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Ciência

Caça também mata a floresta

A extinção de macacos e de grandes primatas põe em risco diversas espécies vegetais, aponta estudo da Universidade de Lund, na Suécia. Segundo especialistas, a reprodução de muitas árvores frutíferas depende desses animais, que ajudam a espalhar as sementes

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postado em 02/04/2013 19:00 / atualizado em 02/04/2013 13:16

A caça ilegal já foi apontada como a principal causa do declínio de espécies selvagens na África. Os animais, contudo, não são os únicos atingidos. De acordo com um estudo publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society B, a matança de macacos na Nigéria também está levando a vegetação ao colapso. As consequências, de acordo com os pesquisadores, são dramáticas tanto para a natureza quanto para as populações humanas que vivem próximas às florestas, pois a produção de nozes e de frutos largamente consumidos por essas pessoas entrou em declínio.

Os macacos e os grandes primatas são semeadores naturais. Ao comer as frutas, eles dispersam as sementes pela floresta, já que costumam levá-las para onde vão. Além disso, o esterco produzido lança à terra os grãos que, mais tarde, darão origem a novas árvores. Eliminar ou diminuir populações desses animais cria um desequilíbrio no ecossistema, que pode ser mais grave do que se imagina. Segundo os pesquisadores da Universidade de Lund, da Suécia, o papel de macacos pequenos e de grandes primatas na manutenção da floresta é tão importante que as áreas onde eles são facilmente caçados começam a apresentar características diferentes, com predomínio de árvores que se dispersam sem a necessidade da presença desses animais.

A caça de espécies selvagens — que, diferentemente de bois, porcos e galinhas, não seriam tradicionalmente abatidos — é chamada de bushmeat (expressão que pode ser traduzida como carne da selva). Segundo um relatório da organização não governamental Wildlife Conservation Society (WCS), a prática movimenta quase US$ 8 milhões anuais apenas em sete países do leste e do sudeste da África. Embora não seja uma atividade exclusiva do continente — a predação de aves e jacarés no Pantanal é um exemplo —, ela é mais forte nos países africanos, cujas savanas e florestas têm as mais ricas concentrações de animais selvagens endêmicos, como elefantes, zebras, leões e diversas espécies de primatas. A Ásia ocupa o segundo lugar no ranking de bushmeat, com ameaças também a macacos, além de tigres e ursos.

Pelo caminho
No estudo conduzido pela Universidade de Lund, os pesquisadores compararam áreas de proteção ambiental, em que gorilas e os pequenos macacos estão mais seguros, a regiões que costumam ser atacadas por caçadores. Nas reservas, a população de primatas é o dobro do observado em florestas sem programa de preservação, diz o biólogo Ola Olsson, principal autor do artigo. Na vegetação, o desequilíbrio no número de espécimes se reflete quase que na mesma proporção: nos locais onde há maior concentração de macacos e gorilas, há duas vezes mais jovens árvores frutíferas. Já nas florestas desprotegidas predominam plantas que não necessitam de animais para semeá-las.

Olsson explica que, enquanto pequenas sementes viajam graças ao vento ou à ação de insetos, as que darão origem às árvores frutíferas são maiores e não podem ser movidas tão facilmente. “Muitas sementes não vingam a não ser que passem pelo intestino de um primata. É no topo do fertilizante natural desses animais que elas vão crescer”, diz o biólogo. De acordo com ele, para plantas frutíferas, a semente tem maior chance de sucesso quanto mais longe ficar da árvore que a produziu. Isso porque os frutos maduros são um atrativo para animais famintos, que, ao remexer o solo para recuperar uma manga, por exemplo, podem acabar removendo as sementes antes que elas se fixem na terra.

Já quando o primata devora uma fruta, ele demora horas para digeri-la e, no momento de “semeá-la”, provavelmente estará longe da árvore madura. Não é apenas pelo excremento que macacos e grandes primatas ajudam a espalhar sementes. “Eles fazem o mesmo que nós na presença de uma cerejeira: enchem a boca de fruta, comem e vão cuspindo as sementes pelo caminho. Os pequenos macacos são particularmente bons nessa tarefa”, conta o biólogo. Contudo, essa eficiente estratégia natural já não é vista com tanta frequência em regiões da Nigéria em que o acesso de caçadores a animais selvagens é fácil. E, quanto menos espécimes para semear, menores as chances de árvores frutíferas florescerem. “Sem que nenhuma árvore venha abaixo, a caça tem um efeito tão dramático na composição e na estrutura da floresta quanto o desmatamento”, observa Olsson.

