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Ciência

Estrelas não nascem sós

Segundo novo estudo, a maioria dos astros surge em sistemas ternários, mas, após uma verdadeira batalha gravitacional, um dos corpos acaba expulso

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postado em 07/12/2012 08:00 / atualizado em 06/12/2012 13:01

Max Milliano Melo

Há quem diga que um é pouco, dois é bom, mas três é demais. Uma pesquisa divulgada na edição de hoje da revista científica Nature mostra que, pelo menos no que diz respeito às estrelas, a máxima é mais do que verdadeira. Depois de realizarem uma sequência de simulações de computador, cientistas dos Estados Unidos e da Finlândia concluíram que os sistemas binários — aqueles em que há a interação de duas estrelas — podem surgir a partir de formações mais complexas, com pelo menos três estrelas. A descoberta ajudaria a entender por que os conjuntos estelares duplos são tão recorrentes, e aqueles formados por apenas uma — caso do Sol — ou por três ou mais estrelas são raros.

É justamente a alta complexidade da coexistência na mesma região de dois astros que torna essa situação tão frequente no Cosmos. “A maioria das estrelas são inicialmente formadas em pequenos e compactos sistemas com duas, três ou até mais delas no centro de um núcleo”, explica Bo Reipurth, da Universidade do Havaí, um dos autores do estudo. “Quando mais de duas estão juntas em um pequeno espaço, elas gravitacionalmente puxam umas às outras em uma dança caótica, na qual o corpo mais leve é muitas vezes expulso”, completa o especialista.

Assim, os cientistas acreditam que a maioria dos sistemas nasce ternário. A estrela mais leve permaneceria nesse jogo de forças até que um de dois destinos possíveis se realizasse. “Eventualmente, o pontapé que a estrela leva é de grandes dimensões e ela acaba fora do sistema”, conta o pesquisador dos Estados Unidos. Essa seria uma explicação para as estrelas errantes, que vagam solitárias pelo Universo. “Mas, em alguns casos, o pontapé não é suficientemente forte para o terceiro corpo escapar completamente, e ele acaba enviado para uma órbita muito ampla”, completa. Assim, alguns sistemas binários poderiam ser na verdade ternários, com uma estrela menor realizando uma órbita muito distante das outras duas.

Embora a maioria das pessoas, quando pense em sistema estelar, imagine algo como o conjunto formado pelo Sol e os oito planetas que o orbitam, organizações desse tipo são bastante raras no espaço. Estima-se que metade das estrelas do Universo estejam em sistemas binários simples, ou seja, formados exclusivamente por dois astros sem a presença de planetas ao redor. “Nos últimos anos, grandes pesquisas astronômicas proporcionaram a descoberta de aproximadamente 4,5 mil sistemas binários. E eles devem compreender apenas uma pequena porcentagem de todos os sistemas do tipo existentes”, conta Keivan Guadalupe Stassun, da Universidade de Nashville (EUA), autor de um comentário sobre o tema também publicado na Nature.

A outra metade é composta principalmente por grandes massas de estrelas em formação, astros solitários, e corpos como o Sol, que não têm a companhia de outra estrela, mas formam um sistema planetário. “O nosso Sol é uma estrela única. Isso o coloca em uma minoria de estrelas, porque a maior parte delas são binárias”, ressalta Reipurth.

Complexidade
A dinâmica gravitacional que ocorre entre duas estrelas — capaz de expulsar até mesmo um terceiro corpo semelhante — explica por que sistemas binários com planetas são tão raros. No entanto, recentemente, a melhora da qualidade dos telescópios e dos computadores que analisam as imagens de regiões distantes do Universo tem permitido descobertas desse tipo, com análises cada vez mais detalhadas.

No ano passado, por exemplo, o telescópio Kepler, da Agência Espacial Norte-Americana (Nasa), encontrou o Kepler 16b, o primeiro sistema formado por um planeta orbitando ao redor de duas estrelas. A descoberta foi comparada ao fictício Tatoonie, planeta em que vivia a família do herói de Guerra nas estrelas, Luke Skywalker.

Em agosto deste ano, pesquisadores norte-americanos anunciaram o sistema mais complexo já encontrado até hoje, o Kepler 47. Se antes ele era visto composto por apenas uma estrela, uma análise minuciosa mostrou que se trata de um conjunto de dois sóis orbitado por dois corpos. Trata-se, até agora, do único sistema binário com mais de um planeta já detectado. “Apesar de um ambiente dinamicamente bastante caótico, provocado por um sistema em que duas estrelas se chicoteiam uma em torno da outra, esses locais podem abrigar a formação de sistemas planetários completos”, comentou, na época, um dos autores do estudo, Michael Endl, da Universidade do Texas.

Eclipse

Planetas distantes não podem ser avistados da Terra, nem pelos mais potentes telescópios. Isso acontece porque esse tipo de corpo não emite luz, ele apenas reflete a da estrela mais próxima. Nesse caso, para detectá-los, os pesquisadores precisam observar as estrelas até que um planeta passe diante delas. É esse eclipse que permite  o estudo de planetas  distantes da Terra.
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