SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Tecnologia

Cílios superpoderosos

Pesquisadora cria sistema que ativa equipamentos com o piscar dos olhos. O invento, premiado em competição internacional, faz parte de tendência que une inovações tecnológicas com roupas e acessórios

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 24/04/2013 19:00 / atualizado em 24/04/2013 11:19

Roberta Machado

Que tal realizar uma tarefa num piscar de olhos? Essa é exatamente a habilidade que Katia Vega, 29 anos, demonstrou em uma competição tecnológica em fevereiro em Barcelona, na Espanha. Vestida de super-heroína, a estudante colombiana deixou todos de queixo caído ao fazer um objeto levitar, literalmente, com o comando de uma piscadela do olho esquerdo. E, quando ela fechava o direito, um projetor trocava as imagens exibidas, sem que qualquer botão precisasse ser apertado. O segredo da mágica estava num par de cílios postiços especialmente modificados para cumprir a função de controle remoto.

A conquista faz parte do projeto de beauty computing (computação da beleza, em inglês), tema do doutorado da jovem peruana. O feito, que mais lembra as habilidades mutantes dos personagens da série de quadrinhos X-Men, ganhou o primeiro lugar no TEI Design Challenge, uma competição internacional de tecnologia de interação tangível, incorporada e personificada. A ideia da maquiagem eletrônica foi desenvolvida no Departamento de Informática da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), e venceu outras ideias de jogos e performances de países como França, Canadá e Alemanha. Com prêmio, a pesquisadora ganhou mil euros.

Os cílios postiços foram tratados com uma solução de prata que transformou o acessório numa peça com poder condutor. Graças a um banho de níquel preto, os fios metálicos se esconderam entre as pestanas naturais de Vega, mantendo o truque em segredo. Sem baterias ou antenas, o aparato eletrônico de beleza foi conectado a um transmissor que a pesquisadora levava escondido sob uma peruca. Os fios que serviam de ponte para o sistema era a própria maquiagem: um adesivo lhe servia ao mesmo tempo como delineador e condutor que ligava os cílios ao transmissor.

Ao piscar, a união das pálpebras fechava o circuito eletrônico como duas extremidades de fios que se ligavam. Isso acionava o transmissor, enviando um sinal de rádio ao controle remoto do projetor e do brinquedo flutuante. “Quando comecei a fazer esse projeto de super-herói, achei que seria divertido me fantasiar e ter poderes especiais, mas não esperava esse resultado. Fui apenas para me divertir”, confessa Vega, que é a principal voluntária para testar as próprias invenções. “Falei com um engenheiro químico e fiz consulta com um médico. O produto não faz mal aos olhos”, assegura.

Para vestir
A especialista conta que passou a se interessar pela tendência da wearable computing (computação de vestir, em inglês) durante uma temporada de estudo em artes em Hong Kong. Os acessórios de beleza pareceram uma escolha natural para ela. “É uma coisa que você veste, mas não pode interferir com a atividade diária. Você tem de incorporar isso e carregar o tempo todo no ambiente pessoal, e acreditamos que podemos incluir e esconder essa tecnologia. Nossa ideia é ter diferentes tipos de controles eletrônicos escondidos no corpo”, afirma a aluna de doutorado. “Eu gostaria que isso fosse usado por pessoas comuns para pagar contas, pegar o metrô, abrir portas e ativar luzes”, enumera.

Às vésperas de o mercado ser inundado com novidades tecnológicas de vestir, Vega pensa em como trazer o computador para ainda mais perto do usuário: ela se dedica a criar formas de usar a própria pele como dispositivo de uso simples e intuitivo. Em vez de puxar um telefone do bolso, por exemplo, bastaria mudar a expressão facial ou fazer um movimento de dedos para comandar todo o tipo de aparelhos. Entre as possibilidades de unir beleza e tecnologia, a jovem já considerou trabalhar com tatuagens, e também desenvolveu um sistema de unhas postiças equipadas com etiquetas eletrônicas que abrem fechaduras eletrônicas (veja acima).

 “Se a gente for raciocinar, a atenção com que usamos com a tecnologia a desumaniza. Isso acontece quando temos de pegar um celular na hora que estamos dirigindo, por exemplo. Ficamos ligados em como resolver uma tarefa, e não na tarefa em si”, exemplifica Hugo Fuks, orientador do projeto de Vega e professor do Departamento de Informática da PUC-Rio. O especialista acredita que é possível criar formas de acessar a internet, mandar mensagens ou se informar sobre um assunto de maneira intuitiva, com as ferramentas eletrônicas incorporadas a objetos, ambientes, acessórios e pessoas. “Precisamos de menos computadores e mais computação”, resume.

Um exemplo desse tipo de tecnologia é o comentado Google Glass, óculos sem lentes equipado com um controle sensível ao toque, wi-fi, bluetooth, GPS e câmera. Em vez de acessar a rede por meio de um laptop ou telefone, o usuário pode apenas dar o comando por voz e conferir textos e imagens por uma tela de LED de meia polegada, localizada no canto direito superior da visão da pessoa. O dispositivo, que já está nas mãos de uns poucos usuários que ganharam um concurso pela internet, deve ser lançado no fim do ano, a um preço estimado de US$ 1,5 mil.

Futuro promissor
Por enquanto, o uso desse tipo de tecnologia é altamente especializado, e está praticamente restrito a hospitais e equipamentos militares. Mas o interesse do público deve popularizar o conceito wearable nos próximos anos. Uma estimativa da IMS Research aponta que o número de dispositivos sem fio para serem usados como acessório ou vestidos pelos usuários deve chegar a 171 milhões nos próximos três anos. O número é 12 vezes maior que os 14 milhões de itens registrados atualmente. Entre ferramentas de comunicação, utensílios de segurança e monitores de saúde, o mercado deve crescer o suficiente para representar um negócio de mais de US$ 6 bilhões.

Boa fatia desse montante depende de outro projeto de vestir, o misterioso smartwatch da Apple. Há meses, boatos especulam que as pesquisas da empresa da maçã em novas categorias teria resultado na criação de um relógio de pulso que tornaria o uso de aplicativos tão simples quando consultar as horas. Imagina-se que o acessório possa ter o design parecido com o iPod Nano da sexta geração, ou ainda que seja formado de uma pulseira de vidro encurvado.

“Em três ou quatro anos, vamos definitivamente ver um smartwatch que provavelmente tem a mesma capacidade que um telefone de última geração, e talvez até mesmo de um smartphone simples”, especulou Josh Flood, analista da empresa de pesquisas ABI, em entrevista ao canal canadense CVT News. O grupo britânico, que é especializado em tecnologia, especula que a indústria wearable deve chegar a 485 millhões de unidades até 2018. Por enquanto, não há informações oficiais a respeito do relógio da Apple, mas uma pesquisa divulgada nesta semana pela consultoria ChangeWave Research estima que um entre cada cinco norte-americanos compraria o produto.
Tags:

publicidade

publicidade