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Ciência

A vantagem de "perdoar"

Segundo estudo britânico, existe um benefício evolutivo para os machos que cuidam de filhotes gerados por outros indivíduos. Além de evitar o risco de abandonar a própria prole, permanecer ao lado da fêmea infiel aumenta as chances de voltar a procriar e passar os genes adiante

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postado em 28/03/2013 19:00 / atualizado em 27/03/2013 11:51

Para a maioria das espécies, a paternidade é uma incógnita. Enquanto diversos mecanismos biológicos não deixam dúvida de quem é a mãe, os machos, sem saber, podem cuidar de um filhote que não é o dele durante toda a vida. Por muito tempo, pensou-se que os machos, em geral, só embarcavam na exigente tarefa quando acreditavam que a prole não era fruto de uma “traição” — comportamento que evitaria o emprenho de esforços para favorecer os genes de um competidor. Contudo, em artigo publicado na revista Plos Biology, pesquisadores das universidades de Lund, na Suécia, e de Oxford, na Inglaterrra, mostram que a estratégia evolutiva pode ser bastante diferente do imaginado. Embora haja exceções, os autores apontam que os machos não diminuem os cuidados com os filhotes sob o véu da dúvida da paternidade.

“Depois de 40 anos de pesquisas, menos de 50% dos estudos conseguiram achar suporte para a teoria de que os machos reduzem os cuidados com os filhotes quando as fêmeas acasalam com outros. Ficou claro para nós que, ao contrário, eles podem ser tolerantes à infidelidade”, analisa Charlie K. Cornwallis, principal autor do novo levantamento. Para chegar à conclusão, os pesquisadores combinaram dados de 68 estudos sobre 48 espécies.

Segundo Cornwallis, as evidências mostram que os machos não conseguem distinguir, em uma mesma ninhada, quais são seus descendentes e quais são frutos de outra cópula. “Há uma mistura dos dois, e, ao abandonar ou reduzir os cuidados, eles podem prejudicar alguns de seus próprios filhos. Consequentemente, os machos têm de pesar os custos de abandonar seus descendentes e os benefícios de economizar esforços para usar futuramente, em cruzamentos em que a paternidade será mais certa”, explica Cornwallis. Ou seja, muitas vezes, é melhor criar os filhotes, mesmo que, entre eles, existam alguns que foram gerados por outro animal, e permanecer ao lado da fêmea, aumentado as chances de procriar com ela outras vezes e, assim, aumentar a certeza de paternidade.

Para Francisco Dyonísio Cardoso Mendes, professor do Departamento de Processos Psciológicos Básicos da Universidade de Brasília, que não participou do estudo, um dos pontos mais interessantes da pesquisa é mostrar que a traição não é o único fator determinante na decisão dos machos. “É uma interação evolutiva entre os custos que o cuidado da prole vai exigir e o grau de infidelidade da fêmea. Às vezes, um aspecto compensa o outro. Se a cria exigir pouco cuidado, mesmo que o grau de traição seja alto em sua espécie, o macho pode querer continuar cuidando do filhote. Não vai custar muito caro e logo depois ele vai poder se reproduzir, talvez com a mesma fêmea”, pondera o professor.

Em termos de evolução, Mendes explica que o sucesso se refere à destreza de um indivíduo em passar seus genes para a próxima geração. Dessa forma, na hora de permanecer ao lado da fêmea para criar a ninhada, o que está em jogo é uma questão de custo-benefício. O macho pode não ter certeza se a fêmea é fiel, mas ele pode criar mecanismos para continuar próximo e, na próxima empreitada, poder emplacar sua descendência.

Particularidades
Esse processo, entretanto, não necessariamente é intencional entre os animais. No estudo, os pesquisadores utilizaram exemplos de insetos, aves, peixes e mamíferos, indo da andorinha-dos-beirais até os macacos-de-gibraltar, além do próprio homem. Para cada caso, havia uma certa particularidade. No caso dos humanos, por exemplo, o custo de cuidado é muito grande. Não é apenas fornecer uma quantia de alimento e ir embora. Já os besouros do gênero Nicrophorus são os únicos entre os insetos com um alto nível de ajuste ao cuidado paternal. Além de serem frequentemente traídos, os machos chegam a reduzir o seu próprio sucesso reprodutivo para criar os filhotes de uma ninhada atual.

A paternidade envolve proteger, alimentar, segurar e dar atenção durante muitos anos. “Nossas análises mostram que os seres humanos respondem a situações em que existe a dúvida da paternidade reduzindo o investimento no cuidado. Comparando às demais espécies analisadas, o ajuste do cuidado paterno foi bem baixo”, revela Cornwallis.

Segundo ele, a promiscuidade entre os animais se refere simplesmente a situações em que os indivíduos copulam e geram descendentes com mais de um parceiro dentro de um mesmo evento reprodutivo. Não existe uma conotação moral como nas sociedades humanas, mas, mesmo assim, observou-se que no cuidado biparental, quando as fêmeas são promíscuas, os machos reduzem em 12% o investimento na relação de cuidado. De acordo com Mendes, a monogamia não é muito predominante na natureza, existindo em uma porcentagem relativamente pequena entre os mamíferos. “Temos de ter em vista que existe a monogamia serial. A cada época, um macho e uma fêmea pareiam, mas não significa que eles vão continuar assim sempre.” O professor da UnB reforça que, antes dos exames de DNA, existia um mito de que, entre os casais de animais monogâmicos a longo prazo, a fidelidade era muito grande. Mas, nas últimas décadas, viu-se que, até nos grandes exemplos de monogamia, como os papagaios, existe traição.

Cornwallis acrescenta que um dos méritos da pesquisa foi destacar os fatores que são importantes na hora de examinar a evolução dos ajustes de cuidado da prole por machos traídos. Além de analisar o número de tentativas de reprodução feminina em que os filhotes foram gerados por vários machos, ele afirma ser preciso quantificar a relação entre o número de machos cuidadores e o de herdeiros gerados, além de considerar os benefícios para a prole quando ela é cuidada por um pai.

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