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Ciência

Resgate imperial

Pesquisadores exumam os restos mortais de D. Pedro I e de suas duas esposas e, por meio de tomografias, revelam detalhes sobre um dos mais importantes personagens da história do Brasil. O estudo ajudará a reconstituir o rosto do homem símbolo da Independência

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postado em 20/02/2013 10:37 / atualizado em 20/02/2013 10:38

Paloma Oliveto


Cientista analisa o crânio de D. Pedro I: estudo revelará se a aparência do imperador era a mesma retratada em quadros históricos (Valter Diogo Muniz/Divulgação  ) 
Cientista analisa o crânio de D. Pedro I: estudo revelará se a aparência do imperador era a mesma retratada em quadros históricos

 

Os pesquisadores se surpreenderam com o estado do corpo de Dona Amélia: veias e cílios preservados  
Os pesquisadores se surpreenderam com o estado do corpo de Dona Amélia: veias e cílios preservados

O esqueleto do imperador: quatro fraturas  nas costelas  que podem ter contribuído para a morte dele 
O esqueleto do imperador: quatro fraturas nas costelas que podem ter contribuído para a morte dele






Os segredos que a família imperial brasileira levou para a tumba estão sendo descobertos graças a uma abordagem científica que alia história, arqueologia e tecnologia de última geração. Pela primeira vez no país, uma pesquisa baseou-se em evidências físicas de quase dois séculos para investigar detalhes da vida de D. Pedro I e suas duas esposas, D. Amélia e D. Maria Leopoldina. O estudo, uma dissertação de mestrado defendida na Universidade de São Paulo (USP), já revelou detalhes desses importantes personagens da história do país e deve render mais informações no futuro, como a feição exata do herói da Independência.

A exumação dos restos mortais, que estavam enterrados sob o Monumento à Independência, foi revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo. Há oito anos, a historiadora Valdirene do Carmo Ambiel, autora da dissertação, trabalhava na obtenção das autorizações necessárias para colocar um antigo sonho em prática. O aval dos descendentes da família real veio em 2010, e, entre abril e setembro do ano passado, os corpos foram retirados sigilosamente da cripta e estudados na Faculdade de Medicina da USP.

“Quando Valdirene chegou e me falou sobre os seus planos, eu pensei: ‘Será que ela terá condições de convencer todas as instâncias evolvidas?’. Mas ela conseguiu, convenceu todos, montou uma equipe e realizou o projeto. É um ponto muito positivo”, avalia Maurício Vicente Ferreira Júnior, diretor do Museu Imperial. Localizada em Petrópolis, a instituição é a sede do maior acervo desse período da história do país e foi lá que a então estudante de mestrado fez pesquisas para a base de seu projeto. “No meu trabalho, usei muitas informações do Museu Imperial, que continuam sendo a fonte primária dessas pesquisas. A tecnologia só é útil quando há uma fonte primária de época”, esclareceu a historiadora ao Correio.

Se documentos e cartas forneceram os dados de que Ambiel precisava, os sofisticados exames radiológicos realizados na Faculdade de Medicina da USP deram mais vida a informações só conhecidas até agora em livros e iconografias. As tomografias, feitas com os esqueletos dentro dos caixões, permitiram estimar a altura dos ilustres membros da família imperial, examinar fraturas e, no futuro, poderão servir de base para se moldar o rosto de D. Pedro I, como foi feito recentemente com o crânio do rei inglês Ricardo III, além de reconstituir os órgãos relacionados à fala, o que poderá dar pistas sobre o timbre da voz do imperador. Os cientistas também retiraram amostras de DNA para realizar estudos genealógicos.

Feições

Para Ferreira Júnior, é exagerado dizer que essa abordagem multidisciplinar inédita no Brasil vai reescrever a história. Contudo, ele ressalta que a análise dos restos mortais servirá para comprovar informações registradas em livros e documentos, além de esclarecer episódios ainda nebulosos. “A documentação arquivística consiste em descrições, cartas e documentos privados, que fornecem ao pesquisador detalhes do âmbito mais íntimo da pessoa estudada. A tecnologia é uma ferramenta que ajuda o pesquisador a aprofundar as questões documentadas”, diz.

Os resultados dos exames, por exemplo, mostraram que D. Pedro I sofreu quatro fraturas nas costelas, o que é consistente com o que já se sabia sobre o espírito aventureiro do imperador e sua paixão por cavalos — as lesões podem ter sido provocadas por quedas. A equipe da historiadora Valdirene Ambiel vai investigar se esses ferimentos, inclusive, contribuíram para a morte de D. Pedro I, que faleceu jovem, aos 36 anos, em 1834. A causa principal do óbito foi tuberculose, mas os cientistas acreditam que o posicionamento das fraturas, próximas aos pulmões, podem ter acelerado a morte.

