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Correio Braziliense

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Eternamente Niemeyer

Às 21h55 de ontem, o arquiteto de 104 anos morreu no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, vítima de uma infecção respiratória

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postado em 06/12/2012 11:09

João Valadares , Helena Mader

José Varella/CB/D.A Press
Rio de Janeiro e Brasília
— Oscar Niemeyer flertou com a imortalidade e às 21h55 de ontem se tornou perpétuo de fato e de direito. O brasileiro que marcou a história do século 20 e revolucionou a arquitetura mundial morreu em decorrência de uma infecção respiratória. A lucidez mantida intacta até as derradeiras horas de vida fez com que a mente genial criasse sem cessar até os últimos batimentos de seu coração comunista. Ao longo de 104 anos, 11 meses e 20 dias, Niemeyer construiu sua trajetória de sucesso, cujo maior símbolo é Brasília. Seu corpo será velado hoje, entre as inconfundíveis e sinuosas curvas que ele projetou para o Palácio do Planalto. Mas em cada canto da cidade modernista que ele ajudou a erguer, seu nome será lembrado com deferência e devoção.

O vigor intelectual contrastava com a fragilidade do corpo de Niemeyer desde a sua internação. Mas o estado de saúde do arquiteto se agravou sobremaneira na manhã de ontem. Ele teve que ser entubado pela primeira vez desde 2 de novembro, quando chegou ao Hospital Samaritano, em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Diante da gravidade do caso, os médicos decidiram também sedá-lo ainda durante a manhã. Ciente de que Niemeyer em breve partiria, a família manteve-se a seu lado. Ele morreu na companhia da mulher, Vera, e de 10 pessoas próximas, entre netos e parentes.

Sobrinho-neto do arquiteto, o neurocirurgião Paulo Niemeyer estava ao lado de Oscar no momento em que seu coração deixou de bater. Ele acompanhou o arquiteto nas sucessivas internações e, para despertar o brilho nos olhos de Niemeyer, puxava conversas sobre arquitetura. “O que fez ele viver foi a obsessão pela vida e pelo trabalho. Mas se ele chegou tão longe, foi também por causa da força da Vera”, disse o neurocirurgião. Na porta do hospital, Paulo Niemeyer falou à imprensa pouco depois da confirmação da morte. Revelou que a família recebeu um pedido da presidente Dilma Rousseff para que o corpo fosse velado em Brasília. “Mas, com certeza, o enterro será no Rio porque ele era um carioca da gema.”

Médico do arquiteto há mais de 15 anos, Fernando Gjorup conta que a relação entre profissional e paciente se transformou em amizade. Ontem à noite, ele estava visivelmente emocionado ao anunciar a morte de Oscar. Nos períodos em que apresentava longas melhoras, Niemeyer ligava para Gjorup para reclamar de sua ausência. O médico ia então prontamente ao apartamento de Ipanema para visitar o paciente ilustre. “A gente conversava muito, mas nunca sobre morte. Sempre sobre vida”, revela. “Os bate-bapos eram sobre os mais variados temas, raramente sobre saúde. Ele falava sempre de temas como filosofia, mas as causas sociais eram a grande preocupação”, acrescenta. A grandiosidade das obras do arquiteto contrastam com a singeleza de seus ideais. Ele dizia que seu “compromisso inabalável” era contribuir para a emergência de uma sociedade mais fraternal, justa e solidária.

WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO
Infecção

A causa oficial da morte do arquiteto é uma infecção respiratória. Desde de que foi internado, em 2 de novembro, Oscar recebeu apenas antibióticos. Para postergar a entubação e minimizar os riscos de infecção, os médicos faziam fisioterapia respiratória. O médico Fernando Gjorup explicou que o quadro imunológico de Niemeyer era delicado, por conta do extenso tempo de internação. “Ele passou por situações graves nos últimos anos”, explicou.

A devoção pela arquitetura e o desejo de ver novos projetos saírem do papel foram os motores que motivaram Oscar a lutar pela vida. A idade avançada e a saúde debilitada não o afastaram do trabalho. No quarto da unidade intermediária do Hospital Samaritano, ele recebeu calculistas e colegas de trabalho durante a internação. Discutia também novas ideias com o neto Carlos Oscar, que administra o escritório. “Ele não parava de trabalhar nem no hospital, fazia reuniões, falava sobre projetos”, conta o médico de Niemeyer. Os pacientes de Gjorup costumavam questioná-lo sobre o segredo da longevidade de Oscar. O médico tinha a resposta na ponta da língua: “Querer viver faz viver mais”.

Retomar a rotina de trabalho em seu escritório com vista para a praia de Copacabana não era o único anseio de Niemeyer. Ele não escondia dos amigos que queria receber alta para poder bebericar em casa ou em seu restaurante preferido, em Ipanema. De preferência com uma taça de pinot noir. “O Oscar repetia sempre que queria sair logo para tomar um vinho e para cuidar dos projetos atrasados. Ele se manteve lúcido até o fim”, disse o neurocirurgião Paulo Niemeyer.
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