 

Economia e cultura
As causas do bushmeat são variadas e complexas. A pobreza é um dos principais fatores de risco, mas, de acordo com o relatório da WCS, interesses da indústria também estão por trás do problema — caso de mineradoras, hidrelétricas e companhias de combustível fóssil, que estimulam o abate para ocupar áreas dominadas por animais selvagens. O crescimento populacional, a crise na produção de alimentos e as muitas guerras civis que devastaram o continente africano ao longo do século 20 são outros motivos elencados por especialistas.

“O bushmeat também já foi identificado como um importante suplemento proteico na dieta de muitas populações rurais que passam por longos períodos de escassez alimentar”, explica Peter Arcese, ecólogo da Universidade de British Columbia, no Canadá, e um dos maiores pesquisadores do assunto. De acordo com ele, embora a caça de animais selvagens sempre tenha sido uma atividade de subsistência na África, ela era muito pequena para provocar distúrbios nos ecossistemas. Contudo, os fatores sociais e econômicos estão fazendo com que se recorra a esse recurso de forma descontrolada. Segundo o documento produzido pela WCS, na República da Libéria, por exemplo, estima-se que a carne de animais selvagens esteja no prato de mais de 70% dos habitantes. Esse país da África Ocidental ainda se recupera de duas grandes guerras civis e tem um dos piores índices de desenvolvimento humano no planeta, de 0,388, o que o coloca no 174º lugar no ranking das Nações Unidas.

Aos problemas sociais, somam-se questões culturais. “A aquisição de troféus de animais como artefato cultural ou adorno pessoal é uma prática comum em regiões típicas de floresta. Muitos desses animais não são caçados por causa da carne, mas pelos artefatos. Também há crenças de que eles têm propriedades medicinais ou conferem alguma importância social simbólica”, destaca um estudo realizado em Uganda pela WCS (Socioeconomics of bushmeat hunting in Uganda). O documento indica, contudo, que não se pode responsabilizar apenas os habitantes locais, pois o comércio internacional tem papel importante no bushmeat. Quando não é para consumo próprio, caçadores entram na floresta para providenciar “encomendas” do mercado externo: seja itens de adorno — até cabeça de gorila é valorizada —, seja a própria carne, pelo caráter exótico.

Ola Olsson concorda que não há solução fácil para o problema. “Não é razoável falar para populações pobres na Nigéria pararem de comer macacos para salvar as árvores frutíferas”, reconhece. No entanto, ele lembra que, assim como os animais, os homens também precisam da floresta. “Os frutos são uma fonte importante para a alimentação de vilarejos inteiros”, conta. Segundo Olsson, ao conversar com locais e explicar aos moradores que a vegetação estava ameaçada devido à queda no número de espécimes de primatas, houve interesse em mudar a situação. O pesquisador reconhece, porém, que isso não é o bastante. “Estratégias que atendam as demandas da população e, ao mesmo tempo, possibilitem a conservação ambiental são extremamente complexas e envolvem diversas instâncias. Mas temos de acreditar que é possível”, diz.


Palavra de especialista

Coragem e compromisso

 

“Temos de reconhecer que os extremos da pobreza, a expansão populacional, a corrupção exploradora e os conflitos étnicos em países com grandes primatas são enormes desafios para a conservação. Para proteger e dar suporte a pessoas inocentes e à vida selvagem é preciso muita coragem e comprometimento, assim como apoio internacional. Para termos sucesso, diferentes estratégias, como educação ambiental e engajamento dos legisladores, são imperativas. Estratégias isoladas são fadadas ao insucesso.”

Anthony L. Rose,
conservacionista do Instituto
Biosinergia, na Califórnia


Adeus a Pattycake


O Zoológico do Bronx informou que Pattycake, o primeiro gorila nascido em um cativeiro de Nova York, morreu no domingo, aos 40 anos. O animal estava sob cuidados médicos devido à idade avançada e era tratado por problemas cardíacos crônicos. “Pattycake era o gorila mais conhecido do Zoológico do Bronx e uma instituição da cidade de Nova York”, afirmou o diretor do zoo, Jim Breheny. “Milhões de crianças nova-iorquinas cresceram com Pattycake. Ele era um animal muito especial e sentiremos profundamente sua falta”, acrescentou. Pattycake nasceu no Zoológico do Central Park em 3 de setembro de 1972, filho de Kongo e Lulu, e logo virou um mascote da cidade. Em 1983, foi transferido para o Bronx, onde passou alguns anos no hospital devido a uma fratura em um braço. Pattycake deixou como descendentes 10 gorilas, entre eles dois gêmeos nascidos em 1995, que moram hoje nos zoológicos americanos de Omaha, Louisville, Utah, Detroit, Boston e Buffalo. O zoo do Bronx abriga atualmente 18 gorilas.

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