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Por um coração mais forte

Especialistas da Universidade Federal de Uberlândia testam o uso de células-tronco extraídas do próprio paciente para recuperar órgão infartados.O estudo integra projeto nacional de pesquisas

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postado em 28/11/2012 13:13 / atualizado em 28/11/2012 13:15

Lucas Buzatti - Portal UAI

 

 (Arte: EM/D.A Press) 

Belo Horizonte — Não é nenhum exagero afirmar que a biografia de quem sofreu um atentado dentro do peito será narrada sempre com um “antes” e um “depois” do infarto. Quem já levou esse golpe tem a sensação de que o órgão cardíaco nunca mais vai ser o mesmo, pois mais parece um lutador baqueado. Mas a ciência não quer que nessa luta a toalha seja jogada. E por isso está na busca pela “chave” capaz de reparar um coração machucado. É por meio de pesquisas com células-tronco que pesquisadores brasileiros têm experimentado terapias celulares que poderão recuperar mais rapidamente esse órgão vital, deixando-o mais forte e com mais vigor.

Antenada no assunto, a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em Minas Gerais, está com dois estudos em andamento e promove, hoje e amanhã, o I Fórum de Células-Tronco e Terapia Celular do Triângulo Mineiro, que espera reunir estudantes e docentes do Brasil inteiro para discutir os avanços, descobertas e entraves do tema na área da cardiologia.
Na busca por um coração mais forte, a universidade integra um esforço nacional de diversas unidades de saúde do país pelo desenvolvimento da terapia celular. Chamada Estudo Multicêntrico Randomizado de Terapia Celular em Cardiopatias (Emrtcc), a experiência teve o protocolo preconizado pelo Ministério da Saúde em 2005. O centro coordenador do projeto é o Instituto Nacional de Cardiologia de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, e conta ainda com o apoio de 34 hospitais e institutos. O objetivo principal do grupo de pesquisas é avaliar a segurança e a eficácia do implante autólogo (do próprio paciente) de células-tronco de medula óssea em 1,2 mil brasileiros, com as seguintes cardiopatias: infarto agudo do miocárdio, cardiopatia isquêmica crônica, cardiomiopatia dilatada e cardiopatia chagásica.

Em Uberlândia, o trabalho dos pesquisadores tem foco no primeiro caso. Desde maio, a universidade avalia o potencial reparador das células-tronco da medula óssea em pessoas que sofreram infarto agudo do miocárdio. Segundo conta a enfermeira e mestranda do curso de pós-graduação em ciências da saúde da UFU Poliana Rodrigues Alves, até o momento, três pacientes estão em teste. “Trata-se de uma pesquisa clínica, e a previsão é de que em janeiro todo o estudo no país esteja pronto.” Quando uma pessoa infarta, faltam suprimentos sanguíneos de oxigênio e nutrientes para as células do coração, como explica a enfermeira. “Como é um músculo em alto funcionamento, ele requer muita oxigenação”, diz.

Nesse estudo da UFU, o próprio paciente é o doador das células-tronco, o chamado transplante autólogo. O procedimento, conforme explica Poliana, é feito até o sétimo dia depois do infarto . “Até o terceiro dia, são feitos os exames laboratoriais para se conhecer qual o vaso sanguíneo foi culpado pelo infarto. Caso haja mais de dois vasos entupidos, o que necessitaria de uma ponte de safena para desobstruí-los, o paciente não pode participar da pesquisa”, afirma Poliana, explicando que, nesses casos, como serão colocados novos vasos, não há como haver a reparação celular (objeto de pesquisa da análise). Já a angioplastia, que é feita para desobstruir a artéria do paciente, é permitida. “Além disso, o paciente tem que ter de 30 a 80 anos e não apresentar nenhuma comorbidade, como disfunção renal, câncer ou estar em outro estudo clínico ”, destaca.

Até agora, três pessoas se submeteram à pesquisa na UFU. Depois dos exames laboratoriais feitos em até três dias depois do infarto, esses pacientes passaram por uma punção na medula óssea, na qual foram retirados 100ml de sangue. “O material foi levado para a equipe de processamento de células. Nesse processo, são separadas as células sanguíneas das células mononucleares (com um único núcleo) e com potencial para célula-tronco”, diz. As células são diluídas, são separados o plasma das hemácias do paciente. “Tudo tem de ser da pessoa, para que não haja rejeição”, avisa Poliana.

 Para o tratamento do problema, o infartado se submeteu ao cateterismo cardíaco, no qual se introduziu um cateter pela coronária até o local onde está a obstrução, para que o fluxo do sangue se restabelecesse. “Foi feito, então, um novo cateterismo e injetado 10ml das células-tronco dentro do vaso que causou o infarto. Em 30 minutos, o paciente foi examinado, ficou 24 horas em observação e, depois, recebeu alta. De tempos em tempos, ele volta para avaliarmos se a força do coração melhorou”, conta Poliana.

Com a técnica, a expectativa é de que haja uma melhora de 5% na vitalidade do órgão e de forma mais rápida. O estudo é duplo-cego, os médicos não sabem qual paciente recebeu placebo e em qual foi aplicada a célula-tronco. “A esperança é de que a recuperação naqueles que receberam a injeção seja mais rápida. Por enquanto, o que podemos dizer é que os que estão sendo testados passam bem e não tiveram, até então, nenhuma decorrência.”

 Enquanto esse estudo é realizado, outras universidades do país desenvolvem projetos paralelos com o mesmo objetivo: usar células-tronco para fortalecer o coração. Na Bahia, por exemplo, tem sido feito o experimento em pessoas que já sofreram com o mal de Chagas. A expectativa é que, com os resultados, haja uma nova alternativa para o Sistema Único de Saúde (SUS) como método terapêutico de rotina.

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