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Nem foi tempo perdido

Com estreia marcada para sexta-feira, Somos tão jovens traça um retrato juvenil e vigoroso de Renato Russo

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postado em 01/05/2013 11:00 / atualizado em 01/05/2013 11:02

Ricardo Daehn

Em entrevista ao Correio,  quatro meses de morrer (em 1996), Renato Russo fez uma análise concisa da adolescência, já distanciado do período de hormônios efervescentes e de grandes descobertas da vida: “Alívio”. Juventude rimava com dificuldade. Num contrapeso, à frente da superprodução Somos tão jovens, o cineasta Antônio Carlos da Fontoura estava decidido a conservar o frescor, isento da percepção quase melancólica do astro do rock nacional, morto aos 36 anos: “Não queria fazer um filme triste sobre uma pessoa doente”. Nessa outra vibração, o reverso — de celebração exagerada de um mito, despontado no grupo Aborto Elétrico — também poderia dar margem à armadilha. “Eles (Renato, Fê e Flávio Lemos) não eram os reis do rock, eram moleques fazendo banda de garagem”, sublinha o diretor do filme, que chegará às telas na sexta-feira.

Indissociável ao sucesso da Legião Urbana, uma cinebiografia de Renato Russo daria margem também à overdose de glórias. “Eu podia fazer o filme do roqueiro famoso, viajando de avião e dando show pra 1 milhão de pessoas. Não quis fazer isso. Quis fazer como o Júnior criou o Renato Russo e como Brasília criou ele”, delimita. Lidar com o peso de um futuro ídolo — à frente de multidão de admiradores — contou com a habilidade e o bom senso do protagonista da fita, Thiago Mendonça. “Preocupar-me com gestual ensaiado e com a legião de fãs, de modo anterior a meu trabalho, não seria saudável. Se ficasse muito preso a isso, eu ia medrar. Claro que foi uma responsabilidade muito grande, mas foi tudo muito natural. As entrevistas e os vídeos dele que vi foram organicamente absorvidos”, explica o ator.

“De tão especial que foi, o Renato está aí até hoje”, emenda Thiago Mendonça. “A gravadora EMI diz que Renato é um dos cinco casos mundiais de carreira post mortem atuais”, confirma Antônio Carlos da Fontoura. A sensação de Somos tão jovens, porém, não denota continuidade, mas vivacidade e formação. Na base do descaramento, o diretor assume o hábito de dormir em cinema. Daí, não desejar o mesmo para sua plateia. “O grande público do Renato tem, entre 14 e 25 anos. O filme assume, portanto, linguagem jovem. No começo, tínhamos cenas dele sofrendo muito (em decorrência da epifisólise, uma rara alteração óssea). Na narrativa, queria chegar logo ao rock. Queria o vigor e a energia”, sublinha o cineasta. Na base do jump cut — ferramenta de edição que acelera o que está na tela — o diretor desviou do que fosse “explicadinho”.

Com roteiro assinado por Marcos Bernstein (de Meu pé de laranja lima), produção musical de Carlos Trilha e consultoria técnica do jornalista e escritor Carlos Marcelo (Renato Russo — O filho da revolução), o longa-metragem se concentra na Brasília, de fins dos 1970 e início dos 1980, que gestava os garotos da Aborto Elétrico, Plebe Rude, Capital Inicial e afins. “A turma era o motor do Renato. Mais do que tudo, os amores dele eram a turma e a música”, sentencia Antônio Carlos da Fontoura. Daquela época, em meio a transformações físicas e emocionais, o Júnior, franzino e debilitado, deu passagem ao colosso temperamental e criativo, na base de solavancos e desajustes. “Em cima da cama é que nasce o ídolo. No auge da juventude, ele transforma o tédio dos seis meses de limitações, ao se alimentar de música e de literatura. Com essas referências, ele se forma”, detecta o ator Thiago Mendonça.

