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Ciência

A genética por trás da música

Diferentes estudos sugerem que a capacidade de tocar bem um instrumento e até mesmo o gosto pelas melodias têm relação com o DNA das pessoas

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postado em 08/03/2013 08:00 / atualizado em 07/03/2013 10:48

Paloma Oliveto


 

Aos 8 anos, Wolfgang Amadeus Mozart compôs sua primeira sinfonia. A essa altura, já era um veterano, com duas pequenas obras — um andante e um allegro — escritas quando tinha apenas 5. O que pouca gente sabe é que a genialidade musical estava no sangue. Maria Anna Mozart, irmã do pequeno Wolfgang, fez sucesso nos palcos europeus tocando piano. Ela foi chamada de virtuose, prodígio e gênio porque, com 12 anos, já executava peças consideradas dificílimas diante de plateias numerosas. Histórias como a dos dois levam os cientistas a questionar se o que muitos chamam de talento pode ser, na verdade, uma predisposição genética.

Ainda não se descobriu um gene que explique por que algumas pessoas podem estudar arduamente um instrumento e jamais se destacarem, enquanto outras, mesmo sem saber ler partituras, caso de John Lennon e Paul McCartney, parecem ter nascido abraçadas a pianos e guitarras. Contudo, estudos sugerem que variações genéticas podem estar associadas à musicalidade, seja ela expressa no talento para compor, cantar e tocar, ou no interesse intenso por música. Além disso, a evidência de que o homem já produzia ritmos e sons milhares de anos atrás indica que a musicalidade é algo inerente, tanto quanto a linguagem.

“A música é uma das coisas mais antigas da sociedade. Existem flautas feitas de ossos e tambores cobertos por pele de animais que datam de 15 mil anos. Muitas ferramentas antigas escavadas em sítios arqueológicos eram, na verdade, instrumentos musicais”, afirma o neurocientista e psicólogo cognitivo Daniel Levitin, da Universidade McGill, no Canadá, que estuda a relação entre cognição e música, além de ser guitarrista e produtor — ele já trabalhou com Joe Satriani, Santana e a banda Greatful Dead. “Não há sociedade que não seja musical. Já se sugeriu que a música é até mais antiga que a linguagem porque ela está relacionada a áreas do cérebro muito primitivas”, diz Levitin, que participou recentemente de um simpósio sobre o tema, na reunião anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS).

Há alguns anos, um estudo da Universidade de Maryland em College Park investigou e encontrou conexões entre genes e música em 39 culturas africanas. O geneticista populacional Floyd Reed comparou um banco de dados genéticos de 3 mil africanos a um catálogo de canções elaborado pelo etnólogo Alan Lomax na década de 1960. Lomax, que passou a vida coletando 5,5 mil músicas de 857 povos, classificou as canções de acordo com 37 características. A música produzida pelas etnias africanas caçadoras, como os Juhoansi, é semelhante às das tribo de pigmeus, caso dos Aka, por exemplo. Ambas alternam o tom normal ao falsete e também são marcadas pelo cânone, em que uma pessoa começa a cantar e as outras vão entrando sucessivamente, de forma que a primeira nunca encontra com a última. Já os Hutu, da África Central, são bem diferentes e costumam cantar em uníssono.
Ao cruzar os dados, Reed notou que indivíduos de culturas cujas canções são semelhantes não compartilham apenas o estilo, mas também marcadores genéticos. Essa associação é mais forte do que a geográfica: uma tribo pode viver perto da outra e cantar de forma completamente diversa, enquanto povos de diferentes localidades produzem músicas parecidas quando seus genótipos coincidem. Em uma entrevista ao site da Nature, o especialista ressaltou que diversos aspectos culturais das tribos analisadas enfrentaram mudanças ao longo do tempo, enquanto a música persistia, sugerindo a existência de um componente biológico.

Marcador


Se Reed estudou a genética da música entre culturas, pesquisadores da Universidade de Helsinki e da Academia Sibelius, da Finlândia, foram atrás de um marcador individual que expressasse o talento ou o gosto mais intenso pela música. Eles sequenciaram o genoma de 437 pessoas de 8 a 93 anos, pertencentes a 31 famílias. Havia tanto músicos profissionais quanto amadores, assim como indivíduos sem nenhum contato com instrumentos ou canto. Em um questionário, os cientistas perguntavam se o participante se considerava um ouvinte ativo, que se interessa muito pela música e vai a concertos e shows, ou passivo, aquele que só escuta quando, por exemplo, há um fundo musical na TV ou no restaurante.

