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Ciência

Em defesa da sala de aula

Vencedor do Nobel de Física propõe, na revista Science, que professores universitários não valorizem apenas a pesquisa e se dediquem mais à formação dos futuros cientistas. Para especialistas brasileiros, falta de interesse pelo ensino também é um problema no país

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postado em 19/04/2013 12:46 / atualizado em 19/04/2013 13:02

Apesar de a educação ser reconhecida há um bom tempo como direito fundamental e essencial ao ser humano, ainda hoje existem vários desafios a serem superados. Os problemas não se limitam aos países mais pobres. As grandes potências econômicas também são confrontadas com a árdua tarefa de identificar e reverter os principais obstáculos ao progresso do ensino básico e superior. A renomada revista científica Science traz na edição desta semana um especial que discute vários aspectos envolvidos na aprendizagem e no processo de construção do conhecimento. Em artigos independentes, pesquisadores abordam as barreiras encontrados nas salas de aula, na estrutura do sistema de ensino, ou mesmo na sociedade envolvente.

Um dos grandes destaques da publicação é o trabalho do físico estadunidense Carl Wieman, que recebeu o Nobel de Física em 2001 pela criação experimental do condensado de Bose-Einstein. Reconhecido por desenvolver pesquisas de ponta, o físico também é engrandecido por seu empenho nas salas de aula. Segundo ele, a forma como a maioria dos centros de pesquisa na América do Norte ensina ciência aos alunos de graduação é pior do que ineficaz, “é anticientífico”. Desde que tomou para si a missão de educador, Wieman diz não entender por que as instituições de ensino superior ainda hoje desconsideram décadas de pesquisas que mostram a superioridade da aprendizagem ativa em relação aos tradicionais 50 minutos de palestra em que o professor fala, e os alunos somente escutam.

A aprendizagem ativa é o processo pelo qual um comportamento é modificado pela experiência, um método que pode ser aplicado em salas de aula presenciais ou a distância. Ela envolve atividades destinadas a promover o desenvolvimento físico, intelectual e emocional dos alunos. O que pode incluir jogos, educação sensorial, socialização, incentivo ao raciocínio lógico e mesmo educação física. Outro elemento ressaltado pelo vencedor do Nobel é a prática deliberada, que consiste, basicamente, em investir horas praticando aquilo que se quer aperfeiçoar ou aprender. A ideia, desenvolvida pelo psicólogo K. Ander Ericsson, da Universidade do Estado da Flórida, entende o cérebro como um músculo que precisa ser exercitado para funcionar em seu pico. Então, assim como um atleta treina rigorosamente para alcançar uma performance de elite, os alunos precisam ser incentivados a resolver um conjunto de tarefas ao mesmo tempo desafiadoras e factíveis para um bom desenvolvimento cognitivo.

Nisso, o papel do educador é fundamental. “Há toda uma indústria dedicada a medir o quão importante minha pesquisa é, ou em mensurar qual é o impacto de meus artigos. No entanto, nós nem mesmo coletamos informações sobre a maneira que eu ensino. Isso não recebe atenção nenhuma”, reclama Wieman em seu artigo na Science. Ele defende que, se o ensino permanecer ofuscado, as universidades se acomodarão a dedicar o mínimo possível para tornar o ensino eficaz e continuarão investindo a maior parte do tempo e dinheiro em pesquisa. Longe de desconsiderar a importância da produção de conhecimento a partir das pesquisas, o que o físico defende é uma equiparação das duas bases, que são fundamentais dentro da lógica do ensino superior.

Status
No Brasil, apesar das diferenças, muitas das críticas expostas por Wieman são compartilhadas por pensadores da educação. Remi Castioni, professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), lamenta o fato de hoje o professor não ser valorizado porque dá aula. “Se pudesse, grande parte dos professores universitários não dariam aula. Ficariam trancados no laboratório produzindo artigos, porque é o que dá status. Você é valorizado pelo número de artigos em periódicos.” Nesse contexto, o mínimo de oito horas semanais de aulas efetivas para os professores das instituições federais — definidas pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional — acabam se tornando o máximo, diz Castioni. “Dificilmente, você consegue fazer um professor na universidade dar mais de oito horas aula por semana. O problema também é que poderíamos ter outro formato. Atividades como encontros e a organização dos alunos em grupos menores de tutoria também poderiam ser contabilizadas como horas-aula”, opina.

