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Teccnologia

Adeus, tomadas

A eletricidade wireless começa a se disseminar. Especialistas garantem que, em pouco tempo, aparelhos como celulares, tablets e eletrodomésticos não precisarão de fios para funcionarem ou serem recarregados

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postado em 19/02/2013 08:00 / atualizado em 22/02/2013 11:12

Roberta Machado

Nós dependemos deles — e eles, da tomada. De nada adianta levar no bolso um aparelho equipado com internet, telefonia e uma série de aplicativos quando a bateria acaba. O cabo de energia é o cordão umbilical que salva o dia, dando aqueles pontos a mais de carga para serem gastos em chamadas, em jogos e no Facebook. O problema é quando a força chega ao fim sem um plugue compatível por perto. E onde conectar os gadgets quando o cabo fica em casa? Com a eletricidade sem fios, em lugar nenhum. Bastaria entrar num café ou num restaurante e aguardar enquanto o smartphone é alimentado em cima da mesa.

Esse cenário que leva a comodidade moderna a um novo nível já é realidade. Depois do lançamento de telefones equipados com tecnologia de eletricidade wireless, a recarga desconectada passou a ser oferecida por alguns estabelecimentos em países como o Japão. São mais de 300 pontos no arquipélago, que devem chegar a 10 mil até o mês que vem. No Brasil, modelos como o Nokia 920 e o 820 vêm com o carregador sem fios para ser usado em casa: uma espécie de almofada conectada à rede elétrica serve de descanso e fonte de energia para o aparelho. Quando as costas do telefone e a superfície do acessório, chamado fatboy, fazem contato, a recarga começa automaticamente.

A inovação ganhou diversos nomes, que variam de acordo com a tecnologia. As almofadas de carga, usadas em smartphones e em painéis de carro, foram batizadas como Qi (pronuncia-se qui). A denominação faz alusão ao chi, energia inerente a todos os seres descrita por algumas religiões e filosofias orientais. Mas, ao contrário do que os fabricantes fazem parecer, o tal travesseiro não tem nada de mágico. Trata-se de nada mais que um equipamento de acoplamento indutivo, que passa a eletricidade em forma de campo magnético direto da bobina do carregador para outra, no aparelho móvel. Como a tecnologia tem um alcance praticamente nulo, aparelho e fonte de energia precisam manter contato o tempo todo.

O processo não é novidade e inspira-se nas experiências realizadas por Nikola Tesla há mais de um século. O cientista rival de Thomas Edson provou que a eletricidade pode se propagar pelo ar (veja infografia), mas o experimento não foi considerado um sucesso prático. “O ar é um péssimo condutor, mas é possível transformar a energia elétrica em magnética. Mesmo assim, a condução ainda é ruim, por isso você conduz a energia por distâncias muito pequenas”, esclarece Rafael Shayani, professor de engenharia elétrica da Universidade de Brasília (UnB).

Sem os fios de cobre para conduzir os elétrons na direção correta, a energia emitida pelos aparelhos wireless acaba se dissipando pelo ambiente. “Quando o campo magnético é emitido, ele segue em todas as direções, não escolhe para onde vai. Ele pode energizar tanto o celular quanto materiais condutores, como um anel ou uma pulseira de metal. Precisa ser um campo muito forte para atravessar o ar.” A eficiência, que nos cabos chega a 99%, cai para até 10% nas almofadas de contato. Isso significa que, ao poupar os segundos necessários para plugar o aparelho, o usuário paga o preço diretamente na conta de luz.

Os representantes da tecnologia, no entanto, asseguram que a energia sem fios não vai representar mais custos para o consumidor. “A eficiência da carga Qi é parecida com a tradicional, e leva quase o mesmo tempo. Os carregadores Qi também são equipados com opções de economia de energia que desligam o carregador assim que o dispositivo está totalmente carregado”, afirma Menno Treffers, presidente do Wireless Power Consortium. “Muitos carregadores podem sustentar vários dispositivos de uma só vez. Então, trocar vários carregadores com um Qi na verdade usaria menos energia”, compara.

Mesmo com as limitações que colocam em xeque o conceito de gadgets completamente desconectados e levantam dúvidas sobre o nível de consumo, a bateria Qi foi incorporada em mais de uma centena de produtos, inclusive em adaptadores para iPhone e para a série Galaxy. Neste ano, novos celulares, tablets, monitores, veículos e até mesmo peças de mobília com a energia induzida devem chegar ao mercado, já que o consórcio que coordena a tecnologia também conta com nomes como LG, Motorola, Toshiba e Samsung. A previsão do grupo é que, até 2015, sejam produzidas 100 mil unidades com o selo Qi, e que os pontos de recarga em restaurantes e hotéis se tornem tão comuns quanto as áreas de wi-fi.

Salas do futuro

Antes de a Nokia se liberar dos cabos elétricos, um grupo de pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) já dava passos mais largos em direção à energia sem fios. Há cerca de 15 anos, os cientistas deram início a experimentos que culminaram, em 2007, na tentativa bem-sucedida de acender uma lâmpada de 60 watts separada da fonte de elétrica por 2m de puro ar.

A técnica, chamada WiTricity — mistura das palavras wireless (sem fio) e electricity (elitricidade) —, também usa bobinas para transformar e transmitir a força elétrica, mas o uso de uma sintonia específica entre os equipamentos permite uma distância de alguns metros entre a tomada e o aparelho eletrônico. A tecnologia promete causar menos desperdício que outras formas de transmissão de elétrons sem cabos — dependendo da distância entre as fontes, a eficiência pode chegar a 90% — e ainda permite o trânsito da energia através de paredes, o que significa um cômodo inteiro energizado por uma só tomada, sem fios para atrapalhar.

“Nós demonstramos ‘salas do futuro’, que usam uma única fonte para alimentar um cômodo inteiro por meio das bobinas ‘repeater’ instaladas no carpete que ressoam com a fonte e ajudam a energia a ‘pular’ para um dispositivo, como uma luminária ou um laptop, a muitos metros ”, descreve Eric Giler, presidente da WiTricity. De acordo com o representante da tecnologia, o magnetismo que transita pelo ar para transportar energia é seguro para pessoas e animais, e funciona em quase qualquer superfície. “As pessoas nunca mais terão de checar as baterias dos celulares de novo, pois eles vão se carregar conforme se movimentem durante o dia”, ilustra Giler.

A WiTricity ainda está em fase de desenvolvimento, mas dispositivos com o wireless magnético devem chegar ao mercado a partir deste ano. A companhia ainda fechou acordos com companhias de automóveis, como a Toyota e a Mitsubishi, que devem divulgar modelos equipados com a tecnologia a partir de 2015. Os detalhes dos modelos ainda não foram revelados, mas a companhia adianta que seria possível criar carros elétricos que se carregassem diretamente no estacionamento, sem tomadas ou cabos.


"As pessoas nunca mais terão de checar as baterias dos celulares de novo, pois eles vão se carregar conforme se movimentem durante o dia”
Eric Giler, presidente da WiTricity


300
Pontos para carregamento wireless espalhados pelas ruas do Japão. Até o mês que vem, já serão 10 mil

 

 

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