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O vício a um clique

Segundo pesquisa australiana, anúncios que convidam internautas a experimentarem jogos on-line gratuitamente são uma poderosa porta de entrada para a compulsão por apostas. Os cassinos pela internet têm atraído principalmente os jovens

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postado em 27/03/2013 19:00 / atualizado em 27/03/2013 11:55

Paloma Oliveto

Não é preciso entrar em um site de apostas. Na verdade, não é preciso sequer pensar em apostas para ser conduzido ao cassino virtual. Basta estar conectado à internet que, a qualquer momento, um pop-up surge na tela, convidando o usuário a experimentar o jogo, de graça. Enquanto muitos simplesmente fecham o anúncio, muitos outros decidem experimentar. Afinal, não precisam pagar nada para começar e têm à disposição uma quantidade variada de jogos atraentes, que vão da tradicional roleta a aventuras eletrônicas protagonizadas por heróis de quadrinhos. De acordo com uma pesquisa da Universidade de Adelaide, na Austrália, graças à estratégia de permitir que as pessoas joguem sem pagar (e ainda ganhem bônus e concorram a prêmios), sites de apostas estão conseguindo viciar pessoas, principalmente jovens e mulheres, que, de outra maneira, talvez nunca se interessassem por um cassino.

No Reino Unido, onde os jogos de azar on-line já são considerados uma epidemia, esse negócio movimenta 2 bilhões de libras por ano e, de acordo com estudos recentes, 1 milhão de pessoas estão sob o risco de dependência.

A quantidade de indivíduos que já foram diagnosticados e estão se tratando dobrou em seis anos, chegando a meio milhão. Enquanto isso, o número de sites especializados passou de 30, em 1994, para mais de 2,2 mil em 2009, quando foi realizada uma espécie de censo dos cassinos on-line de todo o mundo. Os números impressionantes fazem com que o parlamento britânico comece a considerar a possibilidade de banir esse tipo de site do país. Nos Estados Unidos, onde o jogo é permitido, o governo também está fechando diversos sites, acusados de lavagem de dinheiro e fraude fiscal. A forma encontrada pelos donos dos cassinos virtuais para continuar as apostas foi criar uma moeda chamada boitcoin, que vale US$ 13 e pode ser comprada tranquilamente em caixas eletrônicos encontrados em supermercados e farmácias. O uso dos boitcoins, estratégia também adotada por traficantes de droga, é restrito para americanos; usuários de outros países continuam pagando em dólar.

Isso vale para brasileiros também. Embora, no Brasil, jogos de azar sejam proibidos, os apostadores virtuais não encontram problemas para entrar em sites estrangeiros e fazer apostas pagando com cartão de crédito internacional. Quem prefere pode também jogar em sites em português, que aceitam o real como moeda. Apesar de ilegais, há diversos cassinos on-line brasileiros, hospedados em servidores de outros países, geralmente da Inglaterra, que oferecem todos os jogos possíveis, com as opções de “treinar” ou “ganhar dinheiro para valer”.

Os apostadores podem baixar os jogos para o treino e depois fazer apostas em tempo real. Existem até mesmo aplicativos para celular, com roleta e blackjack. A facilidade de entrar nesse mundo, antes restrito a poucos, é apontada por especialistas como a causa do aumento no número de viciados em jogos de azar. “As apostas on-line levaram para dentro de casa uma atividade que, até pouco tempo atrás, estava restrita a um público essencialmente mais velho e masculino”, diz Henrietta Bowden-Jones, diretora de uma clínica para dependentes na Inglaterra. De acordo com ela, além dos jovens, as mulheres estão cada vez mais envolvidas nos jogos virtuais — 44% dos apostadores já são do sexo feminino no Reino Unido. Bowden-Jones afirma que o perfil social das jogadoras é variado, mas as consequências do vício são iguais: perda de dinheiro, isolamento e negligência com os filhos. “Elas podem passar até 10 horas na frente do computador, alimentando seu vício, enquanto as crianças choram de fome”, diz.

Estratégia
No estudo da Universidade de Adelaide, a estudante de psicologia Tahnee Frahn optou por estudar o comportamento de jovens diante dos cassinos virtuais. Ela recrutou um grupo de 128 pessoas entre 18 e 24 anos para jogar em um simulador de sites de apostas. De acordo com Frahn, pesquisas anteriores mostram que a modalidade gratuita de jogos encontrada na internet fornece uma ideia irreal de rápido retorno financeiro para os jogadores, que são encorajados com pop-ups e e-mails para continuar jogando. “Mas essas mensagens lembram que, para ganhar dinheiro, o usuário vai precisar pagar antes de continuar o jogo”, diz a estudante de graduação.

A pesquisa de Frahn investigou os efeitos psicológicos das promessas de retorno financeiro que pulam na tela enquanto os jogadores praticavam videopôquer em um simulador de sites. Primeiro, eles jogavam na modalidade gratuita e, depois, na paga, na qual podiam apostar por dinheiro de verdade. Os dois grupos que ganharam muitas vezes quando jogavam de graça e, consequentemente, recebiam insistentes mensagens simultâneas que prometiam a eles muito dinheiro, foram os que, ao mudar para o modo pago, mais compraram fichas de apostas. Segundo Frahn, quando são induzidas a pensar que poderão faturar bastante, as pessoas tendem a correr mais riscos. Na modalidade gratuita, elas pensam que estão praticando e se tornando melhores no jogo, quando, na verdade, isso não passa de uma estratégia de programação dos sites.

