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Ciência

Meditar para aprender mais

Pesquisa feita nos Estados Unidos mostra que a prática da técnica conhecida como mindfulness melhora o desempenho de estudantes em testes

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postado em 08/05/2013 18:00 / atualizado em 08/05/2013 11:26

Paloma Oliveto

Preencher a mente com fórmulas, regras e dados tem sido a estratégia da maioria dos estudantes que enfrentam testes como vestibular e Enem. Esvaziar a cabeça, contudo, pode ser uma ideia mais produtiva, de acordo com um estudo publicado na revista Psychological Science, da Associação de Ciência Psicológica dos Estados Unidos. Uma pesquisa conduzida com universitários que se submeteram ao graduate record examination (GRE), prova que habilita para diversos programas de mestrado americanos e europeus, constatou que uma técnica usada na meditação, o mindfulness, melhorou o desempenho dos alunos.

Presente em religiões e filosofias orientais há milênios, a prática migrou do campo espiritual para os consultórios de psicologia. Na abordagem cognitiva-comportamental, tem sido utilizada para desenvolver o autocontrole e o autoconhecimento, melhorar a concentração e aliviar o estresse. Até em casa, durante as tarefas cotidianas, porém, é possível exercitá-la: de acordo com os adeptos, para chegar ao nível pleno de consciência, não é necessário estar sentado, de olhos fechados e com as pernas cruzadas. De acordo com eles, mesmo durante a faxina ou a ginástica pode-se afastar os pensamentos externos (veja quadro).

Na pesquisa, conduzida pela Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, 26 universitários fizeram oito sessões de 45 minutos ao longo de duas semanas. Os exercícios eram complementados nas atividades diárias, quando eles tinham de colocar a técnica em prática, e em casa, onde precisavam meditar por pelo menos 10 minutos adicionais. Na primeira metade do treinamento, os estudantes se sentavam sobre almofadas, em círculo. O instrutor os conduzia, pedindo que focassem a atenção em algum aspecto sensorial, como a respiração, o gosto de uma fruta ou o som de uma gravação. Nos 25 minutos finais, os universitários recebiam lições sobre mindfulness e compartilhavam as experiências pessoais, vivenciadas durante o treinamento.

Para comparação, ao mesmo tempo, 22 estudantes da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara receberam aulas de nutrição, no lugar de meditação. O assunto foi escolhido porque pesquisas sugerem que a alimentação também desempenha um papel importante no processo cognitivo. Durante as aulas, os participantes tinham lições sobre dietas saudáveis e, embora não precisassem seguir um regime específico, foram instruídos a adotar hábitos benéficos. No fim da pesquisa, os 48 universitários repetiram testes de fluência verbal e memória de trabalho — aquela que armazena informações importantes —, que haviam sido feitos uma semana antes do treinamento. O resultado surpreendeu os pesquisadores.

Em média, a nota dos estudantes que meditaram melhorou 16%, depois de duas semanas de mindfulness. No teste verbal, a pontuação passou de 460 para 520. Já entre os universitários que receberam lições de nutrição, não houve nenhuma diferença na performance. Segundo Michael Mrazek, aluno de graduação que liderou o estudo, não há mágica por trás da técnica.

“Testes como o GRE e o SAT (exame para admissão em universidades americanas) exigem foco e concentração. Nos Estados Unidos, temos uma indústria de cursinhos que enchem os alunos de informação e macetes. Contudo, não adianta gastar dinheiro se você não consegue se concentrar. O mindfulness tem esta proposta: conseguir se dedicar plenamente ao que você está fazendo”, explica. Mrazek acrescenta que outros estudos comprovaram os benefícios do mindfulness para diminuição do estresse, da depressão e da dor, entre outros.

O futuro psicólogo explica que estudos dirigidos, como os dos cursinhos pré-vestibulares, são baseados em tarefas focadas em uma habilidade cognitiva específica. Por exemplo, resolução de centenas de equações. “Na hora de fazer os exames, porém, os candidatos geralmente estão com uma carga enorme de estresse e se sentem pressionados.”

Complexidade
Especialista em mindfulness e autor de diversos artigos sobre o tema, o psiquiatra David Vago, do Laboratório de Neuroimagem Funcional do Brigham and Women’s Hospital, de Boston, afirma que, do ponto de vista científico, os efeitos da meditação são bastante complexos. “Conseguir se concentrar completamente em uma tarefa não é uma simples dimensão da cognição. Na verdade, isso envolve múltiplos mecanismos cerebrais”, afirma.

Em estudos que medem a atividade do cérebro por meio de exames como ressonância magnética, o psiquiatra identificou que, durante a meditação, há ativação de áreas relacionadas à motivação, à regulação da atenção e a das emoções, além do comportamento social. “Ao treinar o mindfulness, o cérebro reconhece essa intenção e começa a tentar encontrar hábitos ruins que dificultam a concentração. Nesse processo, é preciso controlar as emoções e o comportamento. É realmente bastante complexo”, diz. Segundo ele, embora pareça difícil no começo, com a prática, a pessoa consegue se distanciar dos pensamentos negativos e inibir impulsos naturais.

“Assim como sessões diárias de musculação melhoram a parte física, fazer exercícios de mindfulness pode deixar a mente em boa forma”, concorda o neurocientista Amishi Jha, do Departamento de Psicologia e do Centro de Neurociência Cognitiva da Universidade da Pensilvânia. Ele liderou um treinamento com militares americanos que se preparavam para servir no Iraque, com o objetivo de ajudá-los a lidar com o estresse. Ao longo do programa, Jha constatou que a meditação também melhorou o humor e a memória de trabalho dos participantes.

Atualmente, Mrazek  desenvolve um treinamento semelhante em colégios públicos dos Estados Unidos. O objetivo é verificar se crianças e adolescentes também podem se beneficiar da técnica.
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