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Ciência

Ares de dominação

Pesquisa mostra que os ratos usam a respiração para impor respeito sobre os outros. Enquanto o líder cheira os demais, os animais subordinados param de farejar em sinal de submissão. Segundo o autor do estudo, é possível que o padrão se repita em cães e gatos

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postado em 11/03/2013 17:00 / atualizado em 11/03/2013 11:08

Marcela Ulhoa

Basta estar atento aos animais para presenciar a cena das tradicionais cafungadas. Se não é o próprio cachorro de estimação que se aproxima do pet dos vizinhos para dar aquela cheiradinha, são os bichanos do zoológico farejando uns aos outros, ou os que aparecem bem longe, só por imagens de televisão, mexendo o nariz para o mundo. O fato é que a interação por meio do cheiro é comum entre todos os vertebrados terrestres. Mas, afinal, por que os bichos se cheiram tanto?

De acordo com um artigo publicado na última edição da revista Current Biology, o comportamento, mais do que estar relacionado ao olfato em si, revela importantes informações sobre o status social do animal dentro de seu grupo. Ao realizar experimentos com ratos de laboratório, pesquisadores da Universidade Case Western Reserve, nos Estados Unidos, descobriram que, nesses encontros, os ratos dominantes são os primeiros a cheirar o outro, enquanto os subordinados prendem por um tempo a sua respiração como forma de respeito à superioridade alheia.

O autor do estudo, Daniel Wesson, explica que a suposição comum — e sem dúvida importante — é que os animais cheiram uns aos outros para obter informações baseadas no odor, tal como o estado reprodutivo, a identidade e mesmo detalhes sobre o alimento ingerido recentemente. Ele acrescenta, entretanto, que as cafungadas sociais significam muito mais do que o sabido até então. Segundo ele, as pesquisas olfativas mostram que são necessárias poucas farejadas para que o cérebro do animal identifique complexos odores.

“Assim, a razão que leva um cão a cheirar por muito tempo e de forma vigorosa outro cachorro pode ser explicada pela motivação de comunicar algo. E é por isso que uma interação aparentemente calma entre o seu cão e outro pode resultar em briga ou no distanciamento dos dois animais”, conta o autor do estudo, mostrando que suas conclusões podem ser estendidas a outras espécies além dos ratos. O fato de nenhuma pesquisa ter medido diretamente o ato de farejar entre roedores tornou o desafio ainda mais “emocionante” para Wesson. “Eu acho muito interessante que, ao mesmo tempo que esse animal é um dos mais estudados do planeta, algo tão novo como a função do ato de cheirar possa ter sido esclarecido.”

Agressividade
Um dos primeiros passos de sua pesquisa foi gravar o farejado de ratos durante interações sociais. Para capturar a frequência da respiração nasal, ele usou o método de gravações de radiotelemetria, em que um pequeno sensor é colocado próximo da ponta do nariz do rato e conectado a um transmissor wireless. Quando chega ao computador, o sinal emitido é gravado e então utilizado para medir o farejar dos animais. A partir desses dados, o pesquisador e sua equipe descobriram que os ratos exibem determinado status social a partir da mudança da frequência da respiração. “Particularmente, vimos que, se o animal submisso não reduz a sua respiração, a afronta estimula a exibição de agressão nos ratos dominantes”, explica Wesson.

Dessa forma, o parâmetro utilizado para acessar o status social do indivíduo foi o grau de agressividade do animal. Enquanto o mais agressivo seria o dominante, o mais pacífico seria o submisso. Outro interessante resultado foi a constatação de que a utilização de oxitocina, um neuropeptídeo natural que promove o comportamento de afiliação, conseguiu abolir o comportamento hierárquico. De acordo com Mauro Lantzman, professor de veterinária da PUC de São Paulo, a agressividade é um marcador bastante utilizado para identificar a hierarquia entre os animais. “O comportamento agonístico é uma agressividade ritualizada. Não existe necessariamente uma agressão que resulta em ferimentos, ou lesões, mas a expressão do comportamento é nitidamente agressiva”, explica o especialista, que não participou do estudo norte-americano.

O professor reforça que, nesses casos, há uma certa tolerância quando a agressão vem de um indivíduo hierarquicamente superior. Mas quando os limites são extrapolados, o que se tem é uma desarmonia indesejada. “A violência real em uma sociedade provoca a desarticulação, um afastamento, ela rompe os vínculos. Quanto menos agressividade em uma sociedade, melhor, porque os indivíduos se mantêm mais coesos”, esclarece.

Complexidade
Vale ressaltar ainda que todas as atitudes se manifestaram de forma independente da ativação do olfato. Os resultados, portanto, mostram que a vida social dos animais é mais complexa do que se acreditava. O ato de farejar, além de servir para identificar cheiros, também permite que os roedores se comuniquem independentemente do cheiro. “Essa pode ser uma maneira comum de comunicação entre vários animais, inclusive cachorros e gatos”, especula.

Os animais, assim como os humanos, desenvolveram ao longo do tempo complexas hierarquias sociais. Essa característica já é conhecida há um bom tempo pela literatura científica. Lantzman explica que a divisão social serve para organizar os indivíduos que vivem juntos no grupo. Ao definir quem vai ser o representante que tomará a frente do grupo mostrando o caminho, ou quem defenderá o bando e mesmo organizará seus membros em caso de disputas intergrupais, todo o conjunto de indivíduos passa a ter melhor condição de sobreviver ao ambiente.

Para Wesson, ainda há muito a ser aprendido sobre aspectos básicos da comunicação animal. Além disso, estamos longe de compreender como esses seres que, sem dúvida, vivem de forma muito mais simples que os humanos, apresentam vidas sociais altamente complexas. “Certamente, esse mesmo princípio pode ser aplicado a outros animais além dos ratos. Essa descoberta abre as portas para uma linha totalmente nova de compreender comportamentos complexos e microestruturados em animais”, garante o autor. O próximo passo de sua pesquisa será determinar quais conexões no cérebro permitem a ativação do comportamento de farejar. Em última análise, o pesquisador também pretende testar se o ato de cheirar pode ajudar a compreender melhor a forma como o cérebro controla comportamentos sociais complexos e como os centros nervosos podem lidar inadequadamente com os sinais sociais.
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