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Ciência

Potência em astronomia

O país ganha cada vez mais importância no estudo do Cosmos com o aumento de convênios internacionais, cursos de formação e produção científica. Sociedade Astronômica Brasileira já tem 700 associados

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postado em 28/01/2013 12:37

Carolina Cotta /d

Imagem tirada do telescópio Hubble mostra nuvem de gás se dissipando e dando origem a milhares de estrelas jovens  (Nasa/AFP %u2013 17/12/12 ) 
Imagem tirada do telescópio Hubble mostra nuvem de gás se dissipando e dando origem a milhares de estrelas jovens

 
Belo Horizonte — Quantos astrônomos você conhece? A astronomia não tem a popularidade de outras ciências, apesar de ser a mais antiga da humanidade, mas esse cenário está mudando. E mais rapidamente do que muita gente imagina. O número de pesquisadores filiados à Sociedade Astronômica Brasileira (SAB) cresceu consideravelmente nos últimos anos, chegando a mais de 700 sócios. O Brasil é hoje referência na América do Sul e, por causa de convênios internacionais, está conquistando espaço no cenário mundial. Ensino e pesquisa andam lado a lado nesse progresso em que os investimentos crescem, apesar de haver vários aspectos a melhorar. Mas os especialistas ligados aos principais centros de astronomia comemoram os investimentos que têm sido feitos.

Uma das áreas que avançam é a de formação: o Brasil tem hoje programas de pós-graduação específicos em astronomia ou em astrofísica, como os da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Observatório Nacional (ON) e da Universidade Cruzeiro do Sul (só mestrado). Em outras instituições, a formação é atrelada aos programas de física, caso da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Segundo Jaílson Alcaniz, coordenador de astronomia e astrofísica do ON, ligado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), há 15 anos a pesquisa se concentrava no Rio de Janeiro, em São Paulo, no Rio Grande do Sul e no Rio Grande do Norte. Hoje, há grupos no interior da Bahia e de Minas Gerais, caso do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), em Itajubá.

E, em campo, o perfil do trabalho dos astrônomos também está mudando. Os pesquisadores brasileiros não se limitam mais à observação. Agora, participam também do desenvolvimento de novas tecnologias. Há ainda mais investimento e colaborações internacionais. As três maiores são gerenciadas pelo Observatório Nacional, caso da The Dark Energy Survey (DES), da Sloan Digital Sky Survey (SDSS) e da Javalambre Physics of the Accelerating Universe Astrophysical Survey (J-PAS). Nessa última, em parceria com a Espanha, o Brasil está construindo um telescópio. Na Inglaterra, o país também tem a responsabilidade de gerenciar a construção da maior câmera do mundo — capaz de observar milhões de galáxias. “O objetivo é desvendar questões associadas à energia escura, mecanismo que faz com que a expansão do universo seja acelerada”, diz Alcaniz.

O país se destaca consideravelmente em cosmologia física, que descreve o universo em grande escala e se dedica a compreender a aceleração de sua expansão. Também é muito forte a pesquisa em astrofísica estelar, que estuda a evolução das estrelas. Mas a astronomia é bem mais ampla. Segundo Alcaniz, cada área estuda especificamente uma classe de objetos ou um regime de evolução no Universo. “Há pessoas estudando asteroides e formação de planetas; astrofísica estelar, que observa a evolução e a criação das estrelas; astrofísica galáctica, que se dedica aos vários fenômenos envolvendo aglomerados de galáxias. Existem ainda os cosmólogos, que estudam o Universo como um todo, da criação à evolução.”

Coordenadora da pós-graduação em astrofísica do Inpe, uma das mais antigas do país, Cláudia Vilega Rodrigues ressalta a dedicação a outras áreas, como a radioastronomia e a astronomia de raios X. No Inpe, são realizadas pesquisas teóricas e de modelos, além de instrumentação, que é o desenvolvimento de tecnologia para observação e coleta de dados. “Não temos laboratórios como os químicos, por exemplo. Os astrônomos olham para o céu e, da luz que vem das estrelas, tiram informações. Os objetos astrofísicos emitem luz infravermelha, ótica, raios X e raios gama. Mas, no Brasil, por causa do Observatório Pico dos Dias, em Minas Gerais, que alavancou nossa ciência, a astronomia ótica é a mais popular.”

