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Ciência

Chá-verde para tratar queimaduras

Pesquisadores brasileiros desenvolvem pele artificial produzida a partir da mistura da bebida com leveduras

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postado em 06/05/2013 18:00 / atualizado em 06/05/2013 11:28


Chá-verde: depois que recebe a adição de leveduras elaboradas especialmente para este fim, a bebida fermenta e dá origem a uma película medicinal a ser aplicada sobre a pele 
Chá-verde: depois que recebe a adição de leveduras elaboradas especialmente para este fim, a bebida fermenta e dá origem a uma película medicinal a ser aplicada sobre a pele


Belo Horizonte — Uma receita quase caseira, à base de chá-verde e leveduras, é a matéria-prima de um curativo biológico natural eficaz para o tratamento dermatológico. O resultado do preparo da bebida, acrescido dos micro-organismos, a partir de um processo de nanotecnologia, produz uma pele artificial capaz de regenerar o tecido danificado por queimaduras, cortes, úlceras e até lesões causadas por radioterapias. O produto, batizado de nanoskin, de aparência semelhante à de um papel de seda, é feito por uma empresa de São Carlos (SP) e já é exportado para a França e os Emirados Árabes. Além do tratamento médico, pesquisas apontam ainda para a possibilidade do uso para fins estéticos..

A técnica começou a ser desenvolvida em 2005. O diretor administrativo da Innovatec’s Produtos Biotecnológicos, Peterson José Bernardo, explica que as leveduras são colocadas dentro do chá — a bebida é preparada do modo tradicional, com açúcar e infusão — e ficam entre sete e 10 dias. Depois de fermentar, a mistura forma uma espécie de gelatina grossa, de aspecto semelhante a uma panceta de porco, que é triturada e desidratada para a produção da membrana.

Durante as pesquisas, foi preciso fazer várias mutações nas leveduras para se chegar exatamente àquela adequada ao produto. Por meio da nanotecnologia, as moléculas dos organismos foram alteradas no processo de fermentação. “Bem amarradas e entrelaçadas, as fibras ficam mais resistentes. Na nossa membrana, essa formação fibrosa é a mesma que a da pele humana”, afirma Peterson Bernardo. Ele explica os efeitos da pele artificial natural: “A causa da dor é um rompimento e, quando ele ocorre, o cérebro manda uma mensagem para localizá-la. Ao ser aplicada, a membrana religa, em poucos minutos, os pontos partidos, e o cérebro entende que o problema não existe mais. Consequentemente, não há mais dor. Não é efeito anestésico, ela simplesmente faz o papel da pele”, ressalta.

Na prática, a membrana substitui a pele temporariamente. Nesse período, alimenta o organismo, nutrindo, assim, as células com problema e acelerando a cicatrização. Em muitos casos, apenas uma aplicação é suficiente. Como o nanoskin é translúcido, é possível acompanhar a evolução, sem precisar retirá-lo. Outras vantagens clínicas apontadas são o menor risco de contaminação e de lesões ao tecido, conforto para o paciente e menor custo de trabalho. O uso também é simples: basta limpar a área lesionada, aplicar a película e umedecê-la com soro fisiológico para aderi-la ao corpo, protegendo-a com uma gaze. A pele artificial não pode ser removida até a cicatrização completa. O tempo para isso dependerá do organismo de cada paciente.

Os testes foram feitos, aprovados e o trâmite na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que começou em 2008, terminou no fim do ano passado. No Brasil, apenas hospitais particulares adquiriram o produto. “Na rede pública de saúde, o custo com mão de obra, medicamento e leito hospitalar poderia ser reduzido significativamente, pois uma pessoa não precisaria de um monte de remédios nem de ficar internada”, afirma Peterson Bernardo. Ele acrescenta que a diferença para outras peles artificiais é o processo: natural e pela nanotecnologia. As outras seriam composições químicas.

Exportação
Lotes do curativo biológico foram enviados para Paris e Dubai. A França quer ir além e propôs instalar uma filial da empresa em Estrasburgo, no leste do país. Na região, está localizado o polo trinacional (França–Alemanha–Suíça) BioValley, que conta com 12 universidades e mantém cerca de 3 mil grupos de pesquisa em biociências. A Innovatec’s conta com o apoio da Invest in France, agência criada para buscar iniciativas inovadoras em países estratégicos, como o Brasil, com potencial para expansão no mercado europeu.

Uma vez que o acordo é firmado, a empresa selecionada recebe uma consultoria para a instalação na França, que vai da melhor localização às políticas de apoio do governo francês às empresas estrangeiras, incluindo linhas de crédito especiais para pesquisa e desenvolvimento e o financiamento da operação. O salário de pesquisadores franceses e brasileiros que trabalharem na filial da responsável pelo nanoskin, por exemplo, será 50% financiado pelos recursos do governo francês.


Braço de paciente que teve uma queimadura tratada com o produto brasileiro: no fim do processo, mancha quase imperceptível 
Braço de paciente que teve uma queimadura tratada com o produto brasileiro: no fim do processo, mancha quase imperceptível


 

Celulite

A combinação de chá-verde, leveduras e nanotecnologia está sendo estudada para diferentes fins estéticos, como no combate à celulite. Efeitos positivos foram observados também nos seios: usado como protetor, o produto é capaz de nutrir a célula e deixar a mama mais firme. Outra linha de pesquisa, em parceria com a Faculdade de Medicina de Botucatu (SP), envolve o uso da nanoskin na fabricação de um olho artificial de baixo custo. Enquanto próteses atuais chegam a custar R$ 8 mil, o novo produto, caso aprovado, deve chegar ao mercado pelo preço de R$ 500.


"Ao ser aplicada, a membrana religa, em poucos minutos, os pontos partidos (da pele), e o cérebro entende que o problema não existe mais. Assim, não há mais dor”

Peterson José Bernardo, diretor administrativo da Innovatec’s


Uso temporário

O chefe do Serviço de Cirurgia Plástica e Queimados da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), Carlos Eduardo Leão, explica que o uso dos recursos artificiais — como a pele sintética produzida por meio do chá-verde e de leveduras, e as membranas obtidas da celulose produzida pela bactéria A. xilinum — é apenas temporário, pois os materiais são rejeitados após algum tempo, assim como ocorre com os enxertos homólogos (pele de outra pessoa).

“Os materiais provenientes de bancos de pele podem ser usados como tratamento de graves lesões, mas são substitutos temporários, uma vez que, depois de 15 dias em contato com o paciente queimado, são rejeitados pelo organismo. Porém, no período em que fica em contato com o paciente, essa pele de outra pessoa cumpre todas as funções protetoras da pele original, melhorando as condições gerais do doente, que poderá, então, receber a própria pele para a recuperação definitiva”, afirma.

Leão acrescenta que as peles de rã e de porco também são usadas como substitutas temporárias da pele humana queimada (enxertos heterólogos). As matrizes de regeneração dérmica criadas a partir de proteínas bovinas permanecem no organismo e não são rejeitadas. “Porém, os pacientes que se beneficiam delas precisam de enxertos da própria pele para complementar o tratamento”, diz. “O nanoskin é mais um produto concorrente aos já existentes que se junta ao vasto e caro arsenal para tratamento de pacientes”, avalia.
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