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Ciência

Há vagas para o rei

Especialistas confirmam que restos mortais achados sob estacionamento da cidade de Leicester são de Ricardo III, monarca inglês morto no fim do século 15

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postado em 06/02/2013 08:00 / atualizado em 06/02/2013 12:38

Paloma Oliveto

O esqueleto encontrado: grave problema na coluna, como descrevem documentos históricos  (University of Leicester/Reuters) 
O esqueleto encontrado: grave problema na coluna, como descrevem documentos históricos

O crânio de Ricardo III ao lado de um retrato dele: múltiplos ferimentos (Darren Staples/Reuters) 
O crânio de Ricardo III ao lado de um retrato dele: múltiplos ferimentos

Mais de 500 anos depois de sua morte, Ricardo III receberá funerais dignos de um rei. Cientistas da Universidade de Leicester, na Inglaterra, anunciaram ontem que o esqueleto escavado sob o estacionamento de um conjunto de prédios públicos a 160km de Londres é, de fato, do último representante da Casa de York. Com a descoberta, os arqueólogos e historiadores que há quatro anos procuravam pela tumba perdida pretendem redimir uma das figuras mais polêmicas e, possivelmente, mais injustiçadas da monarquia britânica.

O homem que, de acordo com lendas perpetuadas pelos Tudor, era tão cruel e odiado que teve o corpo jogado no Rio Soar, na realidade não foi perturbado em seu túmulo. Depois de morrer na derradeira batalha da Guerra das Duas Rosas, a última na qual um rei inglês lutou pessoalmente, em 1485, Ricardo III foi enterrado sob o coro do mosteiro de Greyfriars (“frades cinzas”, uma referência à cor do hábito usado por esses franciscanos). O corpo permaneceu na igreja, fechada depois que Henrique VIII rompeu com o catolicismo. Com o passar dos séculos, o templo se transformou em ruínas, sobre as quais construiu-se, séculos depois, o estacionamento da sede do Conselho Municipal de Leicester.

Na década de 1950, quando o local passava por uma reforma, um arqueólogo levantou a suspeita de que o monastério jazia sob o terreno, pois foram encontrados elementos típicos de um templo da época, como pedaços de mosaicos e colunas. O historiador inglês John Rous, contemporâneo de Ricardo III, havia informado que o rei fora enterrado no mosteiro de Greyfriars de Leicester e, pela descrição de onde ficava essa igreja, o arqueólogo imaginou ter descoberto o lugar do último repouso do monarca. Somente meio século depois, contudo, a suspeita foi confirmada.

Buscas
Não fosse a insistência da roteirista e ricardiana (membro da Sociedade Ricardo III) escocesa Philippa Langley, 50 anos, carros continuariam sendo estacionados em cima do esqueleto do rei. Em 2009, a ardorosa defensora de Ricardo III trabalhava em um roteiro sobre a verdadeira face do monarca quando resolveu visitar o local. Em entrevista ao site Radiotimes, Langley disse que sentiu “um arrepio” ao andar pelo local. “Eu sei que isso parece louco, mas eu tive uma forte sensação de estar sobre o túmulo de Ricardo. Em uma segunda visita, descobri um pequeno ‘R’ pintado naquele mesmo lugar. Claro que o ‘R’ era para ‘reservado’, não para ‘Ricardo’, mas, daquele momento em diante, eu embarquei na missão”, revelou.

Depois de conseguir autorização do Conselho Municipal de Leicester, Langley convenceu o Departamento de Arqueologia da universidade a se dedicar às buscas pelo túmulo real. Em agosto do ano passado, as escavações começaram, sob uma forte expectativa. No início do mês seguinte, os cientistas anunciaram a descoberta de dois esqueletos, sendo um deles do sexo masculino. Diversos testes, incluindo análise de DNA, foram realizados, e combinados a registros históricos.

