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Ciência

O sexto sentido

Equipe do brasileiro Miguel Nicolelis faz com que ratos percebam a luz infravermelha, algo até então impossível para mamíferos. O estudo pode ajudar no projeto do cientista de fazer tetraplégicos voltarem a andar

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postado em 20/02/2013 08:00 / atualizado em 19/02/2013 11:15

Bruna Sensêve

Máquinas comandadas apenas pelo pensamento já não estão somente em livros e filmes de ficção. Cientistas em inúmeras partes do globo trabalham no desenvolvimento de interfaces cérebro-máquina que parecem saídas das criativas mentes de Stan Lee ou George Lucas. O mais expressivo deles, o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, é, hoje, o que está mais perto de fornecer ao homem a capacidade de controlar totalmente uma máquina por meio de impulsos nervosos transmitidos pelo cérebro. Em um simpósio realizado no Encontro Anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, na sigla em inglês), no último fim de semana, Nicolelis falou do alcance que suas pesquisas podem ter e apresentou seu mais novo estudo, que pode ser considerada a invenção de um sexto sentido para os animais.

A partir de um experimento com ratos adultos, o brasileiro e sua equipe do Centro para Neuroengenharia da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, fizeram com que a luz infravermelha, invisível e imperceptível para mamíferos, pudesse ser “sentida” pelos roedores por meio do tato. Os animais foram equipados com detectores desse tipo de radiação que estavam ligados a eletrodos implantados em seus cérebros, mais precisamente na região do córtex em que são processadas informações relacionadas à sensação de toque nos longos bigodes dos animais. Quando o infravermelho atingia os detectores, os ratos sentiam um formigamento nos pelos do rosto e, à medida que se aproximavam da emissão, a sensação se tornava mais intensa.

Plasticidade
Como encontrar a emissão da luz infravermelha dava aos roedores uma recompensa (uma gota de água para matar a sede), em pouco tempo eles aprenderam a usar a sensação que sentiam no bigode, provocada pelos eletrodos, para achar o local de onde vinha a radiação invisível (veja infografia). Em entrevista ao Correio, Nicolelis explica que o experimento criou uma espécie de sexto sentido a partir da interface cérebro-máquina, que permitiu aos animais “verem” com o tato um tipo de luz até então imperceptível. “Essa prótese foi usada como uma forma de testar a plasticidade do córtex de mamíferos. A pergunta era: quão longe podemos levar essa plasticidade para demonstrar que ele é extremamente plástico? Nós mostramos que o cérebro pode até criar uma nova modalidade sensorial”, diz.

A partir dessa descoberta, as possibilidades são infinitas, afirma o neurocientista, apesar de esse não ser o objetivo principal de quem trabalha com pesquisa básica. “Nem pensamos nas aplicações. Tentamos entender como o cérebro funciona”, justifica. Nicolelis, porém, consegue imaginar aonde os resultados podem levar: “Se houver uma lesão na área visual do cérebro, por exemplo, e essa pessoa ficar cega, podemos usar uma área tátil para recuperar a visão.”

Copa do Mundo
O brasileiro explica que esse estudo — publicado na revista Nature Communications em 12 de fevereiro, em parceria com Rafael Carra (USP) e Eric Thompson (Duke) — foi realizado separadamente de seu principal projeto, o Walk Again (andar de novo, em inglês), mas, sem dúvida, poderá contribuir com ele. O objetivo da iniciativa é produzir um exoesqueleto (espécie de armadura) capaz de sustentar o corpo de uma pessoa paraplégica ou tetraplégica que poderá ser comandado pelos impulsos cerebrais do paciente com deficiência. A intenção é mostrar o invento no jogo inaugural da Copa do Mundo no Brasil. Uma possível forma de unir as duas pesquisas seria o recebimento de um feedback do exoesqueleto transmitido via luz infravermelha.

