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Ciência

Em terra firme

Estudo publicado na Nature encontra evidências de que os primeiros organismos a viverem fora dos oceanos surgiram 20 milhões de anos antes do que se acreditava. Caso os resultados se confirmem, a história da evolução deverá ser reescrita

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postado em 14/12/2012 08:00 / atualizado em 13/12/2012 12:25

Paloma Oliveto

Se hoje os homens e outras incontáveis espécies animais dominam a superfície da Terra, isso só foi possível porque, um dia, formas de vida ainda primitivas se arriscaram a sair dos oceanos, enfrentando uma atmosfera extremamente inóspita. Até agora, era consenso entre os cientistas de que os bravos organismos que colonizaram o solo começaram esse movimento no Período Cambriano, quando ocorreu um evento conhecido por explosão da vida. Essa, contudo, não é mais uma certeza. Em um artigo publicado na revista Nature desta semana, um paleontobiólogo sugere que os primeiros organismos multicelulares terrestres existiam 20 milhões de anos antes do que o imaginado.

De acordo com Gregory Retallack, cientista da Universidade de Oregon, a grande explosão evolutiva aconteceu, na verdade, no Período Ediacarano. Em 1946, foram encontrados no sul da Austrália fósseis com idade entre 542 milhões e 635 milhões de anos, anteriores ao Cambriano (veja infografia). Até hoje, porém, eles eram considerados vermes marinhos e águas-vivas. Especialista em análise do solo, Retallack argumenta que, na realidade, os restos paleontológicos pertencem não a organismos aquáticos, como se pensava, mas a habitantes da superfície.

A base para essa teoria é que a coloração avermelhada dos fósseis, além da presença de cristais de areia, xisto e nódulos de carbonato, indica que eles foram imortalizados na terra, e não no mar. Para chegar a essa conclusão, o pesquisador passou muitos anos fazendo uma análise minuciosa da composição dos sedimentos, usando tecnologia de ponta, como o microscópio de escaneamento eletrônico. “Além das evidências geoquímicas, a aparência desses fósseis é muito semelhante à de líquens e micróbios terrestres”, argumenta. “Pouco tempo depois da descoberta, foi proposto que os organismos habitavam a superfície, mas, na década de 1980, a ideia de que eram marinhos ficou mais forte”, relata.

O paleontobiólogo destaca que as criaturas do Ediacarano não eram animais, mas formas de vida multicelulares invertebradas que, provavelmente, formavam colônias de micróbios e espécies de fungos e líquens. Se Retallack estiver certo, sua descoberta revoluciona a linha do tempo da vida na Terra, pois esses seres minúsculos com mais de 600 milhões de anos dariam origem a todos os animais que, hoje, vivem na superfície, o que inclui o homem.

Cautela
Especialista na explosão Cambriana, o pesquisador Paul Knauth, da Faculdade da Exploração da Terra e do Espaço da Universidade Estadual do Arizona, considera a hipótese bastante animadora. “Não temos como saber o que realmente aconteceu naquela época, isso será sempre impossível. Então, precisamos contar com a tecnologia para tentar reconstituir o passado. Foi o que Retallack fez, e os resultados sugerem a abertura de uma nova e intrigante linha de pesquisa”, avalia. Knauth, contudo, observa que é preciso cautela antes de assegurar que a vida fora das águas começou muito antes do que se acreditava. “Para a maior parte dos cientistas, o que Retallack considera sedimentos de solo foram, na verdade, rochas que estavam submersas e, com o lento passar dos anos, chegaram aonde hoje é a superfície, levando os fósseis com elas”, pondera.

Em um artigo escrito para a Nature, Shuhai Xiao, do Departamento de Ciências da Universidade Tecnológica da Virgínia, diz que muitos dos sedimentos onde há fósseis desse período têm marcas claras de ondas, indicando que, no passado, estavam nos oceanos. Para ele, uma análise definitiva do solo Ediacariano é um desafio muito grande, porque naquele tempo não havia plantas terrestres. Sem a evidência de raízes e folhas, não se pode garantir que o fóssil vivia na superfície. “A proposta do artigo representa uma mudança fundamental no quadro que temos da evolução, mas provavelmente vai se confrontar com um contínuo ceticismo, pois nenhuma prova apresentada é irrefutável”, escreveu.

Gregory Retallack diz que está pronto para as críticas e concorda que há espaço para múltiplas hipóteses, além da que defende. Ele ressalta, contudo, que o aprimoramento tecnológico permite uma análise muito mais precisa do que a realizada na década de 1980. “O mundo está repleto de fósseis do Ediacariano, muitos deles provavelmente eram marinhos, mas outros podem ser terrestres, por isso acredito que devem ser reavaliados”, argumenta.

Para o cientista, os organismo que viviam na superfície da Terra há 600 milhões de anos podem, inclusive, ter favorecido a grande explosão da vida no período posterior. Até hoje, não se sabe exatamente o que ocorreu no Cambriano para que milhares de espécies florescessem. Mudanças climáticas e atmosféricas são as principais suspeitas de terem contribuído para esse acontecimento, mas os fósseis das criaturas ediacarianas também podem ter ajudado, fornecendo o combustível necessário para o surgimento da vida mais complexa. Em nota, a vice-presidente de Pesquisa e Inovação da Universidade de Oregon, Kimberly Andrews Espy, ressaltou a importância do trabalho: “A pesquisa conduzida pelo Dr. Retallack ajuda a desvendar o mistério da vida muito antiga na Terra”.

Molde

Ao contrário do que se possa imaginar, fósseis não são os animais (ou plantas) propriamente ditos, mas a marca que eles deixam em um sedimento, muito tempo depois da morte. Os tecidos moles são preenchidos por minerais, que imprimem na rocha o molde exato do que foi aquele organismo. Existem, contudo, ossos fossilizados,
mas esses são mais raros e de períodos mais recentes.
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