Tribuna jovem

Respeito às diferenças, segurança, educação, saúde e alimentação são prioridades apontadas por estudantes na Comissão de Direitos Humanos do Senado. A audiência contribuirá para os Objetivos do Milênio da ONU

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postado em 05/04/2013 19:00 / atualizado em 05/04/2013 11:12

Gabriella Furquim

Iano Andrade
Quarenta e dois adolescentes de escolas públicas do Distrito Federal e de Goiás participaram ontem de uma audiência pública na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal (CDH). O evento faz parte da Campanha Meu Mundo — iniciativa com objetivo de escutar os jovens de todos os países por meio do site (veja Como participar).

Os depoimentos contribuirão para a construção dos próximos Objetivos do Milênio — metas traçadas pela Organização das Nações Unidas (ONU), que estarão na agenda do órgão a partir de 2015. Telefone e internet foram as prioridades elencadas por Paula Castilho, de 17 anos, enquanto alimentação e água potável são as necessidades apontadas por Beatriz Neri, de 14 anos.

Os integrantes do grupo foram os primeiros jovens do mundo a serem ouvidos pela organização. Os presentes na audiência fazem parte do Projeto Onda, da Ong Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), e foram convidados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para representar os estudantes brasileiros.

“Ninguém melhor do que eles mesmos para falar sobre  as dificuldades e os sonhos. Ameaças, preconceitos, dificuldade de ter acesso à educação”, comemora a coordenadora do projeto, Márcia Acioli. Para ela, o mais importante é os jovens saberem que há pessoas e instituições dispostas a ouvi-los. “É emocionante. Esses meninos vivem em uma realidade precária, possuem diversos direitos negados. Mas com experiências assim, eles sabem que possuem direitos e que podem falar e ter um papel na sociedade”, imagina.

Corinne Woods, representante da ONU e diretora da Campanha do Milênio, explicou que diferentemente do que ocorreu quando a organização estipulou os primeiros Objetivos do Milênio, em 2000, elaborados por especialistas, desta vez será priorizada a participação das pessoas, principalmente dos jovens. “Nossa intenção agora é entender o que é importante para eles dentro da realidade vivida”, frisou. No site da campanha, a ONU reuniu 16 temas nos quais pessoas de todo o mundo podem votar.

Meio ambiente

“Nós já conseguimos agrupar o que é importante para 250 mil jovens em todo o mundo. Os temas mais relevantes no Brasil, por enquanto, são educação de qualidade, governo honesto, saúde e proteção de rios e florestas”, informou a representante da ONU.

Cerca de 12 mil brasileiros já participaram da enquete. O representante do Unicef no Brasil, Mário Volpi, também ressaltou a necessidade do protagonismo dos jovens. “Hoje, temos 21 milhões de adolescentes no Brasil e precisamos escutá-los”, acrescentou.

Após ouvir os jovens, Corinne agradeceu a participação dos estudantes e garantiu que os assuntos levantados por eles serão discutidos em reuniões no Brasil e no mundo. “Anotei o nome de vocês e o que vocês disseram. As falas foram extremamente inspiradoras”, afirmou.

Os deputados Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Érika Kokay (PT-DF) também participaram da audiência. “É fundamental transformar em ação o que foi dito”, disse Wyllys. Kokay acrescentou que ficou emocionada diversas vezes ao ouvir os jovens. “Eu me identifiquei com o que vocês falaram e lembrei-me da minha juventude”, disse.

A realização da reunião foi requerida pela senadora Lídice da Mata (PSB-BA), que coordena, no Senado, a Frente em Defesa da Infância e do Adolescência do Congresso Nacional. A audiência foi presidida pela senadora Ana Rita (PT-ES).

Como participar

No site www.myworld2015.org é possível participar da decisão dos principais objetivos para o milênio, escolhendo até 6 dos 16 pontos selecionados pela ONU. Também é possível sugerir outras prioridades.

Votação virtual

Quais pontos são importantes para você e sua família?

