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Ciência

Censo da natureza é viável

Pesquisadores afirmam na revista Science que é possível conhecer praticamente todas as espécies vivas na Terra até o ano 2220. Segundo os autores do estudo, o número de seres existentes e as taxas de extinção costumam ser superestimadas

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postado em 26/01/2013 08:00 / atualizado em 25/01/2013 13:05

Paloma Oliveto

 

Aranha-do-mar, do gênero Pseudopallene, recentemente identificada na Austrália: quantidade de espécies na natureza é estimada em 5 milhões (C. Taylor & C. Arango/Divulgação) 
Aranha-do-mar, do gênero Pseudopallene, recentemente identificada na Austrália: quantidade de espécies na natureza é estimada em 5 milhões

Um dos maiores temores dos conservacionistas é imaginar que muitas espécies da fauna serão extintas antes mesmo que a humanidade chegue a conhecê-las. Não é um medo infundado: mudanças climáticas, caça ilegal, aumento da população mundial e interferência do homem nos ecossistemas foram responsáveis pelo desaparecimento de diversos animais, como o golfinho-baiji, o tigre-de-Java, o pica-pau-bico-de-marfim e espécies de tartarugas-gigantes. A situação, porém, pode não ser tão grave como se pensa. De acordo com um estudo publicado na edição de hoje da revista Science, nos próximos anos é mais provável que novas espécies sejam descobertas do que extintas.

Os pesquisadores das universidades de Oxford, Griffith e Auckland lembram que, na última década, 17,5 mil novas espécies foram descritas, com um pico de 18 mil em 2006. Ao contrário do que se imagina, os pesquisadores afirmam que, nesse ritmo, será possível catalogar quase todas por volta de 2220. Para chegar à data, eles fizeram um cálculo, utilizando a taxa de descoberta e o número estimado de espécies existentes na Terra, cerca de 5 milhões.

“Algumas pessoas sustentam que jamais conseguiremos escrever todo o livro da vida. Um dos motivos seria o de que, hoje, temos menos taxonomistas (profissionais que estudam e descrevem espécies) do que no passado. Mas qualquer banco de dados desmente essa informação”, diz o coautor do artigo Nigel Sotrk, vice-presidente da Faculdade de Meio Ambiente da Universidade de Griffith, na Austrália. “Também contamos, cada vez mais, com voluntários leigos que se dedicam a procurar por novas espécies. Na verdade, metade dos animais da Europa foram descobertos por amadores”, revela.

Segundo os pesquisadores, outro motivo pelo qual se argumenta que espécies vão acabar antes de serem conhecidas é que há um exagero nas predições tanto sobre o número das que devem existir na Terra quanto nas taxas de extinção. Enquanto já foi sugerido que 100 milhões de espécies animais habitam o planeta, o artigo sustenta que esse número é bem menor: entre 3 milhões e 5 milhões, sendo que 1,5 milhão já foram descritas. Como se trata de estimativas, não existe um consenso sobre qual método de cálculo é o melhor, mas, geralmente, as contas são feitas a partir de uma abordagem chamada relação espécie-área. A metodologia consiste em contar o número de espécies em um determinado local e estimar o tamanho da população, considerando a área total. Com isso, calcula-se o quanto essa população encolhe, à medida que perde seu hábitat. A lógica é a de que, quanto maior a área, maior a quantidade de animais que poderia abrigar. Assim, com a diminuição territorial, cairia, também, o número de espécies.

Mark Costello, pesquisador do Laboratório Marinho Leigh da Universidade de Auckland, na Austrália, e principal autor do estudo publicado na Science, diz que os modelos estatísticos usados para fazer os cálculos estão desatualizados. “Novas estimativas indicam que a Terra não deve ter mais que 5 milhões de espécies. Os modelos mais modernos têm uma margem de erro menor”, afirma Costello, que também encabeça o projeto do Censo Marinho. Outro problema estaria no cálculo da velocidade com que seres são extintos. “Caso, agora, a taxa de extinção por década seja mesmo de 5%, daqui a 150 anos, 50% delas não estarão mais aqui. Os modelos mais realistas indicam que essa taxa é de menos de 1%”, argumenta.

Microscópico: descoberto na Venezuela, o caracol Rissoella morrocoyensis tem apenas 1mm de comprimento (M.J. Costello/Divulgação) 
Microscópico: descoberto na Venezuela, o caracol Rissoella morrocoyensis tem apenas 1mm de comprimento

Controvérsia
O ecólogo Stephen P. Hubbel, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, concorda com os pesquisadores e afirma que está “100% certo” de que o modelo espécie-área está desatualizado. “Essa curva tem sido usada há mais ou menos 100 anos e é uma medida completamente equivocada”, garante. Há dois anos, Hubbel publicou um artigo na revista Nature no qual também alega que a quantidade de espécies que podem ser extintas é superestimada. “No mínimo, o modelo é um achismo”, critica. De acordo com o cientista, a relação espécie-área não reflete, necessariamente, a distribuição dos animais no espaço estudado. Para o ecólogo, estimativas mais precisas deveriam ser construídas a partir da análise das populações endêmicas, ou seja, aquelas que só existem em uma determinada região.

O também ecólogo e conservacionista Stuart Pimm, da Universidade de Duke, discorda. Fundador de uma organização não governamental que leva seu nome, o cientista afirma que as taxas de extinção não estão superestimadas. “Não se pode dizer que o modelo espécie-área deve ser descartado. Ele foi a base de muitos estudos que, infelizmente, se mostraram bastante corretos. A precisão do modelo depende do meio que se está estudando; ele pode não servir para todos, mas isso não significa que simplesmente não serve mais”, contesta. Em 1995, Pimm escreveu um artigo prevendo a extinção de pássaros na América do Norte, vinculada ao desmatamento. Ele alegou, na época, que, em média, 4,5 espécies seriam perdidas. De fato, quatro das que descreveu já não existem mais no nordeste do continente.

Mark Costello, porém, afirma que o objetivo do estudo publicado hoje na Science não é alegar que os animais estão fora de risco. “Pelo contrário, nossa intenção é mostrar que vale a pena investir na descoberta de novas espécies e, assim, desenvolver melhores estratégias que as protejam. Essa é uma tarefa possível. Quando se diz que o número de espécies, assim como a taxa de extinção, é tão grande que jamais o conheceremos, pode-se pensar que, então, é inútil procurar por elas e tentar conservá-las. Estamos argumentando o oposto disso”, defende.

Em nota, o terceiro autor do artigo, Bob May, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, lembra que o estudo foi feito levando em conta a situação ambiental atual. “No futuro, alterações climáticas vão dramaticamente diminuir as taxas de sobrevivência das espécies, somada à caça desgovernada e à perda de hábitat. No estágio em que estamos agora, não temos como dizer qual será a evolução dessas taxas, mas, se o aquecimento global exceder 2ºC, podemos esperar para ver uma escala de perda da biodiversidade incalculável. O aumento da temperatura e outros fatores ambientais levarão a extinções em massa”, alerta.

Repetição


Outra questão levantada pelos pesquisadores no artigo da Science é a qualidade dos estudos publicados anualmente. Erros na catalogação contribuem para que a biodiversidade e a taxa de extinção sejam superestimadas. Revisões taxonômicas, por exemplo, mostraram que 93% de todos os cetáceos são sinônimos (descritos mais de uma vez, como se fossem espécies diferentes). O mesmo ocorre em relação a 32% dos insetos, 38% dos moluscos, 50% dos peixes marinhos e até 81% dos de água doce. Com o ajuste, o número de espécies descritas caiu de 1,9 milhão para 1,5 milhão.
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