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Tecnologia

Fecho centenário

Inventado para facilitar o fechamento de botas, o zíper completa 100 anos. Nas últimas décadas, revolucionou a indústria da moda e passou a ser usado nos mais variados objetos, de móveis a gaiolas de pesca

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postado em 13/03/2013 19:00

Roberta Machado

“Eu nunca consigo fechar um zíper. Talvez isso signifique algo, o que você acha?” As palavras provocantes de Rita Hayworth, em Gilda (1946), não só convidavam o personagem de George Macready a fechar o provocante vestido da musa, mas também consagraram o fecho éclair como um ícone da moda. Até então, o mecanismo era típico das roupas militares e das bolsas de carteiros, num tempo em que seu visual era grosseiro demais para a delicada figura feminina. Se hoje o zíper reina sobre calças jeans e malas, é porque a invenção passou por um século de aperfeiçoamentos antes de garantir um confortável espaço na indústria da moda.

A ideia de construir uma série de peças encaixadas ao deslizar de um cursor surgiu em 1893, quando Judson Whitcomb se cansou de lutar contra a barriga avantajada para alcançar os laços do sapato. A patente descrevia a invenção como “duas bases flexíveis travadas e soltas por um dispositivo deslizante montadas nos dois membros”, algo que remete ao design conhecido hoje, mas que, visualmente, mais lembrava um aparato de tortura medieval. Os laços dos sapatos de Witcomb eram presos por afiadas pontas metálicas que se soltavam com muita facilidade, o que tornou o invento pouco atrativo e longe do sucesso comercial.

A indústria, contudo, continuou determinada a fechar tecidos num piscar de olhos. Gideon Sundbac, um dos empregados da Universal Fastener Company, foi encarregado de aperfeiçoar o projeto de Whitcomb. O projetista usou o mesmo princípio sugerido pelo chefe, mas com um desenho mais eficiente e menos assustador: em 1913, os ganchos foram substituídos por dentes mais seguros que se intercalavam sem deixar brechas. Surgiu o fecho separável, invenção que receberia o nome de zíper nos Estados Unidos ao ser integrada a uma linha de galochas de borracha anos depois.

Logo a invenção estaria presente em bolsas de tabaco, uniformes e malas, até ser apresentada à alta costura pela estilista parisiense Elsa Schiaparelli, que lançou trajes fabricados com modelos plásticos do produto em 1935, abrindo as portas para o uso do acessório sem que ele precisasse ser ocultado pelo tecido. “Ela era muito envolvida com o movimento de arte e procurava criar coisas diferentes. Ela tinha contato com o pintor Salvador Dali e usava elementos surrealistas em bordados na roupa”, explica Ingrid Loges Binsfeld, professora de história da moda no curso de desenho industrial da Universidade de Brasília (UnB).

Mudanças
Os zíperes mais discretos ganharam forma de bobina de poliéster da mesma cor do tecido, e chegaram a desaparecer por trás da costura nos modelos invisíveis de roupas sociais. As roupas alegres dos anos 1980 exibiam grandes dentes plásticos que se encaixavam como peças de quebra-cabeça que se destacavam, e ajustes permitiram o uso do produto em jaquetas reversíveis ou bolsas que abriam para ambas as direções. “Ele não é usado somente no segmento de confecção, mas também na indústria moveleira, automobilística e na indústria de tubulações, além de usos menos conhecidos, como em gaiolas para pesca submersa”, enumera Dario Morishita, gerente de produto da YKK Zíper.

Mesmo o modelo clássico das calças jeans é hoje muito mais eficiente que o de alguns anos atrás, quando era comum o hábito de enviar as roupas para a troca do fecho. Os dentes de zinco, cobre e aço formam ligas com tecnologia suficiente para suportar o violento processo de tratamento químico industrial do jeans e resistir ao processo corrosivo causado pelas lavagens constantes. Os modelos modernos também precisam aguentar a pressão de uma calça justa, por exemplo, e chegam a durar até 3 mil ciclos de abertura e fechamento.

A versatilidade do fecho moderno possibilitou o seu uso com função tão decorativa quanto prática. “O rock puxa muitos elementos de metais, principalmente nas jaquetas perfecto ou biker, em que o zíper é colocado nas mangas na diagonal e na frente. Isso vem a partir dos anos 1980, quando o zíper se consolidou como elemento de moda com uma influência musical”, ensina Denise Morais, consultora de moda do Senac Moda Informação. Se antigamente o brilho metálico era escondido, hoje é celebrado com pedras de strass, pingentes e cadarços de lurex reluzentes, quase como uma joia que em nada lembra os ganchos surgidos em 1913.

Se há um século fechar botas num único gesto parecia uma manobra futurista, o acessório continua traçando o caminho para a criação de modelos mais versáteis de roupas. Das bocas de sinos que revelam um tecido colorido por trás dos trilhos a saias que ganham fendas com a abertura do cursor, o zíper dá às peças a possibilidade de transformação completa. “Em algumas roupas, a manga é retirada, e há calças que destacam o zíper para virar bermuda. Nessa tendência de consumo consciente, imagino uma roupa atemporal, que sirva para o inverno e para o verão. Mas seriam necessárias pesquisas para que o zíper não aparecesse tanto”, imagina Nilzeth Neres Gusmão, professora do curso de design de moda do Centro Universitário Belas Artes.
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