Além do questionário, havia três testes de aptidão, que forneciam uma avaliação mais objetiva. Os resultados foram, então, comparados ao DNA dos 437 participantes. “Esse é o primeiro estudo que explora o hábito de escutar música em um nível molecular e encontra um gene associado a isso”, diz Irma Järvelä, pesquisadora da Universidade de Helsinki. O que os cientistas descobriram é que pessoas mais dedicadas à música e que se saíram melhor nos testes de aptidão tinham uma variação do gene AVPR1A, encontrado em todos os membros da família. “Esse gene está associado à comunicação social entre humanos, e a música é uma forma de se comunicar e de interagir socialmente”, explica Järvelä.
De acordo com ela, estudos mais aprofundados poderão descobrir se a presença da variante realmente predispõe um indivíduo a se interessar pela música ou a ser mais talentoso que os demais. Há pouco mais de dois anos, o DNA do cantor e compositor inglês Ozzy Osbourne foi sequenciado. Além de revelar que ele tinha um risco maior de se tornar dependente químico, o teste mostrou que o astro é portador da variante do AVPR1A detectada pelos cientistas finlandeses.

Apesar de acreditar que o talento pode ter um fundo genético, o neurocientista Daniel Levitin alerta que os testes de musicalidade já realizados até agora não são precisos e, portanto, ainda não há meios de detectar esses genes. Ele conta que, até poucos anos atrás, as escolas públicas americanas que tinham orçamento apertado realizavam testes entre as crianças para ver quem poderia participar das aulas de música. A ideia era selecionar aquelas que pareciam predispostas a se sair bem com os instrumentos. “Há algum tempo, um colega meu aplicou o mesmo teste em instrumentistas da Filarmônica de Los Angeles, considerada uma orquestra de elite. Metade dos músicos teve pontuação abaixo da média”, relata. “Pelo menos para mim, isso mostra que os testes podem estar avaliando algo, mas seja o que for, não está relacionado à música”, afirma.

Música e
inteligência?

Muitas pesquisas têm relacionado o aprendizado de um instrumento musical à melhoria de outras habilidades, como memória, leitura e inteligência. A maioria desses testes, contudo, não procura evidências biológicas, mas simplesmente compara o desempenho escolar e cognitivo de crianças que fazem aulas de música com o daquelas que não tocam instrumentos. Para o psicólogo Glenn Schellenberg, professor da Universidade de Toronto que pesquisa a cognição, fazer aulas de música não desenvolve outras competências. “Crianças que frequentam aulas de música geralmente vêm de famílias com maior poder aquisitivo, que têm condições de oferecer a elas uma educação melhor. Então, é claro que elas se sairão melhor na escola”, argumenta. “O aprendizado de música realmente altera o cérebro, mas qualquer coisa nova que aprendemos faz isso, seja uma nova língua ou um instrumento.”


Existem diferentes habilidades musicais, como coordenação, memória e capacidade de improviso. Não podemos procurar por genes até sabermos o que é ser musical%u201D Daniel Levitin, neuropsicólogo (Philips/Divulgação) 
Existem diferentes habilidades musicais, como coordenação, memória e capacidade de improviso. Não podemos procurar por genes até sabermos o que é ser musical%u201D Daniel Levitin, neuropsicólogo

Um conjunto de habilidades

Um problema que precisa ser resolvido antes de se buscar a genética da música, de acordo com o neuropsicólogo Daniel Levitin, é medir a musicalidade. “Existem diferentes habilidades musicais, como coordenação, memória e capacidade de improviso. Não podemos começar a procurar por genes até sabermos o que é ser musical”, defende. “Podem existir genes relacionados ao ouvido absoluto, ao controle motor, à capacidade de absorver novas experiências… Tudo isso tem a ver com a música, mas quais desses genes uma pessoa deve ter para ser considerada predisposta à música?”, questiona.
Para Tim Spector, pesquisador do King’s College de Londres, possuir uma dessas características é suficiente para classificar um indivíduo como geneticamente predisposto. “Eu acreditava que ser exposto à música, como ir a concertos e fazer aulas desde pequeno, era muito mais importante do que os genes. Mas parece que a genética tem 80% de participação na musicalidade”, acredita. Há mais de uma década, Spector realizou testes de habilidade musical com 568 gêmeas britânicas. O cientista pediu que as participantes ouvissem partes de músicas compostas por 26 sons diferentes, como Parabéns para você, e dissessem quais tinham notas erradas. As gêmeas idênticas, que compartilham o DNA, mostraram habilidade musical semelhante — quando uma delas detectava notas erradas, a tendência era de que a outra também conseguisse fazer isso. Contudo, gêmeas não idênticas, cujo material genético é 50% igual, tinham menos probabilidade de dar respostas parecidas.

Spector reconhece que sua pesquisa, publicada na revista Science, explorou apenas uma das muitas características relacionadas às habilidades musicais, mas acredita que essa é uma capacidade fundamental: “Quem não reconhece um tom errado não pode ser um bom músico”. Além disso, ele acha que o fato de gêmeas idênticas terem os mesmos índices de erros e de acertos no reconhecimento das notas é um forte indício de que a musicalidade está mais associada à genética do que a fatores ambientais. “Muitos pais compram discos para seus bebês ouvirem, achando que, com isso, eles poderão se tornar bons músicos mais tarde. Nada impede que uma pessoa não predisposta geneticamente aprenda a tocar um instrumento ou se torne compositora, mas não adianta tentar forçar alguém a se envolver com a música se seus genes não a favorecem”, ensina. (PO)
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