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Ciência

"Coração de Leão" examinado

Análise mostra que o órgão cardíaco de Ricardo I, monarca inglês morto há oito séculos, foi embalsamado seguindo descrição presente na Bíblia. O estudo não foi capaz de confirmar a causa do óbito, um dos objetivos dos pesquisadores

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postado em 04/03/2013 08:00 / atualizado em 04/03/2013 11:55

Paloma Oliveto

O “coração de leão” reduziu-se a pó. Ainda assim, 800 anos depois de morto, um dos mais famosos reis da Inglaterra passou por um exame cardíaco. Sob o comando do patologista forense Phillip Charlier, conhecido como “Indiana Jones dos cemitérios” por investigar cadáveres de personalidades históricas, um grupo de pesquisadores franceses analisou o órgão embalsamado de Ricardo I (1157-1199), o legendário Ricardo Coração de Leão, principal líder da Terceira Cruzada. Embora não tenha conseguido atingir um dos objetivos do estudo — descobrir a causa da morte do monarca —, Charlier obteve detalhes do processo de embalsamamento medieval. Os materiais usados para conservar o coração de Ricardo I são semelhantes àqueles que, de acordo com a descrição na Bíblia, foram passados no corpo de Jesus. O resultado do trabalho foi divulgado pela Scientific Reports, publicação de livre acesso do grupo Nature.

Passados oito séculos, pouco restou do coração do rei. A caixa contendo o órgão foi encontrada em 1838 pelo historiador Achille Deville, durante escavações na Catedral de Rouen, na França, com a inscrição HIC IACET COR RICARDI REGIS ANGLORUM, que significa “Aqui está o coração de Ricardo, rei da Inglaterra”. De acordo com o monge beneditino Mattew Paris (1200-1259), um dos principais cronistas do reinado de Ricardo I, já sabendo que morreria, o monarca expressou o último desejo à mãe, Eleonor de Aquitaine: “Meu corpo será enterrado em Fontevraud, meu coração na Catedral de Rouen e minhas entranhas continuarão em Châlus”. Acredita-se que razões políticas estejam por trás do desmembramento do corpo: o monarca queria demarcar território, espalhando seus órgãos por diferentes locais.

O desejo do rei foi atendido — ainda de acordo com Paris, Ricardo escolheu Rouen para deixar seu coração em reconhecimento à fidelidade dos cidadãos da cidade normanda, que pertencia, naquela época, ao trono inglês. Conhecido como o “o menos inglês dos reis ingleses”, Ricardo tinha particular interesse pelos domínios britânicos na França, onde recebeu a alcunha de “Couer de lion”. O apelido se referia à bravura desse rei, que preferia a agitação dos campos de batalha à monotonia da corte. Os biógrafos afirmam que, como monarca, Ricardo I não atendia as expectativas, mas reconhecem que as campanhas militares em que esteve à frente foram extremamente bem-sucedidas, principalmente por causa de seu espírito destemido.

Quando abriu a caixa de chumbo, Deville provavelmente ficou decepcionado, pois, já no século 19, o órgão estava esfacelado. O coração que, segundo a lenda, era enorme, se pulverizou e, como constatou Phillip Charlier, não sobrou nenhum tecido coronariano. Embora o recipiente tivesse sido aberto anteriormente, o patologista francês, do Departamento de Medicina Forense e Patologia do Hospital Universitário R. Poincare, foi a primeira pessoa a receber autorização para examinar o órgão. “Muita gente já pediu para retirar amostras, para saber se era descendente do rei. Jamais permitimos. Quando o Dr. Charlier nos procurou, a proposta era diferente e, como ele garantiu que não tentaria retirar amostra de DNA, achamos que era uma boa ideia”, conta Caroline Dorion-Peyronnet, chefe do Departamento do Museu de Antiguidades de Rouen, que também assina o artigo.

Charlier, um famoso cientista forense que identificou o crânio de Henrique IV da França e investigou um osso que supostamente pertenceria a Joana D’Arc (a pesquisa mostrou que não era), retirou alguns miligramas do coração pulverizado para o estudo e, sob o microscópio, conseguiu detectar células do miocárdio. O patologista também encontrou fungos e bactérias, mas nenhum micro-organismo estava relacionado à septicemia (infecção generalizada), que teria matado Ricardo I. Em 1199, ele foi ferido por uma lança e, 12 dias depois, estava morto. Acredita-se que o ferimento no ombro esquerdo tenha gangrenado e Charlier esperava encontrar evidências na amostra. “Mas, com um intervalo de tempo tão grande desde sua morte, sabíamos que seria difícil diferenciar as bactérias provenientes da decomposição daquelas que causam a septicemia”, explica.

Paraíso
Se os cientistas não conseguiram encontrar vestígios de septicemia, um outro objetivo do estudo, o de entender como era o processo de embalsamamento na Idade Média, foi considerado satisfatório pelo pesquisador. Mais preservado que o órgão estava o tecido de linho que o embalava. Nele, Charlier encontrou vestígios de ervas, árvores e flores usadas durante o processo: murta, margarida, hortelã, pinheiro, carvalho, choupo, plátano e campânula. De acordo com o patologista, além de conservar o corpo, esses ingredientes foram escolhidos para “dar um cheiro de santidade” ao coração do rei, já que são os mesmos que José de Arimateia doou para embalsamar o corpo de Jesus, conforme diz a Bíblia. “Com isso, os embalsamadores achavam que sua ‘jornada’ pelo purgatório seria menor, o que aceleraria a ida para o Paraíso, conforme as crenças medievais”, esclarece. A estratégia não funcionou, pelo menos na fértil imaginação dos mortais: no século 13, o bispo de Rochester afirmou que Ricardo passou 33 anos no purgatório e só bateu às portas do Céu em março de 1232.

O embalsamamento não ocorreu apenas para acelerar a expiação dos pecados do rei. Como ele morreu  em Châlus, a quase 530km de Rouen, o coração poderia apodrecer durante a viagem, que, a cavalo, demorava dias. É impossível saber até quando o órgão foi preservado. Segundo Charlier, o fato de ter virado pó, enquanto múmias egípcias milenares conservam-se intactas até hoje, não significa que as técnicas medievais fossem deficientes. “O problema é que o clima é diferente. A França é muito mais úmida que o Egito, e essa é a causa. Os embalsamadores franceses medievais eram muito bons no que faziam”, diz.

Quase blasé, Charlier admite que Ricardo I é seu paciente mais velho, mas diz que não se emocionou a estudar o coração de um rei lendário. “Foi só um paciente como qualquer outro”, garante.

 

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