Ciência

O valor da pesquisa

Investir em biocombustíveis é fundamental para que o Brasil dê um salto de qualidade na produção de energia sustentável. Curso pretende formar doutores na busca da eficiência tecnológica

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postado em 26/03/2013 19:00 / atualizado em 26/03/2013 12:06

Belo Horizonte — Em tempos de pré-sal e de um Brasil autossuficiente em relação à produção de petróleo, a discussão sobre a importância dos biocombustíveis tem andado em marcha relativamente lenta. No entanto, a preocupação ambiental e o fato de o combustível fóssil ser finito levantam a questão sobre a relevância de investimentos que promovam um salto de qualidade na área de energia sustentável.

De 1975 a 1989, o Brasil teve o Programa Nacional do Álcool (Proálcool ) para coordenar e estimular a produção e o uso do etanol carburante. A iniciativa mostrou o poder e a expertise do país para gerar uma fonte de energia alternativa. Com o know-how brasileiro, foram construídas destilarias que transformaram o excedente da produção de cana-de-açúcar em etanol hidratado e anidro — esse último é hoje usado como aditivo na gasolina, sem necessidade de qualquer modificação nos motores dos veículos. Na época, em meio à crise do petróleo, o Proálcool fez diminuir a dependência das importações, além de favorecer a indústria açucareira depois da queda do preço do açúcar, em 1974.

“O problema é que, de 2000 até agora, o volume produzido de etanol evoluiu lentamente, sendo superado pelos Estados Unidos (veja gráfico), que, hoje, produzem o dobro do Brasil”, destaca o professor José Domingos Fabris, vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Biocombustível da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), em Minas Gerais.

Para suprir demandas nessa área, que exige conhecimento avançado e especialistas para pesquisa e desenvolvimento, a UFVJM em Diamantina e a Universidade Federal de Uberlândia (UFU) estão oferecendo o primeiro curso de doutorado em biocombustível do Brasil. O programa de pós-graduação também inclui o mestrado acadêmico, que é mais comum no país. A iniciativa deve ajudar a formar talentos para desenvolver pesquisas necessárias ao avanço da tecnologia na área.

Fabris e o coordenador do programa, Alexandre Soares dos Santos, exaltam a iniciativa das duas universidades, que surgiu de uma extensão dos trabalhos de pesquisa e de cooperação entre elas. “O Brasil tem abundância de luz, calor, terra e água e pode produzir muito biocombustível líquido (biodiesel mais etanol)”, destaca Fabris. O curso vem justamente para ajudar a preencher o vazio existente de desenvolvimento científico e tecnológico para a cadeia de fabricação do produto.

Na avaliação do vice-coordenador, é urgente que o investimento em biotecnologia não fique vinculado à cana-de-açúcar. Para ele, é preciso encontrar alternativas viáveis no amido (mandioca, batata, beterraba, inhame etc.) e na celulose (o chamado etanol de segunda geração, produzido a partir de material celulósico, como madeira e restos de culturais agrícolas, ou resíduo da linha industrial, como palha e bagaço de cana ou capim), além do desenvolvimento de processos tecnológicos industriais, fundamentais para baixar o custo da produção. “O álcool de celulose é uma grande saída. O entrave é a falta de domínio suficiente de etapas críticas da tecnologia, na escala industrial. É importante investir e valorizar a pesquisa.”

Tempo
 “Não é fácil formar um acervo adequado de conhecimentos que levem rapidamente a tecnologias inovadoras para a indústria dos biocombustíveis. Qualquer avanço mais significativo requer investimento contínuo em pesquisa, acompanhado por formação de especialistas para começar a trabalhar produtivamente. E isso leva tempo”, pontua. Segundo ele, antes da época do Proálcool, já existiam as usinas de açúcar, que foram aproveitadas para também produzir o etanol. “No caso da cana-de-açúcar, há um sistema agrícola funcionando. De qualquer modo, a matéria vegetal precursora dos biocombustíveis vem da agricultura empresarial ou familiar. É mais complexo do que a produção do petróleo, por ter mais variáveis em jogo”, acrescenta.

A principal questão é que “os biocombustíveis disputam os mesmos materiais precursores dos alimentos humanos”, lembra o vice-coordenador da pós-graduação. A época é relevante para a discussão da ampliação da produção de biocombustíveis. Ela vem atrelada a outra discussão internacional sobre a mudança do clima e a tentativas do aumento da produção de energias renováveis, com consequente diminuição de emissão e do acúmulo, na atmosfera, do dióxido de carbono liberado por combustíveis fósseis, como o petróleo e o carvão. Como o Brasil apresenta condições naturais (luz, calor) favoráveis aos biocombustíveis, é preciso que tome a frente para se tornar, no futuro, líder no biodiesel ou no etanol no mercado internacional. “A competitividade é a garantia de futuro para o Brasil nesse setor energético.”

Mais recursos humanos

O programa bi-institucional de pós-graduação, constituído por associação ampla entre a Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), nasce recomendado com conceito 4 pelo Conselho Técnico-Científico da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O objetivo é formar recursos humanos qualificados para multiplicação e aplicação de conhecimento relacionado à área, além de estimular o desenvolvimento de pesquisas e tecnologias para a produção de biocombustíveis, bioenergia e insumos químicos derivados de biomassa verde.

O programa, por sua aproximação com a pesquisa tecnológica, tem como principal repositório de desafios acadêmicos e tecnológicos as demandas por energia. Por razões de inserção geográfica e pelo destacado potencial na produção de biocombustíveis, no cenário nacional, Minas Gerais será importante foco de ações. O estado é o segundo maior produtor de cana-de-açúcar do Brasil e tem recebido grandes investimentos para a expansão da área canavieira. Desde 2008, Minas ultrapassou o Paraná em área de cana-de-açúcar colhida e se mantém em segundo lugar, atrás de São Paulo, até os registros de 2011 (veja gráfico).

Nesse cenário, a UFVJM, com área de abrangência nos vales do Jequitinhonha e do Mucuri e no norte do estado, e a UFU, com atuação no Triângulo Mineiro, dispõem de campo de trabalho abundante no contexto das biomassas energéticas. Sem falar do diversificado parque industrial do estado, também rico em setores que demandam pesquisa e desenvolvimento na área de energia da biomassa. No Norte de Minas, em Montes Claros, a Usina de Biodiesel Darcy Ribeiro, a maior do estado, é foco de disseminação e promoção de atividades agroindustriais, voltadas para os biocombustíveis.

O Triângulo Mineiro concentra várias usinas sucroalcooleiras e outras tantas de biodiesel. Minas tem se preparado para receber indústrias de biorrefinaria e biotecnologia, e muitas empresas, de capital nacional ou estrangeiro, vislumbram o estado como local adequado para a instalação de empresas de base tecnológica, principalmente relacionadas com os setores de alcoolquímica, sucroquímica, oleoquímica, e mesmo a implantação de tecnologias emergentes, como o etanol de segunda geração. (LM)

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