Burocracia é um obstáculo

A contribuição brasileira não é concentrada em uma única área. “Temos pesquisas em todas as grandes áreas da astronomia, o que acho saudável. Elas podem ser maiores em algumas linhas, mas não podemos falar em concentração. Isso vai de encontro com a distribuição da pesquisa internacional”, acrescenta Cláudia Rodrigues, do Inpe. Para a pesquisadora, a astronomia brasileira evoluiu muito — e tem doutores espalhados pelo mundo inteiro —, mas pode crescer mais. “Temos potencial para aumentar nossa contribuição na astronomia mundial. Os números só crescem e, talvez por isso, nosso desafio futuro seja aumentar não só a quantidade de publicações, mas também a qualidade. Outro desafio é assumir a liderança nas colaborações, o que já está começando a acontecer.”

No Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), que, com o Inpe e o ON, completa a estrutura do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) na área, também existem desafios. Para Alberto Rodríguez Ardila, chefe da coordenação de apoio científico do instituto dedicado à instrumentação, os entraves para um maior progresso da astronomia no país são basicamente dois: burocracia e falta de recursos humanos. “No primeiro caso, o longo processo que deve ser realizado para a compra de peças não fabricadas no país, a aquisição de equipamentos e a exportação de instrumentos ou partes deles é altamente desgastante e nos deixa em uma posição pouco competitiva em relação a outros países que atuam na mesma área.”

A simples compra de um componente indispensável para um instrumento fabricado no LNA pode levar até seis meses. Isso produz atrasos incríveis no planejamento inicial. Inclusive, a compra de material no Brasil é também altamente burocrática, sendo que a duração típica desses processos se mede em meses. No segundo caso, a falta de vagas para suprir as necessidades de pessoal científico e de alta qualificação técnica no LNA é crônica. “Passam-se anos até se ter o aval do MCTI para contratar funcionários nessas duas áreas. Isso impede que o LNA possa entrar em novos projetos e parcerias, já que o quadro atual de recursos humanos é amplamente insuficiente para atender a demanda.” O mesmo ocorre no Inpe, onde há 10 anos não há concurso para a área de astrofísica.

Entrevista - Adriana Válio

Para Adriana Válio, presidente da Associação Astronômica Brasileira, os astrônomos brasileiros nunca publicaram e tiveram tantas parcerias internacionais como agora, com destaque para a participação no European Southern Observatory (ESO), consórcio que gerencia telescópios no Chile. Com a adesão ao ESO, espera-se aumento significativo na comunidade: o número de astrônomos de Portugal, por exemplo, cresceu 10 vezes com a entrada no consórcio.

A que se deve a expansão da astronomia no Brasil?
Em 2012, pesquisadores brasileiros participaram de mais de 200 publicações em revistas internacionais indexadas e da construção e da operação de telescópios internacionais no Chile e na Argentina. A criação de dois institutos nacionais de astronomia, o INCT-A e o INEspaço, financiados pelo governo federal para aglutinar pesquisadores de diferentes institutos e universidades com objetivo comum, também fomentou a pesquisa. A comunidade astronômica brasileira amadureceu nos últimos anos e tem sido procurada por pesquisadores estrangeiros para parcerias, caso do ESO. Os brasileiros têm tido acesso aos pedidos de tempo dos telescópios operados pelo ESO como qualquer outro país-membro. Em 2012, pesquisadores brasileiros foram coautores de 20 artigos (13 desses como primeiros autores), com resultados de observações obtidas com telescópios do consórcio.
 
Quais são os desafios para os próximos anos?
Um deles é finalizar o acordo de adesão ao ESO, que está parado na Casa Civil e precisa ser ratificado pelo Congresso. Como parceiros, teremos acesso a telescópios de 8m de diâmetro, com instrumentação de ponta; aos rádios telescópios do Atacama Large Millimeter Array (Alma), que, entre outras coisas, poderá medir a composição da atmosfera de planetas extrassolares; e a outros telescópios já em funcionamento. No futuro, poderemos usar o telescópio ELT, um gigante de 39m a ser construído pelo ESO. Outro desafio é aumentar o número de posições para astrônomos em institutos de pesquisa e universidades, para comportar o aumento dos profissionais formados nos próximos anos. Isso provavelmente será feito em instituições federais fora do eixo Rio-São Paulo ou em universidades particulares nos grandes centros. O número de publicações internacionais por pesquisadores brasileiros já é significativo, porém um próximo passo é publicar trabalhos que causem grande impacto, gerando centenas de citações. Um grande obstáculo que enfrentamos em 2012 foi o corte de 25% no orçamento do MCTI, em um momento em que precisamos de grandes investimentos para novos projetos e bolsas.
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