies analisadas, porque nós não achamos que atingimos a origem da inserção dos recursos C4 na alimentação dos hominídeos.” O estudo da Universidade de Oxford recuou para mais de 1,5 milhão de anos a data em que se acreditava que as plantas C4 passaram a fazer parte da dieta dos australopitecíneos, já que, até então, o registro mais antigo referia-se aos A. boisei, que datam de 2 milhões a 1,4 milhão de anos. 

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“A importância dessa descoberta é enorme, dado que antes do advento dos estudos de isótopos estáveis e suas implicações na dieta dos seres vivos, geralmente inferíamos a dieta desses fósseis através de análises bastante indiretas. Estudávamos a morfologia dos ossos do crânio, especialmente as partes mais relacionadas com a mastigação e processamento os alimentos (mandíbula e maxila, dentes, músculos ligados à mastigação); estudávamos as marcas microscópicas deixadas pela mastigação (“estrias”) na superfície dos dentes; ou até mesmo lançávamos mão de estudos paleoambientais, na tentativa de inferir o que esses indivíduos consumiam. Atualmente, todas essas análises podem ser conjugadas com a análise de isótopos estáveis, que nos dá um panorama mais completo e preciso acerca da dieta dessas criaturas.”

Mercedes Okumura, pós-doutoranda do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP

 

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