Todas as evidências sinalizavam que aquele esqueleto pertencia a Ricardo III. Mas, prudentes, os pesquisadores de Leicester esperaram a conclusão de todos os exames para, finalmente, dar a notícia. “Sob o ponto de vista acadêmico, temos o prazer de anunciar que há poucas dúvidas de que o indivíduo exumado no (mosteiro) Greyfriers em 12 de setembro é, de fato, de Ricardo III, o último rei Plantageneta (dinastia à qual pertencia) da Inglaterra”, disse ontem, em coletiva de imprensa, Richard Buckley, arqueólogo que liderou os trabalhos. O prefeito de Leicester, sir Peter Soulsby, afirmou que os restos mortais serão enterrados com pompas monárquicas da catedral da cidade, em 2014. Emocionado, declarou que a descoberta “iniciará um novo capítulo na história de Leicester”. A Sociedade Ricardo III anunciou a doação de 10 mil libras (mais de R$ 30 mil) para a confeção da tumba real.

“Esse foi um trabalho extraordinário, do qual tenho muito orgulho de ter participado. Uma busca incansável, apaixonada e fortemente amparada por evidências científicas”, disse Buckley. Graças ao aparato tecnológico, os pesquisadores descobriram desde a causa da morte ao tipo de alimento consumido pelo indivíduo exumado (veja ao lado). Todas as provas conferem com os registros históricos, incluindo o problema de coluna de Ricardo III, que não era corcunda, como diziam seus inimigos, mas sofria de escoliose. A idade do rei, 32 anos, também está dentro da faixa estimada pela datação de radiocarbono, assim como a estrutura física do monarca, descrito por um raro simpatizante da época como frágil e gracioso.

Lesões

Jo Appleby, da Faculdade de Arqueologia e História Antiga da Universidade de Leicester, conduziu um extenso exame no esqueleto. Ela contou que muitas das lesões nos ossos foram provocadas quando o rei já estava morto, deitado no campo de batalha. “No quadril, nas costas e na cabeça, há marcas de lâminas que foram inseridas depois da morte. Apesar de o rosto ter sido mantido intacto, provavelmente para que todos vissem que Ricardo III estava morto, os inimigos machucaram bastante o crânio. A prática de humilhar e profanar o corpo é descrita na história”, disse.

Segundo Sarah Knight, professora da Faculdade de Inglês da Universidade de Leicester, a imagem negativa de Ricardo III foi construída pelos historiadores da era Tudor, que lutaram contra os York por três décadas, e assumiram o poder com a morte do monarca, na batalha Bosworth Field. Eles acusavam Ricardo de ter conspirado contra a própria família para assumir o trono, caluniando o irmão e mandando matar os dois sobrinhos para ser coroado. De fato, os pequenos príncipes, que moravam em um apartamento da Torre de Londres, desapareceram e nunca mais foram vistos.

No século 17, durante uma reforma, os esqueletos de duas crianças foram descobertos embaixo da escadaria da capela. Contudo, não há qualquer prova de que sejam dos príncipes nem de que Ricardo III esteja envolvido na morte dos sobrinhos. Esse episódio, contudo, foi bastante explorado pelos Tudor para que o rei da casa de York fosse sempre lembrado como um tirano cruel e impiedoso. Com a identificação da tumba de Ricardo III, os pesquisadores esperam poder reescrever esse capítulo da história.
 
Para saber mai
Vilão para Shakespeare

Um dos escritores que mais ajudaram a perpetuar a imagem de um soberano deformado e cruel foi o dramaturgo William Shakespeare (1564-1616), que viveu durante o último reinado da era Tudor, de Elizabeth I. A peça Ricardo III é uma das mais famosas do bardo inglês — a célebre frase “Meu reino por um cavalo!” é retirada de uma das cenas. Na obra, o monarca faz todos os tipos de intrigas e vilanias para assumir o trono e depois é castigado pelos fantasmas de suas vítimas e, pior, pela pesada consciência.

“Deformado, inacabado, enviado antes do meu tempo/ Pra este mundo que respira ainda malfeito pela metade/E assim tão lamentável e horrendo/ Que até os cães me ladram quando manco ao passar por eles”, diz o personagem, na abertura da peça.

Ao longo da tragédia, as referências à suposta deformidade de Ricardo III são repetidas, com adjetivos diversos. Na última cena, logo após a morte do monarca, o conde de Richmond, que se tornaria o rei Henrique VII, pede a Deus que livre a Inglaterra de pessoas como o seu antecessor.

Adaptada para o cinema, a peça de Shakespeare foi estrelada por sir Laurence Olivier em 1955. O ator se esforçou para mostrar a anomalia física de Ricardo III, deixando o ombro esquerdo mais alto do que o direito e imortalizando a imagem do monarca no imaginário popular. (PO)

 
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