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Perfis do robô Curiosity nas redes sociais conquistam milhares de seguidores com textos descontraídos e escritos em primeira pessoa

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postado em 15/04/2013 12:27

Roberta Machado

O laboratório móvel Curiosity chegou a Marte em agosto sob os brados de comemoração de cientistas que trabalhavam nos laboratórios espaciais da Califórnia. Uma multidão reunida na Times Square, em Nova York, também gritava “Ciência! Ciência!”, animadamente, enquanto acompanhava as notícias por um telão. Mas, entre os clamores de vitória pelo passo fundamental na conquista espacial, uma exclamação se destacou: “CRATERA GALE, EU ESTOU EM VOCÊ!!!”. A afirmação partiu do próprio robô espacial — ou melhor, da conta que a Agência Espacial Norte-Americana (Nasa) mantém em nome da máquina na rede social Twitter.

O microblog é apenas uma das páginas na rede que exibem no perfil a foto do laboratório móvel. Curiosity também tem contas no Foursquare, no Facebook e no Google +, cada uma com mensagens, vídeos e fotos diferentes postados diariamente. Apenas na rede do pássaro, o robô coleciona 1,3 milhão de seguidores, que acompanharam a decolagem, a viagem e o pouso da máquina em Marte em tempo real. Seguir as novidades por esses canais se torna uma experiência diferente, porque tudo é postado em primeira pessoa, como se o rover estivesse de fato partilhando seus pensamentos solitários com o público por meio da rede.

Entre as atualizações do Facebook estão frases como “Marte não tem a atmosfera que costumava ter, mas ainda é bem dinâmica”, ou “Olhe o que eu fiz! É um buraco na primeira rocha de Marte”. A linguagem é sempre informal e animada. Assim como qualquer internauta, a máquina posta fotos que tira de si mesmo e comenta o clima de Marte. O rover ainda surpreendeu a todos ao fazer o primeiro check-in interplanetário no Foursquare em outubro. O site já criou uma badge com o título “Curiosity Explorer”, que pode ser ganhada ao curtir o perfil da Nasa na rede ou fazendo o check in em um museu ou planetário da agência.

Quem está por trás dos posts, no entanto, não é a inteligência artificial. Três mulheres de carne e osso são encarregadas de manter as contas atualizadas. Se meio bilhão de pessoas vibraram ao ter o primeiro contato com o espaço quando viram o homem pisar na Lua pela televisão, hoje qualquer um pode mandar perguntas diretamente para a agência pelo smartphone. “As pessoas dizem que não tinham ideia de como é operar uma missão espacial. Eles só ouvem dela quando é lançada, quando pousa ou quando algo dá errado, e isso sai no jornal. Nunca tivemos esse retorno antes”, comenta Veronica McGregor, responsável pela comunicação do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da Nasa.

Personalidade
A princípio, a conta do Twitter era usada para divulgar links com vídeos e matérias sobre o desenvolvimento da missão. O perfil chegou a ser usado até mesmo para divulgar o concurso que escolheu o nome para o robô. Mas, conforme o lançamento se aproximava, cada passo do trabalho passou a ser divulgado pela equipe de comunicação terrestre como uma viagem de férias. “O grupo chegou a trabalhar no fuso horário de Marte nos primeiros 90 sóis (sol é o nome dado ao dia marciano, que dura 24 horas 39 minutos e 35,244 segundos). Assim, a informação chegava logo. Mas agora seguimos um horário comum, com um ou dois tuítes por dia”, explica Stephanie Smith, uma das autoras dos posts.

A narrativa que coloca as falas do Curiosity em primeira pessoa tinha a princípio o objetivo de economizar espaço nos 140 caracteres permitidos pelo microblog. Mas logo a equipe notou que a linguagem pessoal e as referências à cultura popular fizeram crescer o interesse do público. “Quando começamos a tuitar em primeira pessoa, os internautas imediatamente começaram a responder. Apareceu gente que queriam falar, fazer perguntas”, anima-se McGregor. A linguagem também serve para explicar com mais simplicidade os complicados termos das missões espaciais.

Assim, o equipamento do tamanho de um carro utilitário em funcionamento a mais de 50 milhões de quilômetros da Terra ganhou personalidade. Curiosity (que nos EUA é tratada no feminino) é uma máquina bem-humorada, que usa emoticons e trocadilhos. Ela gosta de pedras, de filmes antigos e de Pink Floyd. Como qualquer garota popular, ela logo fez perfis em outras redes sociais. Entre os conteúdos postados estão imagens da primeira rocha perfurada, um GIF do paraquedas abandonado no pouso e fotos que ela tirou de si mesma. A presença social da missão espacial na rede resultou, na semana passada, em duas indicações ao Webby Awards, um dos principais prêmios da internet.

Outra prova do sucesso da presença de Curiosity na internet foi a criação do perfil @SarcasticRover, que brinca com a ideia dos pensamentos de um robô abandonado em outro planeta, fazendo pouco mais do que ver e perfurar rochas. “Encontrar vida em Marte é como encontrar amor na Terra. Você está sozinho e demora para sempre, e além disso você é um robô gigante”, lamentou um dos posts. A conta, mantida por um canadense, ganhou o prêmio na categoria Não Humano no Shorty Awards na semana passada, depois de fazer sucesso com o bordão “let’s do a science!” (“vamos fazer uma ciência”, em português).

Espaço na rede
A Nasa chegou ao Twitter em 2008, como uma forma de divulgar o pouso da expedição Phoenix em tempo real. O sucesso inesperado fez a agência entrar de cabeça nas mídias sociais. Hoje, das mais de 60 missões espaciais do JPL em andamento, cerca de metade conta com ao menos um perfil na rede. A primeira frase a chegar do espaço de verdade veio em 2010, do astronauta Timothy Creamer. Depois de estabelecer conexão direta com a internet terráquea, @Astro_TJ fez história ao entrar em contato com os internautas por conta própria, sem ter a mensagem encaminhada por outras pessoas.

Hoje, a equipe espacial consegue se conectar à internet por meio de um acesso remoto do computador do Controle da Missão. Por enquanto, o rover marciano não consegue fazer o mesmo. Mas, com o sucesso na rede, não seria surpresa se uma missão tripulada a Marte fosse documentada com um post no Facebook ou em outra rede social que estiver fazendo sucesso depois de 2030. Seriam poucos caracteres para o homem, mas um grande marco para a humanidade internauta.
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