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Tecnologia

Cirurgia sem dor e menos arriscada

Pesquisador da Unicamp desenvolve aparelho que torna a aplicação de anestesias regionais mais precisa e segura. O equipamento ainda tem a vantagem de ser aproximadamente 80% mais barato que modelos já existentes no mercado

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postado em 08/01/2013 08:00 / atualizado em 07/01/2013 12:14

Roberta Machado

Antes de passar por um procedimento cirúrgico, o paciente é submetido a um processo delicado e que exige muita precisão para protegê-lo da dor: a agulha carregada de anestésico é inserida dentro da pele e se aprofunda no membro até chegar próximo ao nervo, onde a substância é injetada para causar a sensação de dormência. A grande dificuldade desse procedimento é descobrir justamente até onde a agulha pode ir — se ela ficar muito longe do nervo, a anestesia não tem o efeito desejado. Se chegar a perfurá-lo, o resultado pode ser a paralisia e até mesmo a morte, dependendo da região prejudicada. Anestesistas podem realizar essa tarefa com base nos conhecimentos anatômicos ou recorrer à precisão tecnológica para evitar falhas graves.

São vários os dispositivos usados para guiar uma anestesia regional (que, diferentemente da geral, faz efeito em apenas uma grande parte do corpo, como um dos braços ou as pernas), mas um novo modelo de estimulador de nervos, projetado por um aluno de mestrado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), promete ser uma escolha certa para os profissionais. Trata-se do primeiro aparelho do tipo que funciona de forma automática, sem a necessidade de assistentes ou de constantes regulações.

A agulha é ligada ao equipamento e penetra na pele do paciente da mesma forma que as outras. O grande diferencial é que tudo o que o profissional precisa fazer é esperar por um sinal sonoro que alerta da proximidade do nervo e indica o momento de o anestésico ser aplicado. “O estimulador vai dando pequenos choques quando a agulha é introduzida, e, com base na amplitude do estímulo, ele calcula o espaço entre a agulha e o nervo. A distância ideal é de mais ou menos 3mm. Sem estar muito longe nem muito perto, e sem furar o nervo”, explica Carlos Alexandre Ferri, autor do projeto.

Essa precisão é garantida com a ajuda de eletrodos que ficam colados ao corpo do paciente. “Ferri combinou uma série de coisas, mas a precisão do equipamento se deve às estruturas de circuitos eletrônicos que ele usou. É uma estrutura que gera os pulsos eletrônicos com maior precisão. O microprocessador controla digitalmente toda a produção do pulso”, comenta o professor Antônio Augusto Fasolo Quevedo, orientador do projeto na Unicamp.

A dupla não revela mais detalhes do protótipo, que ainda está em fase de testes e passando pelo processo de registro de patente. O criador da anestesia automática calcula que o dispositivo custe em torno de R$ 300, cerca de 80% mais barato que modelos até menos avançados.

Automático

O equipamento criado por Alexandre Ferri foi testado em procedimentos reais, realizados no Hospital e Maternidade Madre Theodora, em Campinas (SP). A agulha elétrica foi colocada à prova em 10 cirurgias de mãos e mostrou resultados mais eficientes que os de outros aparelhos. Além de registrar efeitos mais rápidos que seriam alcançados com anestesias comuns, o dispositivo evitou novas aplicações de drogas nos pacientes menos sensíveis e teve a margem de erro calculada em 1%. O sucesso do projeto rendeu ao autor um prêmio em um concurso internacional de design médico promovido por uma empresa fabricante de sensores.

Os estimuladores de nervos tradicionais também garantem a precisão cirúrgica, mas exigem atenção do médico, que precisa de um assistente para regular a intensidade das descargas elétricas a cada movimento. Sem o sinal sonoro, esses modelos também dependem do poder de julgamento do profissional, que precisa avaliar a contração muscular para estimar a distância entre o nervo e a agulha. “Poucos equipamentos no mercado têm características de confiança e boa aplicação. Médicos abandonam o uso porque não são práticos. Com o nosso modelo, o profissional só precisa se preocupar em ter mão firme”, compara Ferri. Ele pretende adaptar a máquina para atender a outros tipos de anestesia regional.

Técnicas

Hoje, os anestesiologistas contam com três técnicas básicas para encontrar o local certo de aplicação. Eles podem tentar causar um choque desagradável com o contato entre agulha e nervo, recorrer ao ultrassom para ver na tela o organismo do paciente ou usar a eletroestimulação. “A segurança de cada um vai depender do anestesiologista e de seu conhecimento de anatomia. O que se deve evitar é a injeção intraneural do anestésico local, principal causa da lesão nervosa”, aponta Adilson Hamaji, Coordenador do Núcleo Bloqueios por Ultrassom e Estimulação da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA).

Para o especialista, o baixo preço e a facilidade do uso do aparelho podem contribuir com a popularização da técnica da eletroestimulação, diminuindo o número de acidentes e aumentando a eficiência das anestesias regionais. “Outro fato é evitar altos volumes de anestésicos a fim de evitar intoxicação do paciente, um efeito colateral considerado grave.” O uso do ultrassom, aponta Hamaji, garante essa mesma segurança, mas a um custo muito mais alto.

O barateamento das agulhas elétricas poderia, no entanto, facilitar o uso combinado do ultrassom com a estimulação de nervos — a técnica conjunta costuma ter preços elevados, mas é considerada a mais segura para a aplicação de uma anestesia regional. Por enquanto, nenhum dos dois métodos é uma realidade nas salas cirúrgicas do Brasil. Os médicos do país continuam optando pelo método chamado de parestesia, em que o alarme que alerta da aproximação do nervo é o próprio desconforto do paciente. Além de desagradável, o estímulo entre agulha e nervo é potencialmente perigoso e pode causar danos permanentes.
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