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Ciência

Bichanos caçadores

Estudo norte-americano aponta os gatos domésticos como perigosos predadores para inúmeras espécies. Estima-se que, somente nos Estados Unidos, a média anual de pássaros e mamíferos mortos pelos felinos seja de 14,7 bilhões

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postado em 01/02/2013 08:00 / atualizado em 31/01/2013 11:58

Roberta Machado

Não há bichano que não tenha prazer em perseguir uma presa, seja para matar a fome ou o tédio. O instinto, no entanto, pode ser a causa de um verdadeiro extermínio de espécies. O Instituto de Biologia e Conservação do Museu Smithsonian, em Washington, divulgou que, apenas nos Estados Unidos, os gatos matam anualmente 2,4 bilhões de pássaros, em média. No mesmo levantamento, publicado ontem na revista Nature Communications, o grupo revela que os felinos também seriam responsáveis pelo sumiço de 12,3 bilhões de mamíferos no mesmo período. Esses números colocam os gatos como a principal razão para a morte desses animais, alguns deles já extintos pela caçada.

Os índices, até hoje desconhecidos, são resultado de uma comparação de uma série de experimentos e trabalhos já publicados sobre o assunto. Com base em resultados da matança promovida em diversas comunidades dos Estados Unidos, do Reino Unido e da Europa, os pesquisadores foram capazes de criar uma projeção que estima o número de bichos mortos pelos felinos no país. Os norte-americanos apontaram que, dos 84 milhões de gatos ianques que moram em casas, ao menos metade deles mantém o costume de caçar, e que boa parte não chega a levar as vítimas para casa. Isso significa que, mesmo que o dono nunca tenha recebido uma carcaça de presente do bichinho, não quer dizer que ele não goste de perseguir animais menores.

O índice é ainda maior em gatos de rua: estima-se que entre 80% e 100% deles vão atrás de presas frequentemente, o que os torna responsáveis pela mortalidade de 69% dos pássaros e 89% dos outros animais. “Não há condições que contribuam particularmente com esse comportamento. Gatos sem donos precisam comer para se manterem vivos, e os dados disponíveis indicam que a maior parte dos gatos sem dono matam um número substancial de pássaros e mamíferos, assim como de répteis e anfíbios, em alguns casos”, acredita Scott Loss, pesquisador do Smithsonian e principal autor do estudo.

Os pesquisadores acreditam que cada felino seja responsável pela morte anual de 30 a 47 pássaros e de 177 a 299 mamíferos, que incluem ratos, ratazanas, esquilos e coelhos. “Nos Estados unidos, não há predadores que se comparem aos gatos domésticos. Além do mais, eles representam um novo predador, e uma ameaça à vida selvagem. Os dados sugerem que espécies nativas são a maior parte dos pássaros caçados por gatos”, aponta Loss. O cardápio dos caçadores ainda incluiria de 4 a 12 répteis e de 1 a 4 anfíbios anualmente. Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que não é possível afirmar quantos bichos morrem sob as garras dos animais de estimação em todo o mundo. Os próprios dados do estudo publicado na Nature Communications são bastante elásticos. Para os autores, o número anual de pássaros mortos pelos gatos nos EUA varia de 1,4 bilhão a 3,7 bilhões. Já o de mamíferos, de 6,9 bilhões a 20,7 bilhões.

Invasão
Outros estudos já apontaram os gatos como uma das 100 piores espécies invasivas do mundo. De acordo com um registro feito pela União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), esses animais causaram a extinção de 33 espécies. Com base nesses dados, os pesquisadores acreditam que os bichanos sejam os maiores inimigos para a sobrevivência de pequenos animais, atrás até mesmo de atropelamentos, pesticidas e colisões com janelas. As maiores vítimas desse fenômeno seriam os bichos que são encurralados pelos predadores em áreas restritas (como ilhas) e espécies nativas em áreas urbanas e rurais.

“Em áreas urbanas, os gatos podem ser responsáveis pela extinção de espécies de presas, mas nada foi documentado na literatura. No entanto, espécies nativas somem de áreas urbanas, e os gatos têm um papel de acelerar esse desaparecimento”, avalia Yolanda Van Heezik, pesquisadora do Departamento de Zoologia da Universidade de Otago, na Nova Zelândia. Ela foi a autora de um dos trabalhos usados no levantamento norte-americano, no qual acompanhou por um ano o número de bichos capturados por gatos domésticos.

Mesmo sendo pequeno o índice de vítimas deixadas em casa pelos felinos, ela ressalta a preocupação com os efeitos que esses caçadores causam no ambiente. “A presença de gatos pode fazer com que as presas passem mais tempo em vigília e menos procurando por comidas para elas e suas crias”, alerta Heezik. Na Nova Zelândia, onde a extinção de nove espécies é atribuída aos bichanos, existe ainda um movimento criado pela Gareth Morgan Foundation contra as mascotes. A organização social chega a sugerir que os gatos sejam submetidos à eutanásia para proteger as espécies nativas. “Imagine uma Nova Zelândia com vida nativa, pinguins na praia e quivis (espécie de ave) passeando no seu jardim”, prega o site da campanha.

Proteção
Os proprietários de gatos com o bom senso de não matá-los para preservar a vida selvagem precisam aprender a lidar com o instinto predatório desses animais. “Todos os que tiverem oportunidade vão caçar, mesmo sendo gatos de almofada. Se ele passar fome, vai caçar para sobreviver. Se não, é um esporte. É como um troféu. Se ele pegou, é porque mereceu”, aponta Christine Souza Martins, responsável pela medicina de felinos do Hospital Veterinário da Universidade de Brasília (UnB). Algumas presas acabam comidas, enquanto outras são deixadas semimortas, como uma brincadeira. Umas, ainda, são entregues como presentes para os donos.

Uma medida possível para evitar a matança é fechar o acesso para a rua, principalmente no início da noite, que é o horário de pico de energia desses animais. Mesmo assim, muitas vezes não há como impedir que os bichos mais ativos encontrem um escape para o quintal ou satisfaçam sua vontade com insetos ou ratos dentro de casa, o que pode resultar em doenças ou na contração de parasitas. Outro problema é que os animais que têm os instintos frustrados podem terminar obesos ou estressados.

Como não há forma de impedir a caça, a principal forma apontada por especialistas para impedir um prejuízo irreparável na natureza é investir no controle populacional. Gatos, principalmente os que vivem na rua, tendem a se reproduzir sem controle se não forem castrados. Isso resulta numa população de felinos sem dono que pode chegar a 80 milhões somente nos Estados Unidos.

Sem cuidados apropriados, esses animais vão se manter com seus próprios esforços. “Eles preferem caçar para viver do que mexer no lixo, como cachorros. É muito mais saudável e fresco”, explica Christine Martins. Os números da matança dos gatos, de acordo com a especialista, não devem ser interpretados como um atestado de culpa dos animais. O problema estaria no desequilíbrio: para a veterinária, a posse consciente de animais e a castração seriam o suficiente para diminuir o número de vítimas dos felinos.

Sino no pescoço

Um guia produzido pelo Fundo Britânico de Ornitologistas recomenda que os donos de gatos coloquem sinos nos pescoços dos animais para sabotar a caça dos bichanos. O barulho do acessório, garantem os profissionais, pode frustrar um ataque surpresa e salvar uma considerável quantidade de animais. Para garantir a eficiência da estratégia, é necessário que o guizo seja novo e funcional. A coleira equipada pode ainda ajudar os donos a saber em que parte da casa as furtivas mascotes estão.
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