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Ciência

Mudança alimentar ajudou a domesticação dos cães

Segundo estudo sueco, adaptação genética fez com que ancestrais dos cachorros se tornassem capazes de digerir o amido, o que os aproximou dos primeiros agricultores. O processo teria sido iniciado há cerca de 12 mil anos

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postado em 31/01/2013 08:00 / atualizado em 30/01/2013 11:29

Marcela Ulhoa

 

A domesticação dos cães foi um episódio importante para o desenvolvimento da civilização humana. Entretanto, ainda não há consenso entre os pesquisadores sobre o momento e o local da aproximação entre as duas espécies. Além disso, os especialistas pouco sabem sobre as mudanças genéticas que acompanharam a transformação dos lobos selvagens em animais de companhia. A partir de um estudo comparativo do genoma completo de 60 cachorros e 12 lobos, uma pesquisa da Universidade de Uppsala, na Suécia, sugere uma nova explicação para a origem dos cachorros de estimação. Publicado na edição mais recente da revista Nature, o artigo defende que esses bichos se tornaram o melhor amigo do homem ao sofrerem adaptações genéticas que os permitiram digerir melhor o amido.

“Os sinais genéticos que nós observamos mostram que somente os cães que eram capazes de digerir o amido de forma relativamente eficiente sobreviveram e se reproduziram”, explica o biólogo Erik Axelsson, principal autor do estudo. Segundo ele, tal resultado indica que os recursos alimentares nesse período de transição podem ter diminuído e aqueles indivíduos que conseguiram complementar a dieta padrão de carne com alimentos ricos em amido — e, de fato, digeri-los — adquiriram uma vantagem importante em relação aos outros. Isso não quer dizer que os cães preferiam o amido, mas tão somente que podiam fazer bom uso do polissacarídeo.

As raízes foram, provavelmente, a primeira fonte de amido encontrada pelos ancestrais do cachorro doméstico. Curiosamente, os principais vestígios arqueológicos de cães identificados em uma sepultura humana em Israel datam de 11 mil a 12 mil anos atrás, época que coincide com o surgimento da agricultura. Faz sentido, então, pensar que, nesse período, os cereais tornaram-se importantes e se alastraram por diversos assentamentos humanos. Isso porque um dos principais aspectos trazidos pela agricultura foi a mudança do nomadismo para o sedentarismo, em que os grupos humanos passaram a se fixar em determinados locais estratégicos. Por outro lado, foi também nesse contexto que se iniciou a acumulação de lixo próximo às moradas dos homens. “Uma hipótese diz que a domesticação decolou quando os lobos começaram a se aproximar das lixeiras perto dos assentamentos agrícolas. Esses talvez foram os locais onde os cães comeram amido pela primeira vez”, detalha Axelsson.

Hipóteses
O biólogo acrescenta que a hipótese do depósito de lixo é atraente, pois pode explicar, ao mesmo tempo, as mudanças comportamentais e digestivas dos ancestrais caninos: para se dar bem no novo ambiente onde os resíduos eram despejados, os lobos precisavam ser menos amedrontadores e conseguir processar bem o amido. Até então, a tese mais aceita para o início da domesticação era a de que o homem teria utilizado os filhotes de lobos para auxiliar na caça ou  usá-los como proteção. Apesar de não ter elementos para confirmar ou destruir nenhuma das duas teses, o autor ressalta que os genes marcam de forma clara as diferenças entre os animais selvagens e os domesticados.

No total, os pesquisadores identificaram 36 regiões do genoma que provavelmente sofreram modificações ao longo do processo de domesticação e adaptação evolutiva do cachorro. Apesar das 14 espécies distintas dos bichos de estimação analisados, o estudo constatou que essas áreas genéticas são praticamente idênticas em todos os cães. Ao mesmo tempo, elas diferem marcadamente do genoma do lobo. Em outras regiões, os pesquisadores descobriram que cachorros e lobos compartilham muitas variantes genéticas iguais. Segundo eles, mais da metade dessas áreas estão ligadas às funções cerebrais, principalmente ao desenvolvimento do sistema nervoso, e poderiam explicar as diferenças de comportamento que separam os dois animais. Outros três genes, por sua vez, desempenham um papel determinante na digestão do amido, um glicídeo de origem vegetal.

“A domesticação só se processa a partir do momento em que a maquiagem genética se modifica. Não se trata de um processo de somente amansar o animal, ou de aproximá-lo do homem”, reforça Walter Motta Ferreira, professor do Departamento de Zootecnia da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ferreira é doutor em nutrição animal e pondera que, apesar de o cachorro ainda hoje ser morfofisiologicamente carnívoro, ele se adaptou muito bem a uma dieta onívora para uma participação mais próxima do humano. “O que o estudo sueco mostrou é que, nos cachorros, existe uma zona de genes envolvidos com a produção de enzimas que vão suportar uma dieta mais rica em carboidratos solúveis, principalmente o amido.” Segundo ele, como o lobo permanece um animal selvagem, esse padrão genético não foi alterado com o decorrer do tempo, o que o tornou inadaptável a uma dieta mais rica ao amido.

Nos alimentos



O milho é o alimento que mais contém amido: são 90,2g para cada 100g de alimento. Logo em seguida vêm a tapioca, a mandioca, a batata, o arroz cru, as farinhas e o milho. Dessa forma, produtos como macarrão, pão, bolachas e bolos são ricos em amido, um polissacarídeo sintetizado pelos vegetais para ser utilizado como reserva energética.

 

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