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Correio Braziliense

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Na fronteira da história

Graças a um livro do historiador Paulo Bertran, moradores de Olhos D'Água (GO) descobriram que a Linha de Tordesilhas passa bem na Praça Santo Antônio, na qual a prefeitura pretende instalar um monumento com brasões do Brasil e de Portugal

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postado em 28/02/2013 17:00 / atualizado em 28/02/2013 12:48

Renato Alves

“Atenção, turista! A Linha de Tordesilhas passa aqui!” Em letras vermelhas pintadas sobre um fundo branco, o anúncio está na fachada de um botequim em frente à Praça Santo Antônio, em Olhos D’Água, distrito de Alexânia (GO). Para não restar dúvidas, ele traz ainda a fonte da informação: “Foi obtida no livro História de terra e do homem no Planalto Central.

Na obra, de autoria do historiador Paulo Bertran (1948-2005), um dos maiores estudiosos da pré-história de Goiás e do Distrito Federal, constam mais detalhes da linha no Planalto Central, como sua exata localização. Ela coincide com o Meridiano 48º35’25’’, que passa em Olhos D’Água. Dali, segue pela Serra dos Pireneus, cujo pico mais elevado mede 1.385m acima do nível do mar.

Sob a serra, fundaram-se as goianas Pirenópolis e Corumbá. A serra serve ainda de espigão divisor das águas das bacias dos rios da Prata e Araguaia-Tocantins. A Linha de Tordesilhas surgiu do Tratado de Tordesilhas, que, de 1498 a 1750, serviu de limite territorial entre os domínios coloniais dos portugueses e dos espanhóis no continente americano.

Mas, enquanto o povoado de Corumbá foi fundado em terras de Portugal — por uma bandeira dominada por paulistas em sua maioria de origem espanhola —, o arraial de Meia Ponte (atual Pirenópolis) foi erguido em terras da Espanha por uma bandeira liderada por portugueses. Já o povoado de Santo Antônio de Olhos D’Água nasceu vinculado a Corumbá (ver Memória).

Placa

Para marcar a Linha de Tordesilhas, a prefeitura de Alexânia pretende instalar um monumento ao Tratado de Tordesilhas (ver Para saber mais) na Praça Santo Antônio. Ele já está pronto. Trata-se de uma placa em mosaico, com os brasões de Espanha e de Portugal, criada e doada pelo artista plástico brasiliense Henrique Gougon. Porém, não há data definida para sua inauguração.

A obra contará, também, com o brasão da Igreja Católica, bem como o texto das bulas papais que deram validade ao Tratado, a Inter Coetera, de 1493, e a Ea, quae pro bono pacis, de 1506, pela paz. Outro trecho a ser anexado é o da história da linha imaginária, fazendo com que o espaço venha a ser ponto de aulas a céu aberto, onde os alunos possam aprender história além dos muros da escola.

Por anos, Olhos D’Água era conhecido apenas pelo estereótipo de destino hippie e pela tradicional Feira do Troca. Agora, faz fama internacional com o rico artesanato e atrai muito trabalhador e aposentado cansado da correria da cidade grande. Gente que habita os casarões coloridos da vila, onde os vizinhos são acolhedores, e as fazendas próximas conservam cachoeiras inexploradas.

Pinga turbinada

A maioria dos turistas desconhece a relação do lugarejo com a Linha de Tordesilhas. Além de consultar o livro de Bertran, quem quiser saber mais sobre essa história basta dar um pulo no Bar Museu, em frente à Praça Santo Antônio. O minúsculo estabelecimento expõe em suas paredes, em meio e sobre as mais de 200 garrafas de cachaça com raízes variadas, recortes de jornais sobre a linha.

O museu e bar rústicos não tem mesas nem cadeiras. Apenas um velho e gasto balcão de madeira e uma banco igualmente maltratado. Mas é possível passar horas ali conversando com a dona, Cecília Machado, 60 anos. Na verdade, ouvindo mais do que falando, pois ela tem muitas histórias para contar. Algumas, sem muito nexo. Outras, curiosas e divertidas.

A paulista mudou-se com os pais e os cinco irmãos para Goiás quando tinha 12 anos. O pai comprou duas vendas perto de Brasília, mas acabou morto com tiros nas costas, na época da construção da capital, em circunstâncias não explicadas pela filha. Ela casou-se com um marinheiro que conheceu no Rio de Janeiro. Passou 15 anos viajando com ele Brasil afora.

Após a morte do primeiro marido, decidiu se casar com outro há 12 anos. Com ele, voltou a Olhos D’Água em 2002, quando montou o bar em um casebre construído em 1937. Passou a misturar cachaça a raízes compradas em cidades próximas. Criou mais de 200 variedades de bebidas, mais conhecidas como garrafadas. Ela jura que curam quase tudo. Vende a garrafa de três litros a R$ 80.

Contudo, é preciso seguir as instruções da inventora. “Não é qualquer um que faz uma bebida dessas. Tem que saber marcar o dia, a lua e as quantidades, senão explode. Isso é igual a uma bomba atômica”, diz, soltando um riso. Mas o cliente pode apenas tomar uma ou mais doses de suas pingas turbinadas. Ou mesmo um refrigerante. O de que Cecília mais gosta mesmo é contar casos em um ritmo alucinante.

Para saber mais
Divisão territorial
Assinado na povoação castelhana de Tordesilhas em 7 de junho de 1494, o Tratado de Tordesilhas foi celebrado entre o Reino de Portugal e o recém-formado Reino da Espanha para dividir as terras “descobertas e por descobrir” pelas duas Coroas fora da Europa. Ele surgiu na sequência da contestação portuguesa às pretensões da Coroa espanhola resultantes da viagem de Cristóvão Colombo, que um ano e meio antes chegara ao chamado Novo Mundo.

Memória
Utensílios de barro

Olhos D’Água surgiu de uma promessa  feita por uma moradora de construir uma capela para Santo Antônio de Pádua. Em 1941, nasceu o povoado de Santo Antônio de Olhos D’Água, subordinado a Corumbá de Goiás. Os homens plantavam milho, feijão, arroz e mandioca e produziam utensílios de barro. O povoado foi emancipado em 14 de novembro de 1958, tornando-se município. Em seguida, a sede municipal foi transferida para Alexânia e, em 1963, Olhos D’Água tornou-se distrito.  

Como chegar
São 100km do Plano Piloto até Olhos D’Água. Pega-se a BR-060 (Brasília-Goiânia) até Alexânia, percorrendo 85km. Entra na principal avenida comercial da cidade até a GO-139. Segue 10km pela rodovia estadual até um trevo, onde há uma placa indicando Olhos D’Água.
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