SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Ciência

O futuro do segredo da vida

Sessenta anos depois da descrição do DNA, pesquisadores se debruçam sobre a genética e prometem, para os próximos anos, técnicas de sequenciamento mais rápidas e baratas. O avanço deve levar a terapias personalizadas

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 29/04/2013 19:00 / atualizado em 29/04/2013 12:39

Grasielle Castro /Correio Braziliense

A elegante estrutura em forma de dupla hélice da molécula de DNA, sigla em inglês para ácido desoxirribonucleico, é uma das imagens mais fortes já produzidas pela ciência. A aparência do código que contém o manual de instruções completo de todos os seres vivos apareceu pela primeira vez em 1953, em artigo de apenas uma página na revista científica Nature, assinado por Francis Crick e James Watson. Na época, eles tinham 36 e 25 anos, respectivamente, e propuseram um modelo tridimensional para a molécula, que já era conhecida, mas ninguém sabia como se comportava.

Além de ter valido aos cientistas um Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina na década seguinte, a descoberta ofereceu a leigos e profissionais a promessa de um mundo de descobertas que pareciam saídas de contos de ficção científica. Uma primeira leva de possibilidades se concretizou, como a habilidade de desvendar crimes no laboratório e testes de paternidade. Outras conquistas — como a previsão ou mesmo a cura antecipada de doenças e o desenvolvimento de tratamentos médicos altamente personalizados —, contudo, ainda esbarram nos altos custos das pesquisas e nos próprios limites da ciência. Ninguém duvida, porém, que os próximos 60 anos de estudos do DNA têm tudo para apresentar resultados ainda mais brilhantes do que o que conhecidos até agora.

Mapeamento

As perguntas que os cientistas se fazem hoje mudaram, segundo Rob Bennet, diretor de pesquisa e desenvolvimento da Life Technologies, empresa especializada em biotecnologia sediada na Califórnia e com escritório em diversos países, como o Brasil. “Não é mais sobre a estrutura do DNA (que falamos). Ela é compartilhada entre todos nós. Agora, queremos saber o que nos torna um diferente do outro”, explica. Ele destaca que a tecnologia tem avançado rápido. “O primeiro genoma humano sequenciado custou US$ 3 milhões e levou anos para ser feito. Atualmente, é possível sequenciar por pouco mais de US$ 1 mil e em poucos dias”, ressalta.

A expectativa do pesquisador é de que cada vez mais pessoas tenham o genoma sequenciado. “Com isso, poderemos saber o que faz alguns de nós suscetíveis a certas doenças, e outros, não. Poderemos também usar a informação para tratar enfermidades”, acrescenta. Bennett, porém, destaca que ainda há muito pela frente até que o mapeamento genético seja vendido na farmácia. “Eu diria que não nos próximos cinco anos”, afirma. Segundo ele, ainda é preciso ir mais a fundo na interpretação do genoma para chegar a uma informação concreta sobre como ele se comporta.

Líder de grupo de pesquisa em genômica funcional e genética epidemiológica de doenças infecciosas do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), o pesquisador Milton Moraes avalia que os resultados alcançados nos últimos anos possibilitaram uma avaliação bastante detalhada da genética do homem. “As ferramentas para fazer esse trabalho estão bastante difundidas, mas ainda custam caro. Talvez esse seja o grande gargalo”, explica.

Os sequenciadores estão cada vez mais comuns nos laboratórios brasileiros. David Rug-gerio, chefe da Divisão das Américas da Life Technologies, explica que, enquanto esse mercado cresce em média entre 8% e 10% no mundo, na América Latina, a taxa fica em torno de 15%.

Luta contra o câncer
Diversas linhas de pesquisa têm trabalhado com o intuito de destrinchar o DNA. Uma das principais expectativas que se apoiam nos estudos é a da descoberta da cura do câncer. Um dos pesquisadores que trabalha com esse foco é o presidente de Ciências Médicas da Life Technologies, Ronnie Andrews. A expectativa dele é que, em breve, se popularize, entre os laboratórios e médicos interessados na parte técnica do tratamento, um banco de dados com informações sobre os tumores e sequenciamentos de genomas de cada paciente.

Esse leque de informações, segundo ele, tornará possível comparar como cada agente atua em cada paciente. Consequentemente, será possível indicar quais medicamentos podem proporcionar melhor resultado. Para isso, basta saber questões básicas, que também transitam em outros laboratórios. “Qual a origem do turmor, como ele se comporta e por que atinge mais uns que outros. Essas são algumas das perguntas que queremos responder”, diz.

Já o responsável pelo laboratório de bioinformática da Universidade de San Diego, na Califórnia, e professor colaborador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tem usado uma ferramenta de sequenciamento para estudar a bactéria da cólera. “Queremos saber de onde a doença vem, por que algumas pessoas têm mais facilidade para ser infectadas que outras. Podemos chegar a essas informações sequenciando e comparando genomas”, destaca.

O aniversário de 60 anos do DNA é marcado ainda pela inserção no mercado europeu do primeiro tratamento com capacidade para alterar o DNA dos pacientes. Ao custo de US$ 1 milhão por paciente, o Glybera é indicado no tratamento da LPLD, doença rara, que não possibilita a absorção de alguns tipos de gordura. (GC)
Tags:

publicidade

publicidade