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Ciência

Minicidades flutuantes

Fundamentais para o Programa Antártico Brasileiro, os navios Ary Rongel e Almirante Maximiano garantem o transporte de pesquisadores e militares até o continente gelado e abrigam laboratórios, cozinhas e até academia de ginástica

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postado em 19/02/2013 08:00 / atualizado em 18/02/2013 11:28

Renato Alves


O Almirante Maximiano, que tem capacidade para 113 pessoas: o xodó da Marinha brasileira tem 93m de comprimento e abriga cinco laboratórios de pesquisa (Renato Alves/CB/D.A Press) 
O Almirante Maximiano, que tem capacidade para 113 pessoas: o xodó da Marinha brasileira tem 93m de comprimento e abriga cinco laboratórios de pesquisa

Sala de controle do Ary Rongel: radar capaz de localizar até 10 icebergs ao mesmo tempo (Renato Alves/CB/D.A Press) 
Sala de controle do Ary Rongel: radar capaz de localizar até 10 icebergs ao mesmo tempo

Newton Homem, comandante do %u201CTio Max%u201D: vencendo ondas de até 10m (Renato Alves/CB/D.A Press) 
Newton Homem, comandante do Tio Max: vencendo ondas de até 10m

Transporte para a Ilha Rei George: 500m sobre águas congelantes (Renato Alves/CB/D.A Press) 
Transporte para a Ilha Rei George: 500m sobre águas congelantes



Antártida — Dois navios equipados com a mais moderna tecnologia de navegação garantem a locomoção de cientistas brasileiros e a continuidade do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), mesmo após o incêndio que consumiu 70% das instalações da Estação Comandante Ferraz, há um ano. A manutenção do Ary Rongel e do Almirante Maximiano no Polo Sul ajuda os pesquisadores a superarem nevascas, vendavais e icebergs.

Incorporado à frota em 2009, o navio polar Almirante Maximiano é um dos xodós da Marinha brasileira, que investiu R$ 100 milhões nele. Conhecida como Tio Max entre os marinheiros tupiniquins, a embarcação partiu no último dia 9 do Porto de Punta Arenas, no extremo sul do Chile, em direção à Antártida, levando 25 cientistas, equipamentos de pesquisa e suprimentos.

Tendo começado a viajar em 6 de outubro de 2012 pelo mais selvagem continente, o Maximiano está em sua sexta missão na Antártida, que deve acabar em abril. Com mais de 93m de comprimento, 13m de largura e 5,5 mil toneladas, ele transporta até 113 pessoas. Em seu interior, há uma espécie de minicidade, com cinco laboratórios de pesquisa, cozinhas, salas de reunião e de jogos, camarotes, bares e até academia de ginástica.

Os itens mais sofisticados e caros são os usados em coletas de material para estudo, como os que medem o efeito das correntes antárticas no clima brasileiro ou avaliam de que forma o degelo causado pela elevação da temperatura global afeta a economia e a vida das pessoas. Esses aparelhos custaram R$ 22,3 milhões ao governo brasileiro. Um deles é um guincho geológico, que chega a 10km de profundidade e colhe amostras do solo antártico.

O Tio Max conta ainda com um heliponto e dois helicópteros, com a missão de transportar suprimentos para os cientistas que ficam acampados no interior do continente. Eles também deixam e buscam os pesquisadores nos pontos mais extremos para os quais não há acesso por terra nem pelo mar.

O navio, que, apesar de seu tamanho gigantesco, pode ser operado com apenas um joystick, abriga ainda equipamentos para estudos geológicos, sobre a biodiversidade marinha e a respeito das mudanças climáticas. De acordo com o capitão-de-mar-e-guerra Newton Calvoso Pinto Homem, comandante do Almirante Maximiano, a embarcação é preparada para enfrentar tempestades intensas e ondas que podem ultrapassar os 10m de altura.

Turbinada

Comprado da Noruega em março de 1994, por US$ 16 milhões, o Ary Rongel passou mais de um ano nos estaleiros da Marinha do Brasil, em Angra dos Reis (RJ), para se transformar em um navio oceanográfico. Recebeu o que havia de mais avançado em tecnologia de navegação e de comunicação na época, tornando-se apto a enfrentar as águas inóspitas da Antártida, onde há pouca margem para erros e quase nenhuma chance de socorro.