Para o pedagogo, o ideal seria uma combinação entre ensino e pesquisa, além de uma reorganização do espaço da ocupação docente. Uma das estratégias propostas por ele é estimular que as sumidades de cada curso, os professores com grande destaque, por sua evolução na carreira acadêmica, sejam colocadas para dar aulas introdutórias para os calouros, e não só para as disciplinas avançadas. Segundo ele, isso poderia estimular os jovens que acabaram de ingressar na universidade a se interessarem pelo curso. Outra questão é evitar a evasão dos alunos de destaque para os laboratórios logo no início de sua trajetória acadêmica. “Nas licenciaturas, o aluno que se destaca em química, física, biologia é imediatamente recrutado para o laboratório e abandona a licenciatura. Nossos cursos têm uma competição interna muito forte. Com isso, perdemos um potencial de grandes professores”, lamenta.

Clarilza Prado de Sousa, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC SP), acrescenta que, enquanto na pós-graduação, os professores pesquisam em conjunto com o aluno e estabelecem uma relação mais próxima, na graduação, o contrato do professor precisa equilibrar melhor as horas exigidas na sala de aula. “A estrutura de contrato do trabalho do professor tem que levar em consideração as horas que ele gasta para planejar as aulas.” Para ela, uma avaliação do ensino superior adequada não pode analisar somente o conteúdo ensinado em cada curso, mas é importante também avaliar as condições oferecidas pela universidade. Nesse ponto, entraria a qualificação do professor, se ele tem tempo para organizar as aulas e os próprios resultados de aprendizagem dos alunos.

Quatro perguntas para

Paulo Speller, secretário de Educação Superior do Ministério da Educação

No Brasil, também existe dificuldade de conciliar pesquisa e ensino, como está se debatendo nos Estados Unidos?
A própria definição de universidade implica na produção científica, e o locus privilegiado dessa produção são as universidades. Então, deve-se esperar que um professor, na sua carreira, busque a produção científica dentro da perspectiva da relação indissociável de ensino, pesquisa e extensão. Pesquisa aparece em primeiro lugar, porque, quando você fala em extensão e ensino, você necessita de uma base de produção que vai ser ensinada e estendida à sociedade. Então, o pilar da universidade é a pesquisa. Talvez o professor Carl Wieman, ao falar da realidade dos Estados Unidos, aponte uma situação relativamente diferenciada. Lá, você tem um processo que se aproxima da universalização do acesso ao ensino superior, que se dá fundamentalmente por meio dos colleges. Eles são, muitas vezes, a base inicial, um primeiro ciclo da formação superior. A maioria não tem laboratórios de pesquisa e programas de pós-graduação, que você vai encontrar nas universidades. Essa diferenciação existe, mas uma universidade sem pesquisa, sem produção científica, sem cursos de pós-graduação, não é uma universidade.

Qual é o desafio do Brasil para o ensino superior?
Um dos desafios é buscarmos atender o projeto que está tramitando no Congresso Nacional prevendo 30% dos nossos jovens adultos, de 18 a 24 anos, matriculados em cursos de nível superior. O Brasil começou muito tarde, nossa primeira universidade vem do século passado. Ainda que você tenha tido as primeiras universidades com a vinda da Corte portuguesa, em 1808, foram nos últimos 60 anos que começou o processo de criação de novas universidades. Por isso, essa questão quantitativa é importante. Junto, temos que ter a qualidade. Não adianta você expandir sem qualidade. Apesar de existir uma discussão sobre o que é qualidade, estamos falando de uma pertinência social e que atenda as demandas de crescimento do país. Você deve ter a preocupação de incluir os diferentes estratos da população e atingir todas as regiões e, ao mesmo tempo, atender demandas de crescimento econômico.

O senhor pode dar um exemplo?
Você pode pegar a discussão referente à necessidade de engenheiros. O país não tem um número suficiente. Então, você tem uma política de Estado com programas específicos, alocação de recursos para abertura de novos cursos. Os resultados já começam a aparecer. Na semana passada, tivemos a notícia de que a matrícula nos cursos de engenharia já supera a dos cursos de direito. Estamos caminhando paulatinamente para uma efetiva universalização do acesso ao ensino superior, com novas instituições, ensino a distância com maior qualidade, tecnologias de informação em comunicação. Ao mesmo tempo, você tem que trazer a preocupação de uma educação básica de qualidade, que é por onde passam a criança e o jovem antes de chegar à universidade.

E como evitar a evasão e garantir a permanência dos alunos no ensino superior?
Hoje, existe um programa nacional que investe R$ 500 milhões nas universidades federais para permitir programas de auxílio-moradia, transporte e alimentação. Não basta criar e interiorizar universidades, fazer lei de cotas, se você não dá condições objetivas para que o aluno permaneça até o fim do curso, um local para ele comer, morar e formas de se deslocar. É um desafio colocado para reverter os índices de evasão, que são preocupantes. São com ações desse tipo, materialmente identificadas, que você vai enxergar como reverter esse quadro. Esses recursos ainda precisam crescer, e vão crescer.

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