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Ciência

Condições de abrigar vida

Segundo dois estudos ingleses, Marte já teve água a uma temperatura propícia à existência de micro-organismos. As pesquisas foram feitas a partir da análise de meteoritos e de imagens da superfície do Planeta Vermelho

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postado em 24/11/2012 08:00 / atualizado em 23/11/2012 12:24

Paloma Oliveto

 

Imagem da superfície de Marte: marcas mostram que a água exerceu um papel fundamental na história geológica do planeta (Nasa/JPL-Caltech/Malin Space Science Systems /AFP - 9/8/12) 
Imagem da superfície de Marte: marcas mostram que a água exerceu um papel fundamental na história geológica do planeta

Enquanto o robô Curiosity, da Agência Espacial Norte-Americana (Nasa), escava o solo de Marte, na Terra cientistas também exploram os mistérios do Planeta Vermelho, na busca por indícios de vida a 42 anos-luz de distância. Dois estudos publicados recentemente reforçam as evidências de que, no passado, a temperatura da superfície marciana, hoje oscilando entre -125ºC e 25°C, era propícia à existência de micróbios semelhantes aos que vivem em algumas regiões da Terra.

A partir de meteoritos que se desprenderam de Marte, astrofísicos da Universidade de Leicester e da Open University, ambas do Reino Unido, descobriram que a temperatura da água que já fluiu na superfície do planeta variava de 50ºC a 150ºC, faixa suportável por micróbios. Na Terra, há regiões vulcânicas, como as do Parque de Yellowstone, nos Estados Unidos, que atingem essa faixa de calor e abrigam micro-organismos.

“Com um microscópio eletrônico, nós investigamos os meteoritos com um grande nível de detalhamento para identificar os veios presentes nesses objetos”, diz John Bridges, pesquisador de ciências planetárias de Leicester e autor de um dos estudos, publicado no jornal Earth and Planetary Science Letters. “Os diferentes grupos minerais só podem se formar dentro de uma certa faixa de calor, de modo que foi assim que calculamos a temperatura da água em Marte”, conta.

Até hoje, foram identificados três grupos de meteoritos que se desprenderam de Marte e chegaram à Terra: os shergottitos, os chassignitos e os nakhilitos. Enquanto os primeiros datam de 4,55 bilhões de anos, época em que o planeta se formou, os últimos são os mais interessantes para estudar a água, pois contêm pequenos veios preenchidos por minerais formados pela ação do líquido na rocha. Até hoje, só foram encontrados oito meteoritos do tipo — incluindo um descoberto na cidade mineira de Governador Valadares —, que foram ejetados de Marte há 11 milhões de anos e se fragmentaram 1,3 milhão de anos atrás. A idade é medida pela análise da proporção de isótopos que decaíram ao longo do tempo.

Um dos nakhilitos estudados por Bridges chama-se Lafayette e foi identificado em 1933, no estado americano de Indiana. Ele é considerado um dos mais raros e intrigantes objetos marcianos devido à sua composição mineral. De todos já encontrados, é o que contém a maior porcentagem de água (0,39%), na forma de sais hidratados. Acredita-se que a rocha, rica em ferro e material vulcânico, foi exposta à água há cerca de 700 milhões de anos, quando sua composição começou a mudar devido à infiltração da solução salina. Os novos minerais que foram se formando à medida que a rocha entrava em contato com a água ainda podem ser detectados dentro dos veios que caracterizam o meteorito.

Com o microscópio eletrônico, os cientistas descobriram que o primeiro mineral formado no interior da rocha foi o carbonato de ferro. Segundo Susanne Schwenzer, pesquisadora de ciências físicas da Open University e coautora do estudo, o composto só poderia surgir a partir do contato da rocha com água rica em carbono e aquecida a 150ºC. Quando Marte resfriou, chegando a 50ºC, vieram os minerais argilosos, também identificados durante as análises.

A vida, dizem os autores, seria possível nessas condições, pois micróbios usam a reação química ocorrida durante a formação de novos minerais para obter energia e outros elementos essenciais à sua sobrevivência. “Essas descobertas são muito empolgantes. Até agora, não sabíamos que os carbonatos foram formados primeiros, seguidos pela argila. Esses detalhes fornecem uma boa compreensão sobre as condições ambientais do passado de Marte”, afirmou Schwenzer em um comunicado de imprensa.

John Bridges esclarece, contudo, que o estudo não afirma que já houve vida no Planeta Vermelho. “Mostramos que era um ambiente habitável para micróbios, mas isso não significa que eles existiam”, diz. Até hoje, não há provas da detecção de micro-organismos fossilizados em meteoritos que caíram na Terra. “Indícios anteriores que sugeriam que a vida marciana foi preservada em outro meteorito, o ALH84001, não se confirmaram depois de datações e investigações mais detalhadas. Se encontrarmos vida em Marte, acredito que isso será feito com as missões espaciais”, aposta Bridges.

Meteorito estudado: temperatura da água marciana variou de 50ºC a 150ºC (Carl B. Agee/AFP - 18/1/12) 
Meteorito estudado: temperatura da água marciana variou de 50ºC a 150ºC

Paisagem
Outro estudo que sustenta a possibilidade de vida em Marte foi divulgado pela Universidade de Gotemburgo, na Suécia. Em vez de analisar a composição de meteoritos, Andreas Johnsson, do Departamento de Ciências da Terra, se debruçou sobre imagens da paisagem marciana e as comparou com o arquipélago norueguês de Svalbard, muito semelhante a algumas regiões de Marte. As fotos de satélite em alta resolução foram sobrepostas, revelando características compartilhadas pelas ilhas do Ártico e o Planeta Vermelho. Uma delas é a existência de permafrost e gelo subterrâneo.

A paisagem de Marte, fortemente acidentada, foi moldada pela água, lembra Johnsson. No arquipélago, isso também ocorreu. “Grandes porções dos hemisférios sul e norte de Marte congelaram e descongelaram alternadamente ao longo da história geológica do planeta. É um indicativo de que a água desempenhou um papel muito importante, assim como em Svalbard. Portanto, é possível que, em alguns momentos, formaram-se ambientes propícios à existência de vida”, afirma. O cientista não descarta a chance de isso voltar a acontecer. Como Marte está em constante transformação, o gelo subterrâneo poderia, em tese, derreter, dando origem à água líquida, estado essencial para o florescimento da vida.

Mesmo que o clima em Marte continue gelado e pouca água líquida esteja disponível um dia, Johnsson acredita que a vida é possível no planeta. “Na Terra, pesquisas mostram que muitos organismos conseguem sobreviver em ambientes extremamente frios e com acesso limitado à água em estado líquido. Quanto mais regiões de Marte pudermos analisar, maior a probabilidade de encontrarmos ambientes com condições de suportar a vida”, garante.
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