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Ciência

Sábios primatas

Vários estudos mostram que macacos são capazes de ações antes consideradas exclusivas do homem, como produzir ferramentas e ser cordial com amigos. Nova pesquisa japonesa revela que chimpanzés aprendem a usar uma tecnologia ao observar o comportamento alheio

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postado em 03/02/2013 12:35

Paloma Oliveto

Paloma Oliveto

Publicação: 03/02/2013 04:00

 

No início, eles usavam pedras, ossos e gravetos para obter alimentos. Milhares de anos se passaram e eles continuaram usando pedras, ossos e gravetos. Afinal, eram apenas macacos. Enquanto isso, outro primata adquiria outras habilidades, fabricava instrumentos sofisticados, desenvolvia a linguagem, fundava uma civilização. Convencido de sua inteligência e supremacia, acreditou ser a única criatura capaz de inventar e aprimorar o conhecimento adquirido. Até que os seus primos mais próximos na cadeia evolutiva começaram a mostrar que o Homo sapiens não é tão extraordinário quanto imagina. Diversas descobertas científicas recentes estão provando que características tidas como exclusivamente humanas também são encontradas nos macacos, com quem o homem compartilha o ancestral comum.

Nesta semana, a revista PLoS One descreveu um experimento das universidades de Kyoto (Japão) e Kent (Inglaterra), no qual foi constatado que os chimpanzés aprendem a aperfeiçoar uma tecnologia a partir da imitação. Até agora, acreditava-se que apenas o homem era capaz de melhorar ao observar o grupo. Mas nove animais que vivem no Instituto de Pesquisas de Primatas da cidade japonesa mostraram que isso não é verdade. Eles tiveram acesso a um recipiente de plástico, contendo suco. A única forma de alcançar o líquido era usar o canudinho, que passava por um orifício de 1cm, no alto da caixa. Cinco optaram pela maneira mais demorada: molhavam o canudo, o puxavam de volta e lambiam a ponta. O resultado é que, durante 10 minutos, só conseguiram tomar 20ml de suco. Entretanto, quatro chimpanzés do bando resolveram sugar o líquido, mantendo o canudo dentro do recipiente, como fazem os humanos. Em apenas 30 segundos, tomaram os 50ml disponíveis.

O experimento foi repetido por cinco dias consecutivos. Pal, Ayumu, Pan, Puchi e Mari continuaram tomando suco pelo método mais lento. Contudo, quando os cientistas os colocaram perto dos macacos mais “espertos”, eles notaram que podiam se aperfeiçoar. De olho na demonstração de Pendesa, fêmea de 30 anos que usou a sucção desde o primeiro momento, eles voltaram para seus recintos e copiaram a técnica. “O interessante é que Pendesa não tem parentesco nenhum com esses chimpanzés. Eles a imitaram não por confiança, respeito ou identificação. O que aconteceu foi que eles notaram que essa era a forma mais rápida e eficiente de tomar o suco”, observa Shinya Yamamoto, pesquisador de inteligência social animal da Universidade de Kyoto e principal autor do estudo.

Aprender a sugar um canudinho pode até não parecer um feito muito grande — afinal, o Homo sapiens descobriu como manipular o fogo e inventou a roda. Contudo, Yamamoto, que já publicou mais de 20 trabalhos sobre primatas em renomadas revistas científicas, afirma que essa é uma importante constatação. “Os macacos estavam insatisfeitos com a tecnologia que adotaram. Viram outros seres da espécie executando a mesma tarefa, mas de maneira mais eficiente. Então, trocaram de técnica. O que é isso? Acumular conhecimento. E o que é acumular conhecimento? É cultura”, diz. “Incrementar uma tecnologia não é um traço exclusivo do homem. Os resultados sugerem que, sob condições favoráveis, a cultura da forma como conhecemos pode evoluir em primatas não humanos”, observou, em nota, a coautora da pesquisa, Tatyana Humule, pesquisadora do Instituto de Conservação e Ecologia Durrell de Kent.