Mesmo os jogadores mais calejados podem perder todo o dinheiro. “Eles acham que estão se aperfeiçoando, mas, na realidade, não há prática que faça você ficar melhor em jogos como máquinas de pôquer. Essas máquinas só tiram o dinheiro do jogador”, alerta a estudante de psicologia. Enquanto, no jogo de mesa, as pessoas realmente podem se tornar profissionais ao praticarem os truques e blefes, nas máquinas e nos sites, o adversário é um software, programado para perder algumas vezes e ganhar em quase todas. Tahnee Frahn afirma que é preciso fazer mais estudos sobre os perigos dos cassinos on-line, pois as pesquisas são limitadas, ao mesmo tempo em que aumenta o número de sites do tipo.

Brent Conrad, psicólogo clínico da Universidade de St. Mary, no Canadá, e diretor de um centro de estudo e tratamento de vícios tecnológicos, acredita que as apostas on-line são muito mais traiçoeiras do que o jogo presencial. “Se uma pessoa fica dois ou três dias jogando sem parar em um cassino, alguém vai reparar. Mas apostadores on-line podem jogar no trabalho, em casa e mesmo em smartphone sem que ninguém perceba. Há muitos outros problemas: em países onde o jogo é proibido, as pessoas podem passar por cima da lei; toda compra pela internet parece menor, pois o indivíduo não está vendo o dinheiro ir embora, além de que muitos desses cassinos são fraudulentos e podem usar as informações de cartão de crédito inadvertidamente”, alerta. Um grande problema, segundo Conrad, é o tratamento. Tradicionalmente, os jogadores precisam evitar contato com cassinos, mantendo-se longe desses estabelecimentos. No caso das apostas on-line, o desafio é muito maior. “Como, hoje, alguém consegue ficar desconectado da internet? Isso é praticamente impossível”, afirma.



O controle é uma ilusão

Tradicionalmente, os psicólogos caracterizam o vício em jogar como um distúrbio do controle compulsivo e tratam o problema abordando as tendências obsessivas dos pacientes. Porém, de acordo com um estudo da Universidade de Tel Aviv, em Israel, nem todos os jogadores patológicos se encaixam em um mesmo perfil. Pinhas Dannon, pesquisador da Faculdade de Medicina da instituição, lembra que, embora geralmente se associe esse vício a cassinos e jogos de carta, também há quem se torne dependente das apostas esportivas. “Apostadores esportivos acreditam que são os mais espertos dos jogadores. Eles acham que, com experiência e conhecimento, como as estatísticas de um atleta e de um time, a capacidade do estádio, os hábitos do treinador e as condições meteorológicas, eles podem predizer o resultado de um jogo melhor do que qualquer outra pessoa”, diz Dannon.

Em um estudo publicado na revista médica Psychopathology, nem a experiência em apostas nem o conhecimento profundo de um time estão conectados a um resultado bem-sucedido. Ao contrário, entre os jogadores participantes do estudo, os dois que mais ganharam dinheiro com apostas não tinham experiência anterior com a prática nem conheciam o esporte em questão.

Os resultados indicam que os apostadores esportivos operam sob a ilusão de controle e poder, diz Dannon. Segundo ele, isso é importante para que os psicólogos saibam como abordar esse tipo de jogador, que precisa ser tratado com métodos diferentes daqueles usados com viciados em jogos de azar. No estudo, o pesquisador se focou no campo das apostas em times de futebol, uma das formas mais populares e crescentes de vício em jogos esportivos.

Mito
Dannon recrutou três grupos de participantes, incluindo 53 apostadores profissionais; 34 fãs de futebol que conheciam bem o esporte, mas numa haviam apostado; e 78 pessoas que nem faziam apostas nem eram muito familiares com o futebol. Todos tiveram de dar palpites sobre o resultado de 16 partidas da Liga dos Campeões, disputada pelos times europeus. Para vencer, os apostadores dessa modalidade têm de acertar o placar final exato.

Acreditava-se que os participantes que conheciam o esporte deveriam ter uma taxa de sucesso maior, mas ela não se mostrou melhor do que a verificada entre os dois outros grupos. Dannon ressalta que isso não indica que ser inexperiente é uma vantagem — muitas pessoas que não estavam acostumadas com apostas e pouco sabiam sobre futebol também não conseguiram acertar o placar. Mas o resultado da pesquisa expõe o mito de que o conhecimento é uma vantagem poderosa no ramo das apostas. “O senso de controle que encoraja apostadores esportivos é apenas uma ilusão”, destaca o pesquisador.

Apesar dos perfis diferentes, esse tipo de apostador é tratado da mesma forma que pessoas viciadas em jogos de azar. Esses métodos, contudo, não podem ajudá-los, diz Dannon. “Apostadores esportivos precisam receber terapia cognitiva, que freia esse hábito de pensar que a pessoa está sempre no controle”, ensina. Já os apostadores de cassino sabem que, cedo ou tarde, vão perder, embora não consigam parar, devido ao comportamento obsessivo. Por isso, necessitam de estratégias de tratamento diferentes.
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