Uma das questões comprovadas pelo estudo foi a aparência de D. Amélia (1812-1876), a segunda esposa de D. Pedro I. Quando os restos foram retirados do caixão, os pesquisadores ficaram surpreendidos com o aspecto conservado do corpo, que foi mumificado, um dado até então desconhecido. O diretor do Museu Imperial estava lá no momento da exumação e diz que, além de emocionado, ficou impressionado com a semelhança dos registros iconográficos. “O queixo foi o que mais me chamou a atenção, é exatamente o que vemos nos desenhos e pinturas”, diz. Ferreira Júnior também ressalta o espanto de se deparar com as unhas, as veias, os cílios e os dedos da imperatriz, ainda praticamente intactos. “Você vê um rosto que conhecia apenas pelos livros.”

Por outro lado, os estudos também forneceram informações novas. De acordo com Ambiel, acreditava-se que a imperatriz Maria Leopoldina tivesse quebrado o fêmur após cair de uma escadaria — possivelmente, empurrada por D. Pedro I, famoso pelos maus-tratos físicos e psicológicos inflingidos à esposa. “Analisando apenas os documentos, não teríamos como afirmar se ela caiu ou não, mas o exame mostrou que o fêmur jamais foi fraturado”, explica a pesquisadora.

Condecorações

A historiadora Isabel Lustosa, autora da biografia D. Pedro I (Companhia das Letras) e estudiosa da vida do imperador, destaca o fato de que a exumação mostrou que o imperador foi enterrado sem nenhuma honraria brasileira, mas repleto de medalhas de Portugal. “A descoberta das condecorações portuguesas é significativa. Depois de mais de três anos longe do Brasil, ele estava dedicado a recuperar a Coroa de Portugal. No movimento de restauração, os Andrada queriam trazê-lo de volta ao Brasil, foram ao Porto, mas ele não quis, porque estava envolvido em uma guerra. Em pouco tempo, recuperou toda a sua ‘portuguesice’”, diz a historiadora.

Para Lustosa, além do grande avanço científico, a abordagem utilizada no trabalho tem o mérito de somar informações culturais e biográficas à documentação já conhecida. “É muito bom que isso esteja sendo feito. Do ponto de vista da história política, o mais importante é o lado português do imperador. Do biográfico, é muito interessante descrever fisicamente o personagem; cada vez mais os historiadores se interessam por esse tipo de informação, que nunca é inútil”, acredita. “Isso faz sentir a história como algo pulsante, humanizado”, avalia.

É o que pensa o perito forense Valter Muniz, que documentou 820 horas em áudio e vídeo da exploração científica. “A pesquisa deu vida à história”, avalia. “Às vezes, o brasileiro deixa passar fatos importantes da história, acho que a pesquisa vai ajudar bastante a despertar esse interesse”, diz. Muniz, que acompanhou os trabalhos por sete meses, conta que se sentiu extremamente honrado por participar não só da exumação, mas de todos os passos do trabalho. “No momento em que me deparei com D. Pedro, pensei na origem do povo brasileiro, nas pessoas que ajudam a construir um país ainda melhor e que foi ele quem começou o Brasil. Foi muito enriquecedor estar com os imperadores”, diz o perito, que aguarda patrocínio para lançar, ainda neste ano, um documentário sobre o trabalho. “Precisamos disso para preservar e perpetuar a história do nosso país”, acredita.

No estacionamento

No início de fevereiro, pesquisadores da Universidade de Leicester, na Inglaterra, revelaram que os restos mortais do rei Ricardo III, morto há 500 anos, haviam sido desenterrados de um estacionamento público. Historiadores, arqueólogos e médicos conseguiram determinar a causa da morte e as características físicas do monarca, entre muitos outros detalhes. Logo em seguida, foi divulgado o rosto de Ricardo III.

Contra o irmão

De volta a Portugal, D. Pedro I, lá chamado rei Pedro IV, envolveu-se em uma guerra contra seu irmão Miguel, em defesa da Constituição e da Coroa — ele queria passar o trono à sua filha. Lutando pessoalmente no campo de batalha, D. Pedro conseguiu que Dona Maria II conquistasse a monarquia, mas morreu
logo em seguida.



Amante

Segundo a historiadora Isabel Lustosa, embora os primeiros anos de casamento de D. Pedro I com D. Maria Leopoldina tenham sido felizes, o príncipe regente e depois imperador era conhecido por maltratá-la, principalmente depois de se envolver com Domitila de Castro, sua amante mais famosa. Quando D. Pedro I foi embora do Brasil, jornais conservadores o acusaram de ter dado um pontapé na mulher enquanto ela
estava grávida.
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