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Ciência

Múmias com artérias entupidas

Depois de realizar tomografias computadorizadas em 137 corpos, pesquisadores concluem que a aterosclerose, problema ligado a infartos e AVCs, afeta a humanidade há milênios. O estudo indica que o mal não é consequência apenas do estilo de vida moderno

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postado em 12/03/2013 19:00 / atualizado em 12/03/2013 13:00


Ötzi, caçador que viveu há 5 mil anos e teve o corpo preservado pelo gelo: a pesquisa revelou entupimento nas carótidas, que levam sangue do coração para o cérebro (Andrea Solero/AFP - 28/2/11) 
Ötzi, caçador que viveu há 5 mil anos e teve o corpo preservado pelo gelo: a pesquisa revelou entupimento nas carótidas, que levam sangue do coração para o cérebro


Principal causa de mortalidade mundial, as doenças cardiovasculares também atingiam a humanidade antes do advento da civilização, há cerca de 12 mil anos. Um estudo publicado ontem na revista The Lancet e divulgado no Congresso do Colégio Americano de Cardiologia investigou as artérias de múmias de quatro continentes e constatou que, quando ainda eram caçadores-coletores, os homens já sofriam de entupimentos, o que pode provocar enfarte e acidente vascular cerebral (AVC). De acordo com os autores da pesquisa, isso mostra que a aterosclerose não está ligada apenas ao estilo de vida moderno, conforme se costuma assumir.

Os cientistas da Universidade do Sul da Califórnia (USC) fizeram tomografias computadorizadas em 137 múmias, de egípcios a peruanos, e encontraram placas de gordura obstruindo artérias em 44 delas. “Essa não é uma doença apenas causada por circunstâncias modernas, mas uma característica básica do envelhecimento em todas as populações”, disse Caleb Finch, professor da USC e um dos autores do estudo. A incidência de problemas cardiovasculares é maior em pessoas com mais de 55 anos. O geriatra também destacou que processos inflamatórios inerentes ao envelhecimento estão por trás dessas doenças.

Entre os pacientes examinados está Ötzi, o homem do gelo, encontrado por alpinistas italianos na década de 1990. Apesar de não ter sido embalsamado, o corpo do indivíduo, que viveu há cerca de 5 mil anos, manteve-se conservado devido à baixa temperatura local. O caçador, morto em decorrência de um ferimento por flecha, tinha calcificações nas carótidas, artérias que levam sangue do coração para o cérebro. Segundo Finch, múmias egípcias também apresentaram indícios de aterosclerose avançada, mas como só a realeza ou pessoas muito ricas eram mumificadas no país africano, foi preciso procurar por corpos mumificados em outros continentes, onde as condições climáticas e dietéticas eram diferentes.

Imagem colhida de uma das múmias peruanas analisadas no estudo: calcificação em artéria (USC/Divulgação) 
Imagem colhida de uma das múmias peruanas analisadas no estudo: calcificação em artéria


Serial killer
“Nossa pesquisa mostra que todos temos risco de desenvolver aterosclerose, uma doença que causa ataque cardíaco e derrame em todas as etnias, tipos de dieta e estilos de vida”, disse Gregory Thomas, coautor do estudo e médico do Instituto do Coração de Saint Luke. “Por causa disso, nós todos precisamos ser cautelosos com nossa alimentação, peso e atividades físicas, para minimizar os impactos. Os dados coletados sobre indivíduos de culturas pré-históricas do Peru e da América nos força a pensar em outros fatores que podem causar doenças cardíacas”, ponderou. De acordo com ele, quanto mais velho o indivíduo mumificado, mais pronunciada era a calcificação das artérias.

Randall Thompson, cientista que também assina o estudo, comparou a aterosclerose a um “serial killer” que vem “perseguindo a humanidade há milhares de anos”. “No último século, as doenças vasculares ficaram no lugar das doenças infecciosas como a principal causa de morte pelo mundo desenvolvido. Uma suposição comum é que o aumento nos níveis de aterosclerose está predominantemente relacionado ao estilo de vida, e que, se os humanos modernos pudessem copiar o estilo pré-industrial ou mesmo da pré-agricultura, a doença, ou ao menos suas manifestações clínicas, seria evitada. Nossos resultados colocam dúvida sobre essa suposição. Por fim, achamos que eles também sugerem que as causas da aterosclerose são incompletas e que, de alguma forma, a doença seja inerente ao processo de envelhecimento humano”, concluiu.
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