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Tecnologia

Arte com tinta de parede

Pesquisadores comprovam que Pablo Picasso utilizou o material em algumas de suas telas. A análise extremamente detalhada identifica até a marca do produto usado pelo espanhol

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postado em 22/02/2013 17:00 / atualizado em 22/02/2013 11:46

Roberta Machado

A inovação de Pablo Picasso não estava somente nos traços cubistas criados pelo artista. A lenda das artes plásticas também arriscava na escolha dos materiais para a produção de suas telas: de vez em quando, ele deixava as tintas a óleo de lado para estampar imagens com produto vendido para cobrir paredes. Fotos e depoimentos já mostravam as aventuras de Picasso com tinta de construção, mas ainda não era possível apontar com certeza quais obras foram feitas com a matéria-prima inusitada. Agora, cientistas norte-americanos identificaram uma forma certeira de acabar com as dúvidas, baseada na mais alta tecnologia.

Especialistas em arte são capazes de avaliar uma obra observando o formato do desenho, as cores usadas e até mesmo a direção e a espessura das pinceladas. Mas, sob esses aspectos, há uma verdadeira “impressão digital” que pode informar se a peça é genuína, o tipo de material usado pelo o artista e até mesmo o local em que a obra foi produzida. Informações recolhidas a partir de uma quantidade mínima de tinta. Foi justamente essa informação que os pesquisadores usaram para estudar os quadros de Picasso em um nível de profundidade inédito. Os resultados estão na publicação especializada Applied Physics A: Materials Science & Processing.

No estudo, foram retiradas amostras de menos de 1mm das telas Mulher na poltrona vermelha, de 1931, e em uma de suas naturezas mortas (veja ao lado). Lascas das duas pinturas foram submetidas a um equipamento chamado Hard X-ray Nanoprobe, o microscópio mais potente da sua categoria. Ele é capaz de descrever a composição de um material a uma resolução de apenas 30 nanômetros, uma dimensão 2,5 mil vezes menor que a espessura de um fio de cabelo e centenas de vezes mais precisa que outros equipamentos usados para a análise de obras de arte. Esta é a primeira vez que a tecnologia é usada para esse objetivo. Até então, o dispositivo potente era reservado para o estudo de materiais energéticos.

A máquina, que faz um trabalho tão delicado, impressiona pelo tamanho: trata-se de um acelerador de partículas de 1,1km de circunferência, localizado no Laboratório Nacional Argonne, em Illinois. Esse círculo gigantesco serve de pista para um grupo de elétrons, que circula repetidamente até atingir uma velocidade próxima à da luz. “Nesse momento, ele começa a emitir luz. Essa luz não é visível. De uma forma, ela é liberada na forma de raios X. Esses são os mesmos raios que as pessoas conhecem do consultório médico. Eles só são muito mais intensos”, descreve Volker Rose, físico do Argonne.

Esse raio invisível é focado por lentes especiais como a luz do sol numa lupa, formando um ponto radioativo de apenas 30 nanômetros sobre a amostra da pintura. A interação entre o raio e o material resulta no registro da impressão digital da composição química da tinta, que é medida por um detector. Com a descrição precisa dos materiais usados nas telas, os pesquisadores só precisaram testar amostras de tintas caseiras usadas na França na década de 1930 e compará-las.

Precisão
Os resultados foram tão precisos que os pesquisadores conseguiram determinar a marca da tinta e a região onde foi fabricada. O estudo não somente confirmou que Picasso tinha o costume de usar tintas de construção em suas telas, como também surpreendeu os cientistas ao mostrar que a tela de natureza morta, que até então se pensava ter sido feita com esse material, na verdade havia sido pintada com pigmentos artísticos comuns.

“Historiadores de arte e conhecedores usam um visual específico de tinta para fazer avaliações sobre trabalhos, mas aparências podem ser enganosas, já que um visual de verniz pode ser alcançado usando-se uma combinação de materiais artísticos”, descreve Francesca Cassadio, cientista do Instituto de Arte de Chicago e coautora do estudo. Como a tinta caseira da época era de altíssima qualidade, essas diferenças não seriam notáveis em um equipamento comum.

O estudo, aponta Volker Rose, serviu de teste também para a própria máquina de ponta. “A verdade é que o material estudado também é um tópico interessante na física. A tinta que analisamos era o branco de zinco, quimicamente idêntico ao óxido de zinco, um material com potencial para substituir o silício em equipamentos eletrônicos”, explica. O composto poderia, por exemplo, ser usado na fabricação de eletrodos transparentes de painéis solares de luzes LED de baixo custo. “Ironicamente, muitos físicos não sabem que eles estão estudando tinta de Picasso.”

A técnica representa também um avanço para o estudo da história da arte, que cada vez mais se apoia em novas tecnologias para identificar pigmentos, determinar o estado de conservação de uma obra ou definir que material deve ser usado em uma restauração. Hoje, a arqueometria, como é chamada a análise científica de obras e objetos de valor histórico-cultural, tem à disposição técnicas que usam radiação eletromagnética, raios X e outros métodos capazes de descrever a composição de uma peça apenas com a aproximação de um sensor móvel do objeto.

“O resultado aparece na tela de um notebook na forma de um gráfico, que mostra os valores de energia correspondentes aos elementos químicos presentes na região analisada. A partir disso, é possível inferir que pigmentos foram utilizados”, explica Cristiane Calza, química do Laboratório de Instrumentação Nuclear da Universidade Federal do Rio de Janeiro e criadora de um aparelho móvel de arqueometria.
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