O Ary Rongel substituiu o pioneiro e obsoleto Barão de Teffé. Apesar de ter levado os primeiros pesquisadores brasileiros ao continente, a partir de 1982, o Teffé não havia sido construído para navegar no gelo. Com 40 anos de uso, não conseguia vencer ventos acima de 50km/h — na Antártida, as tempestades chegam a 200km/h. Com ele, boa parte do continente ficava fora do alcance dos cientistas brasileiros. Por isso, o governo decidiu comprar o Ary Rongel, mais forte, rápido e moderno.

Entre outros itens, comparado com o Teffé, o Rongel tem de melhor o casco recoberto com aço de 2cm de espessura; e os thrusters, propulsores que giram hélices nas laterais do casco e permitem o navio mover-se de lado e fazer manobras onde há pouco espaço, como no meio de milhares de icebergs. Outro recurso essencial é um radar que localiza até 10 icebergs ao mesmo tempo, e acompanha o seu movimento posteriormente.

Construído em 1981, o Ary tem uma vida útil estimada até 2016, mas reformas e restaurações podem prorrogar o prazo. Já o Maximiano tem, por base, um navio americano construído em 1974 para atuar na exploração de petróleo, que posteriormente foi reformado na Noruega em 1988, antes de ser adquirido pelo Brasil. Em 2008, ele foi modificado na Alemanha, sob as especificações da Marinha do Brasil, para atuar na Antártida.

Ninguém na força, contudo, fala em aposentadoria das embarcações, que ainda têm forças de sobra para enfrentar condições extremas, como as impostas pela Passagem de Drake, trecho de 800km de mar aberto inevitável na viagem entre a América do Sul e a Península Antártica. O local é conhecido como Inferno no Mar entre os marinheiros, devido às grandes ondas, que chegam a 10m de altura.


Bactérias em lago
Neste mês, pela primeira vez, cientistas encontraram bactérias vivendo em um lago subterrâneo na Antártida. O mérito é de pesquisadores da Universidade Montana State, dos Estados Unidos. Embaixo de 800m de gelo, no Lago Whillans, o grupo recolheu água e amostras de sedimentos que mostravam sinais de vida. Os pesquisadores viram as células no microscópio e fizeram testes químicos que mostraram que elas estavam vivas e metabolizando energia. A descoberta pode trazer avanços para o conhecimento sobre a vida em outros planetas ou luas, pois indica que a vida é possível mesmo sob condições que, aparentemente, não poderiam abrigá-la.



Locomoção para a ilha em botes


“Sete almas e mais duas, partindo.” As almas são os jornalistas a bordo do bote inflável. As outras duas, militares da Marinha. O aviso, dado por rádio pelo capitão-tenente Eduardo Sturtz, 35 anos, é regra a cada início de travessia na Baía do Almirantado, onde os navios brasileiros Ary Rongel e Almirante Maximiano ficam parados dando suporte aos militares e pesquisadores na Antártida. A cerca de 500m deles, fica a Ilha de George, onde está a Estação Comandante Ferraz, incendiada há um ano e agora em reconstrução.

Os pilotos de bote são mergulhadores de águas frias. No comando das pequenas embarcações, trabalham com roupas para lá de especiais, apelidadas de sapões, que dão maior sobrevida em possível queda na água gelada do Mar Antártico. Nas cores laranja e preta, o uniforme lembra um astronauta e permite a permanência no Mar Antártico por até 15 minutos. No Ary Rongel, há quatro mergulhadores. Além do transporte de pessoal e de material, eles fazem pequenos reparos nas embarcações.

Cientistas e militares também se locomovem pela Península Keller, onde fica a Ilha George, por meio de motos para a neve, quadriciclos e a pé. Toda a logística científica ou de lazer é organizada por meio de trilhas predefinidas para ordenar o trânsito interno e evitar danos significativos ao ambiente. No inverno, porém, a maioria das trilhas fica imperceptível em função da cobertura de gelo e neve. Por isso, os cabos, fios e dutos são sinalizados ou instalados em percurso aéreo. (RA)
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