Exposição comedida

Itens comuns ao arsenal de bisbilhotices legítimas dos fãs (para além do rock), sexo e drogas não foram ignorados no filme. Mas, desde já, com pitada de travor. “Muito oculto e centrado nele mesmo”, nas palavras do diretor, Renato se mostrava absolutamente interiorizado. “Quando falei com o Dado Villa-Lobos e o Marcelo Bonfá, ouvi coisas como: ‘Fiquei surpreso quando ele se declarou homossexual —, as pessoas não tinham essa conotação dele’”, diz o diretor. “Fundimos a dualidade dele. Renato era uma pessoa, afetivamente, em busca da verdade dele”, emenda. No vácuo da liberdade, criada pela fusão de três ex-namoradinhas do cantor, a atriz Laila Zaid dá vida à fictícia Ana Cláudia, “a menina que ensinou quase tudo que o futuro ídolo sabia”. “Fui bem intuitiva na construção da Ana. Fui na onda do Thiago Mendonça e da galera. Aliás, pra mim, ele era o Renato: só conheci o Thiago muito depois”, analisa Laila.

Numa frequência de “congraçamento”, como reforça Fontoura, Somos tão jovens foi forjado. Nesse clima de festividade, o cineasta deixa escapar: “A razão principal de fazer o filme era ser realizado em Brasília. Eu adoro Brasília”. Sensação desigual à do antigo rapazote que, numa época sem game ou shopping, burlou o estranhamento junto da capital com doses cavalares de criações (Que país é este e Veraneio vascaína, pra citar poucas), ao lado dos parceiros Fê (Bruno Torres), Flávio Lemos (Daniel Passi) e André Pretorius (Sérgio Dalcin).

Aos 31 anos, Thiago Mendonça encarou o desafio de refazer parte do caminho do artista, já intenso, aos 17 anos; um carioca que ousou se afirmar até como Trovador Solitário. “Meu compromisso foi com o trabalho, com esse cara, mais do que com a Legião Urbana. Agreguei o atuar, o cantar e tocar, sem pensar nos três, simplesmente, estando”, reforça o ator, que conclui: “Do discurso politizado ao discurso sentimental, humano; Renato era um poeta e me sinto privilegiado por transmitir isso”.

 

Três perguntas // Carlos Trilha

 

“Ao ver o filme, percebo as sutilezas de interpretação e fico muito emocionado. No fim, quando aparece o Renato, volta toda a memória da pessoa. Na verdade, foi um trabalho feito com muito afeto. Tudo feito com amor à memória de um amigo”, observa o produtor musical Carlos Trilha, responsável pela quase exigência de que Somos tão jovens demandasse apresentações ao vivo dos atores responsáveis pelos personagens Renato, Fê e Flávio Lemos.

Na direção musical do filme, qual foi seu norte? Como foi sua relação com o Renato?
Trabalhei com o Renato entre 1995 e 1996. Foi uma convivência intensa, em que ficávamos meses dentro de um estúdio. Você vai se aproximando muito da pessoa. Uma coisa que sempre tive em mente no filme: foi a de fazer coisas que ele gostaria que fossem feitas. Estou com minha consciência tranquila e tenho certeza de que fizemos um belo trabalho. Além da direção musical, fiz o desenho de som. Cada cena, eu devo ter visto umas 100 vezes; mas, igualmente, fico emocionado.

Como foi o trabalho com os atores?
Foram três meses de intensivo, das 9h às 18h. Tirei gente do zero, musicalmente falando. Tudo bem focado em performances específicas das músicas tratadas. Tudo muito detalhado, com exercícios e repetições. Trabalhei muito ritmo, pela segurança desse ajuste. O que valia era o som de conjunto.

Qual seu momento preferido?
O momento de Ainda é cedo, acho que, musicalmente, é o principal do filme. Foi a cena pela qual comecei a trabalhar. Seria o ápice musical. No começo, todos ainda estavam desafinadinhos, não tocavam tão bem. Eles estavam começando e vão se aprimorando. A impostação vai ganhando mais pressão e tudo fica mais sólido. Chegamos até o ápice musical, da fase antes de o Renato sair de Brasília.

Somos tão jovens
Pré-estreia do longa, somente para convidados, no shopping Iguatemi (Lago Norte). Amanhã, às 20h30, com presenças do diretor Antônio Carlos da Fontoura e dos atores Thiago Mendonça, Laila Zaid, Bruno Torres, Ibsen Perucci, Kael Studart e Victor Carballar. 

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