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Sertanejos descobrem o mar por museu de oceanografia no semi-árido

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postado em 26/03/2013 13:29 / atualizado em 26/03/2013 13:32

Diário de Pernambuco

Até hoje, o sertão nunca virou mar. A profecia, comumente atribuída a Antônio Conselheiro, líder da resistência da Guerra de Canudos, na verdade, ecoava na região do semi-árido bem antes do sertanejo. No entanto, os mistérios de um oceano ainda pouco conhecido e desbravado acabou sendo levado ao interior de Pernambuco muito antes da capital, que sempre insistiu em esbravejar pioneirismo. É junto a estradas de barro e em frente a cactos e mandacarus que está localizado o primeiro museu oceanográfico do Nordeste. O laboratório da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), no campus de Serra Talhada, acaba de completar o primeiro aniversário de abertura para visitação popular desde a inauguração. 

A ironia do projeto, inspirado na máxima “o sertão vai virar mar”, é ter sido construído justamente porque seis entre cada dez jovens locais, com idade entre 5 e 15 anos, nunca estiveram no mar (nem o conheciam). Marcos Henrique Lopes de Barros, 7, é apenas um dos garotos que circulam pelos corredores da academia. Aluno do 1° ano fundamental, sempre que possível, passa horas interagindo com os jogos eletrônicos com bichos oceânicos, dispostos nos dois corredores do museu. A dobradinha “tecnologia + animais” normalmente não falha e deixa crianças como Marcos Henrique fascinado. Olhos vidrados na tela, movimentando uma baleia digitalizada, fala pouco sobre a relação com o lugar, quase mágico: “É bonito. Muito divertido”.

Cerca de quatro mil pessoas já passaram pelo Museu de Oceanografia de Serra Talhada. São algumas centenas de fósseis, conchas, invertebrados marinhos e até lixo marinho. Para encher os olhos dos mais jovens, réplicas de navios, simulador de tsunami (que, convenhamos, não tem perigo de atingir o sertão) e muitos jogos interativos, físicos e eletrônicos, que exibe sempre o selo “é proibido não tocar”.

 

De acordo com a coordenadora do projeto, a professora de oceanografia Jacqueline Santos Silva, apesar de parecer estranho, o contexto do mar no serão não é tão alheio à academia. Isso porque a UFRPE mantém cursos como o de engenharia de pesca na região, que pode ser direcionado ao desenvolvimento animal em açudes e rios, bem como experiências e estudos com espécies marítimas. “Queremos fomentar esse conhecimento desde cedo na população, por isso, temos muito material voltado ao ensino fundamental, mas o acervo também agrada aos adultos. É uma forma de expor e ensinar conteúdos de sala de aula com recursos simples e visuais”, explica.

Inspirada em outro grande ditado, “Se Maomé não vai à montanha…”, a equipe do museu também promove exposições itinerantes em sedes de ONGs e escolas públicas dos municípios vizinhos, como forma de viabilizar a disseminação do conhecimento sobre o oceano. Além disso, estudantes e profissionais mantém atualizada a página www.diariodeummuseu.com.br, na rede mundial de computadores. E se há quem julgue ser contrasenso estudar o oceano em pleno sertão, cabe ao sábio Riobaldo, de Grande Sertão Veredas, a justificativa: “no centro do sertão, o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juízo”. Que assim seja.

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