Necessidade
Essa é uma teoria defendida há muito tempo pelo cientista japonês Atsushi Iriki, diretor do Laboratório de Desenvolvimento Cognitivo Simbólico do Instituto do Cérebro Riken. Na década de 1970, ele começou a se perguntar o que diferenciava o ser humano dos outros animais. A dúvida o levou à carreira de cientista, com foco em estudos sobre a cognição. Desafiando a opinião dos colegas, para quem o macaco-japonês (Macaca fuscata) não seria capaz de usar ferramentas, Iriki resolveu ensiná-los. O que o inspirou foi a observação do comportamento desses animais, que circulam livremente em um hotel de Okinawa, onde o cientista passou férias certa vez.

Durante quase um ano, Iriki foi persistente, guiado pela intuição. No fim, estava certo. Todos os dias, ele oferecia frutas para os macacos, que ficavam interessados, mas não conseguiam alcançar o alimento, estrategicamente posicionado em um local de difícil acesso. Além da comida, o cientista espalhou ancinhos na área. Pouco a pouco, os animais perceberam que, se usassem a ferramenta, conseguiriam pegar as frutas. “Na vida selvagem, não se tem notícia do uso de ferramentas pelos macacos-japoneses. O que nossa pesquisa mostrou, porém, é que eles são capazes de fazer isso. No hábitat natural, eles podem não precisar desses objetos. Então, para que aprender a manipulá-los? Isso não quer dizer, contudo, que os macacos não tenham inteligência suficiente para fazê-lo”, comenta.

Um dos principais nomes da primatologia da atualidade, Jill Pruetz, pesquisadora da Universidade Estadual de Iwoa, concorda que tudo é uma questão de oportunidade. No Senegal, ela passou muitos anos estudando as florestas de Fongoli, hábitat de chimpanzés que fabricam “espadas” com galhos de árvore para caçar mamíferos. “Normalmente, os que fazem as ferramentas são os machos que estão em uma situação de competição por alimentos. Nos grupos onde não é preciso lutar pela presa, os chimpanzés não fabricam as espadas”, conta. Pruetz ficou encantada ao observar que eles não só constróem as ferramentas, mas compartilham o conhecimento com os demais.
 
Boas maneiras
O estudo das relações sociais entre macacos tem mostrado que, nesse campo, os animais também exibem características anteriormente atribuídas apenas a humanos. Recentemente, uma pesquisa da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara constatou que chimpanzés trocam favores. Assim como as pessoas retribuem cortesias, como mandar um pedaço de bolo para o vizinho que costuma emprestar açúcar ou farinha, os macacos não deixam uma gentileza sem pagamento. Adrian Jaeggi, principal autor do estudo, lembra que chimpanzés e bonobos andam em grupos e têm uma longa expectativa de vida, fazendo com que reconheçam cada um de seus companheiros e criem laços com eles. Em uma experiência no Centro Sage para o Estudo da Mente, Jaeggi constatou que os primatas também se recordam de quem os ajudou no passado e estão dispostos a retribuir quando oportuno.

Os animais foram observados durante semanas. Os pesquisadores se concentraram principalmente naqueles que costumavam fazer cafuné nos outros — essa é uma atividade extremamente apreciada pelos macacos, não só por se livrarem de insetos que agarram na pele, mas porque ajuda a relaxar, pois estimula a liberação de endorfinas. Jaeggi percebeu que os favorecidos com o carinho costumavam dividir a comida com os benfeitores. “Não era algo imediato, como receber um cafuné e, em seguida, compartilhar o alimento. No nosso estudo, vimos que é uma troca de longa duração. Os animais criam um vínculo com aqueles que os ajudam; eles se lembram disso e, quando têm a oportunidade, retribuem o favor”, diz.

A interação quase humana dos chimpanzés também foi verificada em um estudo publicado na edição do mês passado do jornal Scientific Reports. Pesquisadores do Instituto do Cérebro Riken, o mesmo onde trabalha Atsushi Iriki, descobriram que os primatas modificam o movimento do corpo para ficar em sincronia com os outros. De acordo com o artigo, da mesma forma que as pessoas aumentam ou diminuem o passo para acompanhar quem está ao lado ou tentam bater palmas no mesmo ritmo que o restante da plateia, os macacos buscam a harmonia com os pares.