Nicolelis adianta ainda ao Correio que um segundo artigo será publicado em breve em outra revista do grupo Nature com uma ideia parecida ao experimento apresentado na semana passada, mas “bem mais chocante, no bom sentido”. Sem poder dar detalhes antes da publicação do artigo, o neurocientista diz que a nova pesquisa terá mais jeito de ficção científica e será totalmente inesperada. “Ela vai expandir o conceito para o que estamos chamando de interface cérebro-cérebro.”

Ele ressalta que, felizmente, grande parte do trabalho desse segundo artigo foi realizada em Natal (RN), onde ele comanda o Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS). O pesquisador também desenvolve etapas importantes do Walk Again no instituto brasileiro. No mês que vem, uma nova fase do projeto será iniciada, com mais participações brasileiras (leia Três perguntas para).

Três perguntas para

Miguel Nicolelis, neurocientista


Quando começarão os estudos em humanos do
projeto Walk Again?

Estamos esperando para selecionar os pacientes no Brasil. Não começamos essa fase ainda, mas estamos no processo de iniciar todos os estudos. Daqui a algumas semanas, nosso parceiro clínico brasileiro será anunciado.

Em que estágio o projeto está?
Agora, no fim de março, vamos ter um reunião no Brasil de todo o grupo internacional, já que o projeto anda em paralelo em três lugares: nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil. O cronograma segue exatamente como planejado.

Quais são as repercussões
do trabalho com esse tipo de tecnologia?

Agora, no Congresso dos Estados Unidos, existem deputados que acham que essa deve ser a primeira área de influência e investimento do governo americano. O projeto atingiu um grau de relevância a tal ponto que querem repetir o projeto nos EUA e alguns grupos já me procuraram. É muito curioso uma ideia desenvolvida no Brasil ser copiada na América.


Debate ético

Se conseguir cumprir sua meta de fazer um tetraplégico dar o chute inicial na primeira partida da Copa do Mundo de 2014, Miguel Nicolelis quebrará paradigmas e marcará o início de uma nova era para a ciência. A possibilidade de controlar um grande aparato tecnológico apenas com a força do pensamento deixa a humanidade mais próxima de novas questões éticas.

Durante o simpósio sobre as interfaces cérebro-máquina realizado no fim de semana pela Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), especialistas de diferentes áreas debateram os possíveis impactos desse tipo de tecnologia. Uma das maiores estudiosas do tema, Martha Farah, do Centro para Neurociência e Sociedade da Universidade da Pensilvânia, partiu do conceito de transumanidade, definido como um estágio em que o corpo  se torna tão alterado pela tecnologia que não é mais reconhecido como humano.

Segundo ela, o desafio para quem decide refletir sobre as mudanças é conseguir “antecipar como elas podem mudar nossas vidas e nos modificar”. Embora possa parecer fantasioso imaginar ciborgues mais poderosos que humanos, Farah lembrou que muitas tecnologias de hoje eram inimagináveis e fantasiosas algumas décadas atrás.

Superiores
“Podemos chegar a um ponto em que o cérebro humano seja tão radicalmente alterado que nos levará além do que entendemos hoje por ser humano. Se chegarmos lá, teremos grandes preocupações sociais e éticas para enfrentar”, disse a estudiosa. Ela questionou como seria possível a convivência se algumas pessoas tivessem uma capacidade vastamente maior à das outras. Uma segunda questão: seria certo implantar próteses em pessoas saudáveis para torná-las superiores?

De acordo com Todd Coleman, da Universidade da Califórnia, é fácil observar na comunidade científica que as pesquisas com interfaces cérebro-máquina iniciam sempre com o objetivo de ajudar pessoas, e essa continuará a ser a motivação desse tipo de trabalho. “Para conseguirmos construir melhores próteses e implantes que os existentes, precisamos de biotecnologia que tenha a mesma resolução que a biologia tem por si só”, explicou. Para Nicolelis, esses questionamentos ainda estão somente no imaginário das pessoas e fazem parte de mitos. “É como essa história de que usamos somente 10% da capacidade do nosso cérebro. Acreditem, usamos todos e cada um dos Yodas que temos disponíveis”, argumentou. (BS)
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