» Ter uma boa educação
» Ser livre de discriminação e perseguição
» Proteger florestas, rios e oceanos
» Alimentação acessível e nutritiva
» Energia em casa » Liberdade política
» Melhores oportunidades de trabalho
» Apoio para as pessoas que não podem trabalhar
» Igualdade entre homens e mulheres
» Acesso a água potável e saneamento básico
» Transportes e vias melhores
» Um governo honesto e responsável
» Serviço de saúde melhor
» Acesso a internet e telefone
» Medidas para evitar as mudanças climáticas
» Proteção contra o crime e a violência

Fonte: Campanha do Milênio promovida pela ONU

Depoimentos

“Um governo honesto e atuante, que se preocupe com as necessidades do povo. Assim seria possível a solução de problemas como educação, acesso a alimentação de qualidade e água potável. O governo realmente preocupado é capaz de mudar tudo que falta para a população, desde que eles se preocupem e observem o que falta”

Beatriz Neri, 14 anos, moradora de Samambaia, aluna do Centro de Ensino Médio Paulo Freire

“É preciso acolher as pessoas que não podem ou não conseguem trabalhar; lutar contra a fome e oferecer escolas de qualidade. Além disso, é necessário o combate à violência. Na minha escola, só este ano, dois alunos morreram. Moro em uma comunidade violenta e esquecida”

Walisson Lopes, 17 anos, morador da Estrutural, aluno do Centro de Ensino Médio 4 do Guará

“É necessário acabar com o preconceito e com a discriminação. Tenho muito orgulho de ser quilombola, da minha cultura, de onde nasci e moro. É difícil chegar a um lugar e ser chamado de macaco. Às vezes, o preconceito não é visível, mas fica marcado na gente.”

Walissis Braga da Costa, 16 anos, morador do Quilombo Mesquita, aluno do Centro de Ensino Médio da Asa Norte (Cean)

“Educação de qualidade e liberdade política. Um liga ao outro. Só com educação é possível que as pessoas dialoguem. A educação liberta, permite que as pessoas façam escolhas. Eu me desloco 40km para chegar à escola. Trazer o ensino para perto dos jovens também é importante”

Paulo Henrique Alves, 16 anos, morador do Jardim ABC, aluno do Centro de Ensino Médio Paulo Freire

“Comunicação é um direito. Na comunidade rural em que eu moro, não há telefone nem internet. Essa ausência tira a nossa voz. A violência sexual também precisa ser combatida. Tenho amigas que foram abusadas e, nas comunidades isoladas como a minha, o silêncio desses casos é ainda maior”

Paula Gabriela Castilho, 17 anos, moradora do Lago Oeste, aluna do Centro de Ensino Médio 1 de Sobradinho

“As escolas perto da minha casa são muito ruins. Quem quer estudar precisar encarar horas de ônibus. Além disso, a escola precisa ensinar mais do que português e matemática, tem que ensinar os nossos direitos e como podemos ser cidadãos”

Lucas Daniel, 17 anos, morador do Paranoá, aluno do Cean

“Minha comunidade é pequena e isolada. Só há médico duas vezes por semana. Você só pode passar mal nesses dias. É necessário oferecer saúde de qualidade e não esquecer as comunidades pequenas. Vivemos de lado, esquecidos. A minha escola fica a 36km da minha casa”

Daniele Cunha, 14 anos, moradora da comunidade São Bartolomeu, em Cristalina, aluna do Ensino Fundamental na cidade

“É difícil eleger um direito acima dos demais. Acredito que é necessária a plenitude dos direitos. Todos são importantes. Educação, saúde, cultura. Eles precisam ser preservados. Moro em uma comunidade que tem como base da economia o lixo. É violenta e ignorada pelo governo”

Israel Victor de Melo, 17 anos, morador da Estrutural, aluno da Universidade de Brasília, ex-aluno do Centro de Ensino Médio 4 do Guará 
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