Na pesquisa, os animais foram treinados para apertar um botão no ritmo que quisessem. A experiência era repetida com os pesquisadores colocando um chimpanzé na frente do outro. Os cientistas notaram que, espontaneamente, os animais tentavam apertar o botão de forma simultânea, adaptando o ritmo para imitar o colega de tarefa. Mesmo quando o segundo macaco aparece apenas em um monitor de TV, o chimpanzé procura sincronizar o movimento com o dele. “Esse pode ser um comportamento de adaptação vital para a sobrevivência na selva. Mas a razão pela qual os macacos fazem isso ainda não está clara”, destaca o artigo.
Sinais de inteligência

Veja outros animais que exibem comportamentos e habilidades semelhantes aos dos homens:

Elefante
» Em 2006, a Sociedade de Conservação da Vida Selvagem, de Nova York, apresentou um estudo com a primeira evidência de que, assim como homens, grandes primatas e golfinhos, os elefantes se reconhecem ao olhar um espelho. Consequentemente, esses animais têm noção da própria existência, sabendo se distinguir dos demais. “Como resultado desse estudo, os elefantes se juntaram a uma elite cognitiva de animais com vida social complexa e alto nível de inteligência”, disse o estudo, publicado na Pnas.

Golfinho
» Um estudo da Universidade de Emory, nos Estados Unidos, descobriu que o cérebro dos golfinhos é muito parecido com o dos humanos. Embora os autores reconheçam que é difícil comparar a inteligência entre diferentes espécies, ainda assim é possível identificar semelhanças nas atitudes dos golfinhos e do Homo sapiens. A cientista Lori Marino fez ressonâncias magnéticas do cérebro dos animais aquáticos e descobriu que a estrutura do órgão predispõe o afloramento de emoções complexas.

Ovelha
» Que as ovelhas reconhecem a voz do pastor, todo mundo sabe. Mas uma equipe de pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego descobriu que elas conseguem distinguir indivíduos da espécie e recordar de suas faces. As ovelhas podem até mesmo reconhecer o rosto de pessoas. O estudo, publicado na revista Nature, sustenta que esse animal utiliza redes neurais semelhantes às processadas pelos humanos para reconhecer e se lembrar dos outros. “Isso levanta a questão: pode ser que elas até pensem”, afirmou um dos autores, Keith Kendrick, à rede ABC.

Corvo
» Corvos podem ser muito agressivos com outros animais da espécie quando querem roubar comida. Mas usam uma estratégia bem mais delicada quando se trata de afanar o almoço de algum parente. Uma pesquisa da Universidade de Washington descobriu que esses pássaros conseguem diferenciar corvos conhecidos daqueles que nunca viram na vida. Com os familiares, parentes ou outros membros do grupo, a abordagem é disfarçada. Eles esperam que o “colega” saia para, então, roubar comida. Já no caso de desconhecidos, os corvos atacam sem dó. Outro estudo, publicado na revista Proceedings of the Royal Society B mostrou que esses pássaros também são espertos e reconhecem, de longe, uma ameaça. Sociáveis, eles contam aos outros que o perigo está próximo.

Polvo
» Cientistas do Museu Victoria de Melbourne, na Austrália, descobriram que os polvos são capazes de moldar ferramentas, uma característica até então atribuída apenas a vertebrados. No mar da Indonésia, os pesquisadores ficaram assombrados ao descobrir um polvo que usou cascas de coco como abrigo. À rede BBC, um dos cientistas, Mark Norman, afirmou que a forma como o animal manejava o objeto era impressionante: “Eles sondam o terreno com os tentáculos,
afastam a areia e levantam o coco com uma rotação. Depois de colocar o lado aberto da casca para cima, eles agarram a peça e vão embora. Quando são duas metades, o animal consegue colocar uma dentro da outra”.

 

 

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