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Ciência

A busca por uma nova Terra

Desde 1989, os cientistas descobriram centenas de planetas fora do Sistema Solar. O maior desafio, contudo, é encontrar maneiras mais precisas de afirmar quais podem abrigar alguma forma de vida

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postado em 03/05/2013 18:00 / atualizado em 03/05/2013 12:13

Desde que começaram a ser identificados, em 1989, os exoplanetas — aqueles que orbitam uma estrela que não seja o Sol — se tornaram alvo do interesse de cientistas e do público leigo. Saber da existência desses corpos estimulou ainda mais a humanidade a buscar a resposta para uma antiga pergunta: há vida em outra parte do Universo? Desde então, as técnicas de busca por esses objetos foram aprimoradas a ponto de os astrônomos já terem identificado cerca de 880 deles e estimarem que eles existem ao bilhões. Contudo, dizer se há seres habitando esses mundos distantes é uma tarefa mais complexa, ainda muito debatida pelos especialistas. Duas semanas depois de pesquisadores anunciarem a identificação dos dois planetas “mais parecidos com a Terra encontrados até agora” — o Kepler-62e e o Kepler-62f (veja quadro) —, a resista Science apresenta dois artigos que discutem o que já se sabe sobre esses astros e quais as novidades na área.

O autor de um dos trabalhos, Andrew Howard, astrônomo e professor da Universidade do Havaí, destaca que eles sempre serão uma esperança na busca de locais que poderiam ser habitados. E acrescenta que, até agora, mostraram que a forma como os corpos se organizam no Cosmos é muito variada. “A Terra não é o centro do Universo, e o Sistema Solar não fornece um modelo universal para arquiteturas de sistemas planetários. A diversidade de características dos exoplanetas demonstra que a maioria das particularidades do Sistema Solar seriam o resultado de um contínuo de possibilidades”, ressalta no trabalho.

Quando começaram a ser encontrados, os exoplanetas eram chamados de Júpiteres Quentes, porque os primeiros achados eram grandes e orbitavam bem perto das estrelas hospedeiras. Isso trouxe muitas questões sobre como eles poderiam ter evoluído até as configurações que possuem hoje, já que os planetas gigantes do Sistema Solar se formaram em regiões bem mais afastadas do Sol (a distância de Júpiter até o Astro Rei é cinco vezes maior que a da Terra).

Recentemente, contudo, com o avanço tecnológico, os esforços se voltaram para a descoberta de planetas menores, mais semelhantes à Terra, visando à possibilidade de, no futuro, encontrar vida neles. E eles não são poucos. “Planetas de tamanho intermediário entre a Terra e Netuno são surpreendentemente comuns no sistema extrassolar. (Análises) mostram claramente que os pequenos são mais numerosos que os grandes”, escreve Howard.

O astrônomo destaca a contribuição fundamental da missão Kepler, projeto da Nasa (a agência espacial dos Estados Unidos). Desde o lançamento, em 2009, a sonda, munida de um supertelescópio, já identificou  mais de 2.300 candidatos a exoplanetas, que ainda precisam ser confirmados. “O objetivo principal do telescópio Kepler é detectar planetas do tamanho da Terra na zona habitável. Entretanto os planetas mais detectados, recentemente, são os de baixa massa”, explica o especialista.

Classificação
Adrian Rodriguez, astrônomo da Universidade de São Paulo (USP), considera que essas descobertas, independentemente do tamanho do corpo, são sempre importantes para ampliar o conhecimento sobre o Cosmos. E ressalta que as centenas de objetos identificados é uma parcela ínfima do que existe lá fora. “Eles já detectaram dezenas de planetas com massa entre uma e 10 vezes a do nosso planeta, conhecidos como Super-Terras. Hoje, com os planetas gigantes, a soma dos corpos descobertos é cerca de 880. Mas já existe a certeza de que na nossa galáxia há bilhões deles, levando em conta que a região de busca abrange um raio de 300 anos-luz, e o raio da galáxia é de 100 mil anos-luz. Isso só na nossa galáxia. Existem bilhões delas no Universo”, complementa.

Diversos critérios que buscam classificar os exoplanetas como habitáveis (com potencial para abrigar alguma forma conhecida de vida) vêm sendo desenvolvidos desde 1989. A distância entre os objetos e a estrela que eles orbitam é o ponto de partida dos astrônomos. Para ser habitável, um corpo não pode estar nem muito perto nem muito longe do astro, dando, assim, condições para que exista água no estado líquido, base para o surgimento de organismos.

Essa classificação, porém, não é suficiente, defende a astrônoma Sara Seagan, autora do segundo artigo publicado na Science. “Nos preocupamos só com a água líquida da superfície. O problema é que não podemos vê-la em alguns exoplanetas. Eles estão muito longe, e as nossas técnicas não permitem observar um planeta ao lado de uma estrela hospedeira brilhante”, explica ao Correio a professora do Instituto de Tecnologia de Massachussets.

Em seu texto, ela apresenta uma nova forma de classificar os exoplanetas, levando em conta a massa e o raio deles. Ao calcular essas medidas, é possível indicar a composição do objeto, um componente importante, já que os gasosos, por exemplo, possuem uma massa menor e não podem abrigar vida, mesmo localizados na chamada zona habitável. “Um planeta nessa região não tem garantia de ser realmente habitável. Vênus tem massa e localização semelhantes à Terra. No entanto, é completamente hostil à vida, devido a um forte efeito estufa e, consequentemente, temperaturas de superfície elevadas”, exemplifica Seagan. “E mesmo planetas muito diferentes do nosso poderiam ter em sua superfície água líquida e, portanto, suportar a vida”, completa.

Para o astrônomo Hélio Rocha, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os dados apresentados pela astrônoma são muito interessantes e eficazes. “Será possível classificar a maior parte da dimensão do planeta e da composição por meio do raio e da massa. Utilizando um exemplo citado pela astrônoma, se você tem um planeta que tem uma massa de mil massas terrestres, mas o raio é superior a 15 raios terrestres (unidades utilizada para medição), a densidade dele seria tão baixa que já o classificaria como gasoso”, esclarece.

Dessa forma, Seagan pretende contribuir para a busca humana pela resposta de uma intrigante pergunta existencial. Entender como o nosso Sistema Solar se formou e evoluiu, olhando para outros sistemas planetários é um dos nossos objetivos. Mas a busca por vida fora da Terra é o nosso objetivo principal”, diz.
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